PARA MARIA ALICE

As páginas somente porque são de material digital não estão encharcadas das lágrimas que, mal me dei conta, jorravam de meus olhos enquanto lia as cartas para Maria Alice. O último texto que me derrubou assim foi um conto quase pouco percebido do Osman Lins (A partida). Mas já se vão quase vinte anos que isso aconteceu. De lá pra cá, leio educado pela pedra do João Cabral de Melo Neto. E deixei para chorar apenas diante de filmes iranianos e do trompete do Chet Baker.

Até que vieram essas cartas para Maria Alice. Não há deus possível para acalentar tanta dor do parto, tanta dor do partir. Ser gente não é fácil. Ser homem é trazer uma angústia entre as pernas. Ser mulher parece às vezes nem ser. Mas a sua busca de não inexistir é parecida com a minha de me ver feliz sem a altiva ereção. Porém, confesso: sei nada dessa saudade de mãe porque sempre fui pai em exercício ininterrupto de desapego (sem falar na zona confortável de ser macho entre machos reinando a ilusão do poder).

Mas como um Fabrício Carpinejar, tenho cá a minha recaída de frase de autoajuda: a falta pode ser também a dose precisa do amor que se fortalece na presença. A única coisa racional, e um tanto absurda, que pensei foi começar a jogar na Mega Sena, não ganhar necessariamente sozinho o prêmio, mas ter grana suficiente para trazer você para perto de Maria Alice. Também lembrei de Zeca. Muito pragmaticamente, desejei que ele ainda estivesse entre nós, porque decerto seria ele, por aqui (que não é tão longe de onde hoje Maria Alice está), seu alicerce, seu bálsamo. Mas a vida… ah, a vida é uma causa perdida, como já dizia o rabugento Abujamra.

Tenho dito que desconfio que amor é nada mais do que uma tentativa constante de aceitação de si e dos outros. Aceitar a si, então, é das tarefas mais difíceis, principalmente, quando se perde algo tão valioso quanto ver a boca da filha ficando banguela.

Nem sempre Jesus salva. Ainda bem que existe o beck em sua vida, que te relaxa, te acalma, te abre para essa sensível forma de dizer que ama muito com textos emotivos, intensos e honestos (tiraria apenas um ou outro trocadilho infame… hahahahha).

Amanhã, quarta-feira, tem sorteio da Mega Sena. Apronta as malas, Maíra.

Beijo.

Cazinho.

A autora é historiadora e compartilha no seu texto histórias pessoais que contam ainda sobre a experiência de outras mulheres que questionam o lugar naturalizado de uma maternidade romantizada onde o ideal de feminilidade é quase sempre o de negação aos próprios desejos. Com um texto encarnado, as cartas reúnem memórias escritas em diferentes momentos de sua vida, em diferentes cidades que morou, com descobertas, angústias, desabafos e encantamentos sobre a maternidade e sobre si mesma. A mulher que se faz mãe, a mãe que se faz mulher, esse é um possível caminho de leitura por entre os sentimentos que escorregam das palavras de Maíra Castanheiro, uma mulher que antes de tudo se auto nomeia como antiproibicionista.

O livro Para Maria Alice são cartas de uma mãe para filha, onde ao longo do primeiro setênio, sua mãe e autora do livro, Maíra Castanheiro, escreveu cartas para ela.
Nestas cartas encontramos desabafos de uma mãeconheira que versa sobre a saudade que atravessa a relação delas e junto vem várias questões do mundo da maternidade: guarda compartilhada; machismo; feminismo; drogas e etc.
Os desenhos do livro passeiam pelas cartas e nos trazem a imaginação a narrativa poética/filosófica das cartas, criando uma história. Ilustrado pela artista e tatuadora Luana Vellame. Tininha Llanos é responsável pelo projeto gráfico.
O livro foi construído durante a primavera de 2019 entre os mares de Florianópolis e Salvador. Com muito dendê e sal marinho o livro foi tecido para além das habilidades técnicas de cada um, os afetos bordaram todo o processo de costura. Muito amor envolvido.
O livro é uma produção independente e conta com o apoio moral de Dia Nobre (Historiadora, escritora e feminista), da revista digital Mães que Escrevem e também de Patricia Rammos – Blog e vlog: Um abadá para cada dia.

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