Querido diário,

são 23h18 e eu sinto um embrulho no estômago e uma leve fraqueza. Tenho dormido bem e me alimentado bem. Meu estômago queima. Me preparei um chá de alfavaca com aniz e um bom beck pra digerir este embrulho, esta ardência.

Caguei. Tomei chá. Me sinto melhor. Pausa pra bolar um outro beck.

Enquanto bolo o beck assisto o vídeo da Patrícia Rammos: um abadá para cada dia, cujo tema é Amor de migalhas. Eu dou risada e concordo com tudo. Daí me vem uma canção na mente: “vai ser difícil vai”… de Céu. Coloco pra ouvir. Repeat and repeat.

Acendo uma vela e um beck. <Mais um lamento>. Eu gosto das canções de lamentos. Outro dia ouvi por horas Lamento de Tim Maia.

Mas, nessa noite de superlua cheia é só <mais um lamento> de Céu.

Penso e sinto muita coisa. Há muito que chorar. Há muito que organizar. Há muito que fazer. Há muito que escrever.

Faz tempo que não escrevo. Já comecei inúmeras vezes e não tive coragem de seguir: medo de não mais dormir. Não parar. Espero hoje conseguir. Nem que seja apenas para me lamentar.

<que é só mais um lamento entre tantos já feitos>.

Penso no tanto que já amei e fui amada. E justo por acreditar no amor que eu quis ser só. Acredito no amor que tem força coragem verdade liberdade responsabilidade. Precisei/preciso dessa força coragem verdade liberdade responsabilidade para ser capaz de amar e ser amada. Para ser só. Para sobreviver. Não que antes eu não tivesse força coragem verdade liberdade responsabilidade. De muitas pegações e poucas relações. As poucas relações que tive: amei e fui amada. E de certa forma, sempre tive essa força coragem verdade liberdade responsabilidade. Porém, quando percebia o fim da relação eu soube pôr o fim. Jamais me permitir estar numa relação onde eu me sentisse insegura submissa triste fraca presa etc. Mas, isso não significa que consegui escapar totalmente aos machistas escrotos, porque em suma: amei e fui amada por machistas escrotos mas, <eles não eram tão maus assim>.

Diante de muitas histórias de relações que conheci e acompanhei, me perguntava de onde vinha essa força coragem verdade liberdade responsabilidade. Bom, as histórias de meus pais é de fato muita loucura: sexo drogas e rock and roll. Mas, tem um lance que acredito que é o fato de eu ter tido avô e pai muito presentes. Eles eram homens que cuidavam de si, de suas famílias e da casa. Expressavam com abraços, beijinhos e carinhos muito amor. Meu avô fazia perfume e estava sempre de bom humor. Meu pai, em geral também era bem humorado e lavava roupa de quatro filhos e agregados, a mão. Ok, eles eram machistas, mas, <eles não eram tão maus assim>.

Enfim, o que eu quero dizer é que minhas referências masculinas são boas, os homens que mais amei: meu avô e meu pai, me amaram e muito. Eles sempre foram presentes, até na distância. Sempre me trataram com carinho, amor, respeito. Sempre acreditaram no meu potencial intelectual. E vejo a importância dessas referências e imagens na minha vida. Meu avô era historiador. E meu pai escritor. Ambos professores. Eu juntei tudo isso aí [risos]. Tem coisas que é de carne karma. Acredito cada dia mais nisso. E acredito que só a educação nos trará uma evolução espiritual. E a educação se dá sobretudo através das relações. E a base das relações são as conversações. Humberto Maturana explica.

E tem sido cada dia mais difícil lidar/conversar com homens. Principalmente quando se há algum indício de tesão. E talvez seja isso o embrulho no estômago. O lamento. Converso com várias minas e várias queixas. O caso é real, oficial, é geral: Muita mina foda pra pouca pica. Os caras simplesmente não estão dando conta de suas próprias fragilidades/vulnerabilidades. A maioria está totalmente fora do lugar, assustado. Alguns simplesmente não sabem dizer não. Outros te mantém em stand by. Te chamam pra um café e te dão um chá de sumiço. Te enrola como se tu fosse o beck dele. Outros querem só te comer mas assim, na descrição, ninguém precisa saber da gente né, gata? Outros somem. É muita falta de força coragem verdade liberdade responsabilidade. Tem uns bem loucos: que demonstra estar bem afim e quando você retribui ele se emociona tanto que não sabe lidar com a tua segurança de estar ali de boas com o que você sente, ele treme nas bases, e te transforma numa louca apaixonada, que quer casar (na maioria das vezes a mina quer, primeiramente, TRANSAR), aí já caga tudo. Tem os românticos: aqueles que não superam a relação e que não há outro amor e como a ex é louca egoísta e provavelmente é imatura e não está bem psiquicamente. Aff. É cansativo e repetitivo. Peraí, que vou até fazer um fino pra organizar umas idéias cá. E dou uma leve risada. Ainda bem que tomei ar e coragem hoje pra escrever: <como é bom pode tocar um instrumento>.

Quanto aos caras valeu a inspiração: crio ótimas playlists e textos.

– Grava um cd e manda pra ele. Me sugeriu um cara.

– Você é estranha, não tem cortinas e espelhos. Me disse outro cara.

Voltando aos pontos: educação relação conversação evolução espiritual. A gente se educa pelas relações. A base das relações são as conversações. E quais sentimentos permeiam essas conversações? O que dá sentido ao verbo?

<É a emoção que define a ação>.

Como temos nos relacionados uns com os outros com nossa carne karma calma?

<vai ser difícil vai, encontrar um amor… como dói no meu peito>…

Hoje eu sei que a verdade e a liberdade, envolver e desenvolver, acontecem na reciprocidade. E quão logo percebo a falta da reciprocidade, já me situo. Eu me saio de onde não quero estar. Eu soul star.

E este acontecimento se dá pelo sexo: só se desenvolve quando se envolve. Me lembrei de um poema do poeta artista hippie Luís Cerqueira:

<quero que você me embrulhe me faça um pacotinho e me enrole em você>.

Tem uma galera cansada magoada e descrente deste rolê de se relacionar de amor de afeto etc. e tal. E se resolve. Supre seus afetos com amigos e famílias. Se cuida e ocupa-se de si. Estuda trabalha malha. Se diverte. Quando querem transar, usam o tinder.

Eu, sinceramente, não. Risos. Eu acredito no amor. Eu acredito na relação. Eu acredito numa relação que envolve desenvolve conhece anoitece amanhece. Eu acredito na relação que acontece na madrugada na risada na gozada no choro no consolo no abraço. No olho no olho. Dente por dente. Na palma da mão. No dia a dia.

A gente se re-conhece no outro. A gente cresce e se desenvolve nas relações. Mas, pra se desenvolver tem que se envolver. <Tem que ter amor na manha>. Com força coragem verdade liberdade responsabilidade. Disposição pra descobrir o sentir. Deixar star. Viver o processo: quando desembrulha temos borboletas no estômago.

Voltemos aos pontos: educação relação conversação evolução espiritual. Efeito borboleta. Envolver para desenvolver.

<sem desespero sem tédio sem fim>.

Floripa, 12 de março de 20

4h20