Querido diário,

faz muito tempo que não escrevo aqui, no dia que houve ciclone eu até ensaiei algumas palavras, mas não quis seguir. Passei o mês de maio praticamente dedicada a escrita literária, escrevi dois contos, que se somar tudo deve dar umas trinta páginas, e curti muito escrever os contos, ler e reler e reescrever, um exercício que gosto muito.

O mês de maio foi bastante de ócio e inércia. E pude bem identificar a diferença entre ócio e inércia.

O mau cheiro que vinha do banheiro e da cozinha ficou insuportável e eu tive que por uma semana me mudar para casa de cima enquanto seu Pedro e Nica consertavam tudo. E isso me tirou de minha rotina, do meu eixo, me desorganizou. Passei muitos dias consumindo informação e ficando na inércia. E a inércia não me dá apetite e a preguiça de cozinhar é grande. Então comia uma vez por dia, um café da manhã lá pelas tantas da tarde: água, água morna com limão, cinco tipos de frutas com chia, cuscuz (ou aipim ou batata doce ou inhame ou banana da terra) com ovo e café. Não importa a hora que acordo e levanto da cama, eu vou seguir este café da manhã. E tenho dormido bem. Porém, neste mês de maio não fiz exercício físico, acordava e demorava mais de três horas pra levantar da cama.

As informações me causavam muita raiva e angústia. Logo no início do mês encerrei o rolê com aquele que leva e com aquele que traz, os enviados de jah que bateram em minha porta e eu abri. Porém, por conta do covid-19 eu fechei a porta total. Rompi com as vizinhas e saí de vários grupos de whatsapp. A pequena reforma na minha casa acabou e pude voltar.

Minha casa, minha vida, minha rotina. Como eu amo isso. E como fico bem com isso.

Teve um dia que tirei pra tomar lsd e aí foi muito legal produtivo criativo curativo. Fiz colagem, tomei sol, li e escrevi.  Incrível o poder que o lsd o beck e a música têm na minha vida, e acredito que na de muita gente, porque isso me basta.

Finalizei o mês de maio com dois contos e um super poema e os inscrevi em editais literários. Passei na primeira fase do mestrado em sétimo lugar e há apenas cinco vagas. Fiquei feliz de ter passado na fase do projeto mas, vi logo que teria que estudar muito por causa da minha colocação e não conhecia ninguém da faculdade, do programa, etc.

Junho chegou e pensei muito no Santo Antônio: o bairro que passei a minha adolescência em Salvador, dos vários anos que por obrigação rezava a  trezena de santo Antônio com a minha família e por diversão/discaração curtia as festas no largo. Na época da faculdade e quando casada, eu tinha um santo Antônio e sempre acendia uma vela pra ele. Este ano pensei muito no santo Antônio e sei justamente porquê.

Voltei a fazer exercício físico e isso sempre melhora meu humor. Quando faltavam quatro dias para a segunda fase do mestrado: prova teórica e entrevista, eu me desesperei e estudei o que deveria ter estudado o mês todo, mas eu estava lendo outra coisas… Estudei por quatro dias a full. No dia da entrevista quis comprar uma vela e comprei uma amarela e de mel. Minutos antes da prova e entrevista, acendi a vela amarela de mel, o beck, e fumei pensando em toda a história. Apaguei o beck, deixei a vela acesa, me conectei na internet e entrei numa sala virtual e fiz a prova e entrevista. Era prova oral sobre questões teóricas. Geralmente sou bem aprovada no oral pero prova, prefiro escrita. Risos. Acabou a prova e a entrevista e a vela. Passou uns dias, veio um ciclone. Árvore e pessoas morreram. O vento bagunçou tudo. E assustou. Ainda bem que eu tinha vela beck e livros, pensei, que com isso aguento bastante a escuridão e a solidão. Passou o ciclone e eu passei em terceiro lugar no mestrado e fiquei feliz pra caralho. É a terceira vez que passo, nas ocasiões anteriores me faltou muita estrutura e não consegui fazer. Agora vai rolar e o melhor é que eu estudo este tema desde 2008 e nunca parei e me sinto muito madura intelectualmente pra fazer um super trabalho: história das relações entre verdade e subjetividade a partir da Poesia Marginal.

Julho chegou: chuva e frio. Mais de cem dias isolada e quase sem contato humano para além da tela. Comecei a estudar sobre solidão natureza bem viver um outro mundo é possível. Eu amo a solidão e sou muito difícil de negociar meu ritmo. E muitas vezes penso que ainda bem que estou passando essa pandemia sozinha. Ainda que eu morra de saudades de Mariaalice e dê uma pirada  por conta disso, e neste momento a saudade vem acompanhada de muita angústia e incerteza,  eu agradeço de estar passando por este momento sozinha. Nem tudo são flores ou dores. Na real há flores e dores, sempre.

<In crise pero take it easy>.

O que está ao meu alcance e o que eu tenho controle, eu assumo e dou conta. Dias sim e dias não eu vou sobrevivendo apesar dos arranhões. Das cicatrizes. Inclusive tem um lado nessa história toda de pandemia e isolamento social, no qual eu tenho buscado fazer meu melhor que é ocupar de mim mesma. E ocupar-se de si mesmo é um exercício imprescindível para conhecer-se a si mesmo. E isso se chama autonomia liberdade e amor.

Entretanto, eu acredito e busco de alguma forma uma vida pautada no bem viver e este vem acompanhado de coletividade, de amor.

<A felicidade só é completa quando compartilhada>.  E o amor ele vem com respeito entrega confiança espontaneidade verdade coragem. Busco me conectar com pessoas que têm uma vida comprometida com a verdade. A verdade sempre nos tira da zona de conforto, incomoda, mexe com nosso ego. As drogas sempre me ajudam a lidar com verdade de cara. E este caminho é muito solitário, principalmente para nós que fazemos parte desta sociedade ocidental cristã patriarcal branca. Porque há muito que perdemos a coletividade e o bem viver e em lugar disso vivemos uma vida individualista liberal ilegal. E o amor a felicidade a harmonia só é completa quando compartilhada. E há muito que estamos sozinhos e sem amor e logo nos falta autonomia responsabilidade respeito entrega confiança espontaneidade verdade coragem.

<Sem amor a vida não flui>. E praticar amor próprio não tem nada a ver com ser só/solidão. A gente precisa do outro pra se conhecer: olhar no olho do outro pra se ver, nosso espelho é sempre o outro. A gente cresce fortalece amadurece a partir das relações e as relações são permeadas por conversações. Que verbo dá sentido às relações? <É a emoção que define a ação>. Que adjetivos e advérbios têm os sentimentos que conjugam nossa ações? Para nós que há muito perdemos o bem viver e a coletividade e a família e os amigos, nos falta amor, nos falta olhar no olho do outro e se conhecer. E essa falta é preenchida por ações que atuam desde nossa fragilidade e vulnerabilidade, pero não lidamos com a fragilidade e a vulnerabilidade, até porque isso requer força e coragem e consequentemente verdade, uma coisa puxa a outra. Dissimulamos, tememos a exposição, a rejeição, ao ridículo, a verdade no fim da contas. Porque a verdade é ridícula, é óbvia. E temendo vamos crescendo sem tento. Mas, <eu sigo na batida no assunto pertinente>. Cansada de siririca e vendo que a pandemia vai durar muito ainda, não resisti e baixei o Tinder só pra fazer um teste. #nãometestenãoqueeufalho.

Era um dia de sábado e estava frio. Eu estava há 106 dias isolada. Apenas um cara me interessou e dei like. E deu logo match. Chamei na chincha. Não troquei muito idéia para além de um oi e me dá teu whats. O chamei por vídeo pra ver se correspondia as fotos e também não quis trocar muita idéia.

– Maíra, é bom trocar uma ideia por uns dias, conhecer mais, e daí tu vai, vê se ele tá de quarentena mesmo, etc.

– Eu não quero trocar ideia, tenho muitos amigos para isso. Se o sexo for bom talvez o papo me interessa.

No entanto, como era muito longe e o contexto da pandemia, fiquei levemente receosa. Fui ver a figura no instagram e vimos que tínhamos uma amiga em comum, falei rapidamente com ela sobre e fui bem consciente que estava saindo do meu isolamento pra transar com um desconhecido bonito e simpático e que morava muito longe.

Cheguei lá, entrei num buraco negro e foram quatro dias de sexo drogas e pizza. Demorei de voltar pra casa, pra realidade e deu uma ressaca. O que tinha sido muito especial logo se tornou normal. Refleti bastante sobre. Excluí o Tinder. Foi uma boa estreia e valeu a pena. E pensei: mais uma vez valeu pela inspiração: criei uma nova playlist com treze canções e já tenho um título para o meu próximo conto: Minha estreia no tinder: do tesão ao óbvio.

De volta a my dark side of the room voltei às minhas ocupações in my dark side of the word: acendo uma vela uns becks um som e fico suave na nave. E sinto tudo tão sagrado divino maravilhoso pleno, que faço disso tudo meu templo. A propósito, uns dos meus contos não foi aprovado no edital e vou publicá-lo no meu site. A propósito, onde não há reciprocidade não te demores.

<desencontra pra não acostumar / por enquanto nunca mais te procurar>.

Quanto a estreia no tinder farei um conto, mas vou dar um spolier: foi eterno enquanto duro e não perdemos a ternura. Bem que se kiss depois de tudo ainda ser feliz / o meu destino é querer sempre mais.

<Se eu caio no suingue é pra me consolar. É que a vida não tá mole, eu faço assim pra me segurar>. Só o som salva e termino com Marisa Monte: Vai saber.

Florianópolis, 12 de julho de 2020

02h49

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