Querido diário,

justo na hora da virada eu e Mariaalice estávamos fazendo xixi. Rimos. Nos abraçamos e nos desejamos um excelente ano novo. Nossa galera estava cantando Chico Buarque, <vai passar nessa avenida o samba popular> com direito a percussão, violão, vários cantores, uma galera foda. Não estouramos o champanhe e quando percebemos que era a virada, nos abraçamos e seguimos a canção.

<Foi bonita a festa pá fiquei contente>.

Havia alguns anos que eu e Mariaalice não passávamos a virada juntas. Em 2015 ela passou com a Vó Margareth e com a prima Ana Júlia em nossa casa em Salvador. Em 2016 e 2017 com o pai no Ceará. Em 2018 aqui em Floripa com a Vó Margareth, tio Raoni, Tio Poty, Diego e Cecília, enquanto eu trabalhava numa rave.

Este ano decidi estar com ela. Dormimos agarradinhas, cansadas e felizes. Acordamos e fomos para a Cachoeira do Poção refrescar a cuca. Na ida, vimos um lindo Pica-Pau numa árvore. A água estava uma delícia. Na volta, uma cobra bem fina e comprida cruzou nosso caminho. Mariaalice se assustou e se afastou. E somente quando a cobra subiu na árvore ela se sentiu segura para se aproximar e ver mais de perto a cobra. Foi lindo.

Terminamos nosso dia em casa, sentindo a chuva, comendo pizza com a vizinha.

Acordei hoje com o sol raiando, tão lindo. Mas, logo voltei a dormir. Lá pelas dez, eu e Mariaalice acordamos e ficamos de dengo na cama por mais de uma hora até que ambas já famintas:

– Mãe, eu tô com fome, assim eu vou comer nossa casa.

Risos.

– Se você comer nossa casa, nós vamos morar aonde?

– Vamos morar dentro da gente.

Risos. Ok, você venceu: vou fazer cuscuz com ovo que é mais gostoso, digo isso cantando e rimos e levantamos.

Mariaalice tem dessas, <morar dentro da gente>, e acho graça e lindo como ela de brincadeira filosofa e faz poesia.

E cá estou a pensar sobre este verso do dia: <morar dentro da gente> é como Sócrates dizia, Ocupar-se de si mesmo.

Quase nunca estamos ocupados de nós mesmos. E ocupar-se de si mesmo lhe toma tanto tempo que não te sobraria para cuidar do outro, se cada um cuidar de si, tá todo mundo se cuidando.

Tem um tempo que venho pensando e refletindo, e a prática pedagógica Waldorf tem sido fundamental para elaborar essas reflexões, sobre a diferença entre cuidado e serviço.

Servir cansa, sempre. Os serviços domésticos cansam. E neste modelo de sociedade burguês capitalista patriarcal racista machista etc. e tal, educação, saúde e atividades domésticas, são SERVIÇOS e deveriam ser CUIDADO.

O serviço reproduz. O cuidado produz. Estamos produzindo pouco. E vejo muito de nós mulheres: mães, donas de casas e professoras, reproduzindo muito e produzindo pouco. E isso nos esgota e nos adoece. É muito acúmulo de reprodução, para atividades que deveriam ser total produção. É violento. E a gente sente essa pancada, dói, nos deixa abatida.

Quando penso sobre essas coisas, esses cansaços, a eterna correria, penso que não tem jeito. Enquanto o capitalismo não ruir, vamos seguir nesse cansaço, nessa eterna correria, e sem casa pra morar, ausente de si mesmo, gerando frustração, bads, medos, inseguranças, etc.

A gente tenta amenizar as pancadas com os serviços humanizados: buscando terapias alternativas, parto humanizados, uma escola legal pro filho, etc., mas isso não mexe na estrutura do sistema, alimenta na real, o ecocapitalismo, tem capitalismo pra todo mundo né?!, e mantém inclusive as classe sociais, os privilégios.

É foda. E cada um sobrevive como pode, com o que tem. Ninguém sobrevive sozinho, ser humano é coletivo né?! Logo, deveríamos nos ajudar. Só que não. E por isso há tanto sangue no olho, tanto ódio no coração.

Fazendo uma retrospectiva de meu 2019, foi um ano que gritei muito, gritei socorro, pedi ajuda, chorei, desabei, etc. E recebi muita ajuda, consegui me reerguer e ter força pra seguir meu caminho, embora tenha entrado em alguns labirintos e becos sem saídas neste meu percurso, eu nunca saí de meus trilhos. Mas, muita ajuda veio/vem acompanhado de treta/cobrança e uma carga emocional muito pesada. E isso me tem feito refletir muito.

Não vale a treta, não vale a cobrança, não vale o peso. Mais vale viver minhas necessidades, passando por elas. Não é orgulho, mas é uma questão de paz.

E de fato a gente acaba dando um jeito, passa pelo que tem que passar, e saí mais forte e mais sabido. E é um saber de si, é morar em si mesmo. E eu me sinto morada em mim mesma. E é confortável. Não está sendo fácil construir essa morada, que é um processo eterno/interno, mas fico contente de ver que apesar dos pesares a pesar, há também uma beleza, uma inteireza, um conforto, um equilíbrio, e uma paz.

Este ano vai ser de muita construção: concreta. A espinha está ereta, o coração e a mente tranquilos. Por aqui janeiro começou com sol fresco, terra úmida e vento forte. Amanhã o sol já arde de brilhar mais uma vez.

Enquanto cozinho o almoço, ouço chorinho, Mariaalice brinca lá fora sob o sol fresco a terra úmida e o vento forte, re-faço as contas e os planos, re-vejo as prioridades e necessidades, as mais urgentes, e como um xadrez, tento calcular todas as possibilidades que cada movimento possa gerar e qual poderá ser a mais certeira para dar o xeque-mate. Acontece que tem sempre o outro, e sobre o outro a gente nunca pode de fato prever como ele vai se mover. E por isso, que a gente precisa aceitar que nem tudo está ao nosso alcance, e não confundir que construir autonomia passa por ser autossuficiente ou que cuidar de si passa por ser egoísta e saber identificar quando é nóia ou quando é intuição. Enfim, vivendo e aprendendo.

Floripa, 02 de janeiro de 20

16h00

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