Querido diário,

Mariaalice chegou. Entrei de férias. Verão chegou. E ele não ligou, nem uma mensagem de feliz natal. Ok, você venceu: batatas fritas.

Eu gosto de natal. Gosto de fim de ano e fechar um ciclo e começar outro.

<daqui pra frente tudo vai ser diferente>.

Junto com Mariaalice cuidando de casa, fazendo exercício fisco, muita lagoa e praia, leituras diárias, fizemos uma nova playlist: Mariaalice verão 2020. São vinte músicas de vários artistas: Lívia Nery, Marina Peralta, Adriana Calcanhoto, Alice Caymmi, Toquinho, Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque e Nara Leão, Gal Costa, Arnaldo Antunes e acho que é isso.

Comecei a fazer tricô, aprendi o primeiro ponto. Descobrimos que há muito que somos flextarianas. Começamos a montar um quebra-cabeça de 500 peças: vamos trabalhar paciência e persistência e atenção aos detalhes pra o encaixe certo.

Mariaalice corta as frutas, faz cuscuz, passa pano com vinagre nos móveis de madeira, e brinca com os diversos objetos da casa. Desenha, lê. Quando anoitece pede pra pôr Chopin.

A gente faz hidratação no cabelo, dança e canta. Quando o tio tá de folga passamos o dia juntos.

Outro dia eu e Mariaalice subimos mais o morro daqui de casa e fomos andar um pouco no bosque, caçamos alguns tesouros mas, como o mato tava muito alto e fechado não adentramos tanto, contudo ficamos curiosa para saber onde ía dar e parece que há uma cachoeira ou um riacho próximo.

Tenho tido muita preguiça de escrever, mentira, na verdade tenho evitado a escrever. Tenho medo de perder o sono, os dias, a linha. Medo de começar a escrever e não parar e sou mãe, não dá. Preciso estar sozinha para escrever sem medo de ser infeliz.

<um teto todo meu>.

Pensando neste ciclo que termina e neste noutro que inicia, e penso no que quero. No que posso fazer para meu querer. Desejos necessidades poderes. E na boa, eu só quero ficar de boas. É só isso mesmo. A gente aprende muito nas relações, nas conversações. E depois de tantas relações: família; amigos; paqueras, e são tantas as comunicações violentas, tanto acolhimento, tanto apoio, tanta treta, tanto tudo, que passa o tempo e a gente desencana desencanta e aprende que nó só pode ser plural: nós atados que desatam nós.

Ás vezes é muito cansativo esse rolê de relações, principalmente quando se é adulto tão cristalizado e limitado em sua próprio ego e ainda a correria de trampo estudos casa filhos família etc., e sempre tem os lugares de falas nessa relações: gênero etnia classe social etc.

Mas, crescer é isso: dar a cara pra bater e evoluir. Crescer dói. Autonomia auto cuidado auto amor estes “autos” tão em voga e tão necessários é um caminho sem volta e por vezes muito solitário, mas uma vez que você assume viver o que sente pensa e suas verdades, e isso por si só já é enfrentar (em alguma medida em algum nível etc) uma sociedade cristã capitalista patriarcal racista etc. e tal.

É novo (o novo é o mesmo ovo de sempre) isso nas nossas relações: estar trazendo a tona estas questões e apontando como as condições: históricas sociais econômicas culturais étnicas e de gêneros, interferem diretamente em nossas relações pessoais e atravessam nossas emoções expressas em nossas atitudes. Nossas linguagens, e são muitas, expressam nossas interpretações que pulsam desde o coração até a nossa massa encefálica. 

Ainda temos a tecnologia nas nossas comunicações/conversações/relações.

<alguma coisa está fora da ordem fora da nova ordem mundial>.

O bagulho tá louco, pesado, intenso, e nessa internet terra de ninguém vejo várias queixas e o mais louco que todo mundo se cansa e todo mundo acaba se tornando aquilo que mais se queixava temia evitava. Um tipo de aceitação conformista fracasso frustração e o mundo anda tão complicado que sem tempo, irmão.

O sol arde de brilhar mais uma vez, eu boto fé. E pelo visto, cada vez mais acredito que jah escreve certo pelas linhas tortas, nada é por acaso, etc., e sim, com tudo se aprende e é muito massa quando você percebe exatamente seus erros seus acertos e é consciente de seus processos.

<O mal do mundo vem de nos preocuparmos uns com os outros>. É caro poeta, sempre que penso neste verso sinto a potência libertadora que só é possível fazer por si mesmo, aliás, precisamos sempre de apoio acolhimento ajuda grana cama etc., mas no fim das contas a conta é sempre nossa e cabe a nós pagar, não adianta pendurar pegar emprestado fazer fiado, um dia tu vai ter que pagar sua conta. 

É difícil assumir para si suas próprias verdades: é mergulhar muito fundo no ego na sombra ir ao fundo do poço. E isso pode rolar algumas vezes na vida.

É difícil assumir os próprios desejos sonhos vontades e enfrentar as pedras no caminho. Foda, que essa sociedade nos faz acreditar que o caminho da tradicional família brasileira é o certo e mais fácil e no fim a gente vê o quão nos adoece dói e é difícil pra caraleo, ah mas agora já não sobram forças pra fazer o próprio caminho. É osso.

Por isso que acredito pensar a desescolarização como conceito filosófico pode contribuir para o devir do auto conhecimento auto formação humana auto educação auto terapia autonomia. Itcha, é empolgante.

Pois é, 2019 foi pesado, tenso, intenso e no fim fiquei suave na nave e feliz. Tipo: ufa! De fato me sentindo a cabra montanhesa, que consegue subir a mais íngreme montanha. Mas cansa né, e tive vontade de me jogar, pero segui. Estou seguindo, terminou não, acabou não, pode vir 2020: eu tô mais forte e mais livre.

Beijos, queijos e mel!

Floripa, 27 de dezembro de 19

01h32

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima