Querido diário,

hoje o diário de uma mãeconheira é de uma mulher que está sem a filha e sem maconha mas, ainda assim é mãeconheira.

Tem um corona vírus rolando pelo mundo que tá causando. Não vou falar sobre, as notícias são desastrosas. O caos tá instaurado e como tudo tem dois lados, metade do mundo vai se foder e a outra metade vai renascer.

01h47, nem um pingo de sono. Ouço Tim Maia no volume máximo.

-Mana, tá rolando baile aí?

A vizinha me manda mensagem.

– Tô ouvindo até teus pulos mana, você é engraçada.

– Sim, estou dançando, tomando vinho, fumando beck de chá de camomila, me inspirando pra escrever e não pirar.

Eu sou surda, pra mim o som nunca tá alto. Queria mesmo era um soundsystem. Mas, sigo meu baile. Estamos numa quarentena forçada por conta deste vírus aí. Não me angustia ficar o dia todo em casa sozinha. Me angustia a situação caótica e a incerteza de quando estarei com minha filha novamente, saudades define. Não ter meu pedaço de mim, aquela metade afastada de mim, aqui, me dói.

Nos três primeiros dias de quarentena eu ainda tinha maconha. Fiz uma faxina minuciosa, a tal faxina dos sonhos. Fiz mercado. Fiz feijoada. E fiz uma horta com ajuda do meu irmão: plantei abóbora abobrinha pimentão tomate coentro salsa crespa feijão e maconha. Fiz exercícios físico seguindo orientações de minha amiga irmã: Tati Sacramento. Estudei. Estava super produtiva. Até que a maconha acabou.

<Me segura que eu vou ter um troço>!

Aí veio o ócio criativo e percebi que geral tava confundindo alta produtividade: mil lives, mil cursos onlines etc., com ócio criativo.

Não há maconha na cidade e o que há tá caro pra caralho pra uma professora aqui, não rola, no money. Conclusão: estou há quatro dias, já indo para o quinto dia, sem maconha.

<Me segura que eu vou ter um troço>!

Na minha casa maconha nunca foi tabu. Meus pais sempre fumaram abertamente. Eu experimentei maconha pela primeira vez aos 18 anos com a galera da escola. Não dei bola. Aos vinte anos comecei a fumar socialmente: em festas com amigos. Aos 22, ingressei na faculdade de história e passei a fumar maconha diariamente. E desde então nunca tinha ficado 24 horas sem maconha. Mas eis que, aos 36 anos, morando numa kitnet no meio do bosque de frente pra lagoa de boas, chega um vírus desde da China pra fuder com tudo. Sem freela, logo sem grana, logo sem maconha. Quatro dias, já quase cinco, sem maconha.

Primeiro dia sem maconha: bateu uma tristeza, uma saudade muito fudida de Mariaalice, chorei, lágrimas rolaram. Me alimentei bem. Vi série. Vi o dia nascer e ouvi os pássaros cantar. Joguei minha tristeza pro universo.

Segundo dia sem maconha: bateu uma revolta da porra e quis encher o pai de Mariaalice de porrada, pois desde 2019 peço que ele tenha internet pra facilitar a comunicação entre eu e Mariaalice, pra gente poder se ver via vídeo. E ele por escolha não tem internet, concluo que ele escolhe dificultar comunicação entre mãe e filha.

Tomei quatro taças de vinho, e eu não bebo, meio lsd e fiquei bêbada. Fumei beck de chá de camomila e ri sozinha a toa. Me alimentei bem. Vi série. Vi o dia nascer e ouvi os pássaros cantar. Joguei minha raiva pro universo.

Terceiro dia sem maconha: bateu a razão. Depois de muita pressão e intervenção de advogadas consegui fazer uma chamada via vídeo com Mariaalice. Reunião virtual do trabalho. Pensei e refleti muito sobre muitas coisas. Mandei nudes pra um boy que não merecia e me arrependi. Deletei o boy da minha vida: <E tome tento, fique esperto hoje não tem papo, jogo-lhe um quebrante num instante você vira sapo>. Me alimentei bem. Vi série. Vi o dia nascer e ouvi os pássaros cantar. Joguei minha razão pro universo.

Quarto dia sem maconha: bateu a aceitação. Vou virar monja nessa quarentena: sem drogas e sem os prazeres da carne e isolada, acho que de fato vou atingir o Nirvana, ter a miração, a iluminação, entrar em transe. Separei uma bibliografia pra estudar, tô afim de mergulhar em Vírginia Woolf e voltar a escrever o meu livro: Homens. Me alimentei bem. Não vi série. E já são 02h43. A luz de velas, beck de chá de camomila, vinho e cá estou: in my dark side of the word.

Tem um ratinho minúsculo, do tamanho de um homem, que ronda minha casa. Sei porque as vezes o vejo e ele sempre deixa sua merda por aí. Ele vem atrás de comida e nunca encontra porque minha casa está sempre impecavelmente limpa. Mas, os ratinhos minúsculos do tamanho de um homem que sempre deixam merda por aqui, não cessam. Eu já matei vários. A chinelada. Com veneno. Com cola. Fiz até uma reunião no condomínio aqui e um dos donos que mora aqui desde a década de 1980 disse que sempre houve e sempre haverá estes ratos minúsculos do tamanho de um homem e que cabe a nós manter a casa limpa, fazer armadilhas e aplicar venenos etc.

Ok, você venceu: batatas fritas.

03h25, de Tim Maia para o Paraíso da Miragem de Russo Passapusso e agora Céu. A vizinha bruxa quer meditar me pediu pra baixar o som. Ok. O vizinho gay simpático e sensato tem mangueira e pedi pra ele molhar a horta quando ele estiver regando suas plantas. A outra vizinha jovem mística artista desenha e tenta sempre estar de boas. O outro vizinho jovem trabalhador agora tem namorada e também tá sem maconha. Deletei todos os crushs da minha agenda. Eu nunca mais vou paquerar, cansei de ser sexy.

Acabou o vinho. Assim que eu tiver grana penso em comprar mais vinho. Amanhã, que já é hoje, quero voltar a fazer exercício físico seguindo as orientações de Tati Sacramento. Me debruçar nas atividades intelectuais: pôr as atividades de pedagogia em dia. Me debruçar em Virgínia Woolf. Escrever meu romance: Homens. Voltar para as minhas leituras e práticas antroposóficas. Cuidar da horta. Tentar aprender tricô.

Ainda não sei quando verei Mariaalice. Depende de quando sairemos dessa quarentena. E como voltaremos. Ainda não sei quando vou fumar maconha. Dependo de receber meu salário e se o trafica ainda terá e a um preço razoável. Tudo é incerto. <Tudo vai mal, tudo, tudo é igual quando eu canto> e sou surda e deve ser por isso que eu desafino, amor. Mas, feito Beethoven eu sinto as vibrações.

Uma taça de vinho e dois becks de chá de camomila, me sinto já alta. Bebo água. Mais um beck de chá de camomila pra finalizar tudo. Hoje quero dormir antes do sol acordar. Céu canta tempo de amor. É lindo. Será que a vizinha já meditou, dormiu e posso aumentar o som? São 03h54. Tati Sacramento fala comigo no whats e diz que sempre houve conexão entre nós, concordo.

Apalpo minha bunda e meus seios, que delícia gente! Danço ao som de Mutantes agora: desculpe baby. Lembro de Luane: gosto de dançar com ela. Aumento o som. Volume máximo. A música exige, desculpe baby.

04h20, vou dormir. Eu vou sonhando, buscar a glória, minha glória.

Floripa, 27 de março de 20

04h20

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