Querido diário,

ainda estamos na quarentena e por aqui dias sim e dias não. Riachão, Moraes Moreira e Rubem Fonseca, morreram de morte morrida. Bem velhinhos. Senti e os honrei.

Tenho tido muito prazer em abrir uma página branca no word e criar histórias com um tiquinho de realidade. Vi um edital de uma editora que estou namorando, no qual está selecionando contos com o contexto da quarentena. Em duas horas, numa sentada, escrevi um conto de dez páginas. Fui dormir antes que o sol acordasse. Mostrei a alguns amigos e recebi seus retornos. Reli o conto, corrigi alguns erros, tirei algumas frases, mudei outras, e continuei um pouco mais a história mudando o rumo do final. Gostei mais e fiquei feliz com o conto.

As vezes me cobro muito de não estar produzindo tanto mas, pensando bem, fiz um ensaio de uma epopeia, um conto e um projeto de mestrado. Sigo nos meu exercícios de escritas: o diário e os versos. Lendo bastante entretanto, deveria estar lendo mais. As vezes vejo um filme ou uma série para distrair. Cada dia consigo mais ter o hábito de exercitar o corpo e meditar. Meditar está sendo novo pra mim.

Quando dá as 18h00 coloco minha playlist de Ave Maria e acendo uma vela. Me concentro nas canções e na luz do fogo. Me sinto muito próxima de meu pai. Tenho falado com muita frequência, amém, com Mariaalice via Skype. As vezes é só um minuto. As vezes é uma hora.

A casa está sempre limpa e arrumada. Me alimento sempre bem. Durmo muito. Volta e meia surge um probleminha na casa e isso é muito chato. Agora, tanto na cozinha quanto no banheiro, há um cheiro insuportável. Nica virá resolver na terça-feira. A pia segue com goteiras e reclamei também disso. Seu Pedro, o dono da casa, ficou de comprar uma pia nova e mandar o Nica instalar.

Hoje faz 45 dias que estou de quarentena. Minha mãe fez 60 anos e estive com ela e minha avó, irmão e dois primos. Almoçamos comida paraense: vatapá e maniçoba. Depois de muitos dias, mais de um mês, saindo apenas para o mercado, fui ao aniversário de minha mãe. Éramos poucos, foi suave tranquilo e bonito. Fiquei muitos anos longe de minha família, na real por 14 anos não vi minha família materna. E desde que vim pra cá, 2018, que estou neste reencontro com minha família materna. E a cada dia conheço mais suas histórias, converso com minha avó de quase 90 anos. Cada dia entendo mais as psiquês constituídas na minha família da qual sou parte. Confesso que estou gostando de estar perto da família. Ter momentos bons juntos e contar com seu apoio. Tem sido importante e gratificante. E eu nunca pensei que um dia iria gostar deste rolê com a minha família. Mas, a gente cresce, faz e desfaz nossa família, e supera algumas coisas e aprende a lidar com os seus, delimitando os limites necessários para uma boa convivência e que não é apenas por conveniência e sim uma busca de aceitação no sentido de ficar com o que me cabe e estar ali a partir do que me move e desperta.

Ainda não sei se ao fim dessa quarentena irei atingir todas as metas que tracei para mim. As duas vezes que tentei fazer tricô, fracassei e me estressei. Tampouco sabemos quanto tempo ainda durará esta quarentena. Por ora, enquanto estou com casa comida maconha lsd livros e música, tô de boas. Não estou sofrendo por não poder sair, embora eu tenha sim, muita vontade de ir a uma praia lagoa cachoeira, não estou sofrendo por estar em casa e não ver ninguém. Aqui em Floripa, eu já socializava muito pouco e passo muito tempo sozinha, tendo eu mesma como companhia ou encontrando conforto na natureza. Obviamente, que o atual contexto é outro. As vezes, preciso mesmo ignorar as notícias pra não ficar na nóia. Me mantenho aqui na minha bolha e por não sair de casa, não faço ideia de como está o mundo lá fora, mentira, sabemos que tá tudo uma merda, não basta ter que enfrentar o covid-19 há também o caos na política brasileira e todos os problemas sociais econômicos culturais de sempre sendo somados agora ao covid-19. É desesperador. Em alguns dias desta quarentena, passei noites vendo vídeo do biólogo e virologista, Atila, e lendo notícias, perdi o sono e a angustia bateu com tudo.

É por isso que eu digo, que diante dessa situação caótica mundial, a minha situação aqui até que está tranquila. Comecei a ficar melhor quando regulei meu sono e passei a ver o sol nascer. Quando parei de ver notícias e passei a ler, escrever, vi umas lives sobre educação, antroposofia, feminismo negro, muito legais. Eu fico muito feliz e plena quando vejo o sol nascer, boto um alto e bom som, acendo um beck, fico suave na nave. Quando a noite chega é o momento de eu ir para my dark side of the word. Estou escrevendo menos o diário, porém, buscando escrever mais a fantasia do que a realidade embora, realidade e fantasia estejam misturadas. Já dizia Bukowisk, ficção é a vida melhorada.

O corpo ainda pulsa e muito e tem dias que a libido é muita. O tesão acumulado, os dedos já cansados. Ainda não baixei o tinder, primeiro porque nunca tive vontade e segundo porque não acho o momento ideal para conhecer alguém. Quis convidar um cara pra passar uns tempos de love comigo aqui em casa, <mas a vontade é muita e a coragem é pouca> e não o convidei com medo de levar fora e nunca tenho medo de levar fora mas, deste cara em especial, eu não quis correr o risco de levar fora. Quando penso que essa quarentena pode durar muito, me pergunto o que farei com tanto tesão acumulado. Parece que Jah ouviu minhas preces e aos 37 dias de quarentena me bate a porta um enviado de Jah: um cara gostoso com nome bíblico, aquele que leva. Ainda tentei resistir mas, resisto a tudo, menos as tentações. Gozei e a consciência pesou por saber que a camisinha, o banho e o álcool, não são suficiente pra me proteger de um possível covid-19. Confesso: errei, pequei. Uma semana depois, mais uma sexta, bate em minha porta um outro enviado de jah: um cara com nome de anjo, aquele que traz. Era para ser só um beck. Depois do prazer, bateu o peso na consciência. Agora já não sei se Jah ouviu minhas preces ou se estava me testando: #nãometestenãoqueeufalho. Tenho vergonha de contar isso porque eu mesma me condeno por estar me arriscando. Neste caso não houve risco de levar fora, pero… Em nenhum dos casos eu fui atrás de algum cara: não chamei, não liguei, não mandei mensagem, não baixei tinder, não fiz nada. Simplesmente um homem bateu em minha a porta e eu abri: senhoras e senhores, ponham a mão no chão. Senhoras e senhores, pulem de um pé só. Senhoras e senhores deem uma rodadinha e a carne é fraca.

Aí estou aqui, levemente com peso na consciência, noiada pero, decidida a não vacilar mais e seguir praticando o amor próprio/autoamor. 

Hoje pensei o quanto estou gostando da vida que estou levando. Tive medo de pensar isso alto, afinal o mundo tá aí, o caos. Mas, estou gostando de poder ter este tempo e dedica-lo todo a mim. E como toma tempo ocupar-se de si! Sócrates tinha razão. Tô gostando de ter tempo pra hidratar cabelo e pele. Dormir muito. Fazer exercício físico. Ler e escrever. Meditar. Cuidar de casa comida e roupa. Ver filmes e séries. Passar o dia em silêncio. Passar o dia ouvindo música. Eu gosto muito disso. As vezes dá uma tristeza, principalmente quando sinto falta de um pedaço de mim, Mariaalice que se chama. Aí choro muito e repenso em toda minha vida e escolhas e me pergunto mais uma vez, se era isso mesmo que eu queria e se fiz boas escolhas e ou tomei boas decisões. Aí bate muita bad. Dá aquela vontade de jogar tudo pro alto. Fazer uma loucura… mais uma? Nestes momentos, eu sempre respiro. Penso muito. Penso mais do que choro. E sempre percebo que apesar dos pesares a pesar, eu só sou quem soul por tudo: pela minha história, escolhas, decisões, oportunidades, etc. E eu gosto de ser quem soul. Nunca escolhi o caminho do sofrimento mas, crescer dói. Nem tudo está ao nosso alcance e temos controle. Tem o outro e muitas outras forças circunstâncias e histórias que atuam concomitantemente. É babado conseguir equilibrar tudo isso.

Eu continuo com a vontade de seguir e sigo, me sinto cada dia mais equilibrada. Sinto meu couro curtido devido as tantas porradas da vida. As mãos calejadas de tanto escrever a própria história. Os pés rachados de tanto caminhar pelos próprios trilhos. Meu coração, que bate mais que a polícia e apanha mais que bandido, ainda busca na razão aprender sobre emoção.

Acho irônico que por dois mil anos o nosso tempo histórico foi datado como A.C – Antes de Cristo e D.C – Depois de Cristo. Agora, não mudou muito, dois mil anos depois de Cristo, chega um vírus pra mudar todo nosso tempo. Todos nós já sentimos nossa vida e tempo A.C – Antes do Corona e como será o D.C – Depois do Corona. Ao som desta velha nova banda, AC/DC, danço like a rolling stones.

Floripa, 03 de Maio de 20

03h37

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