Querido diário,

é madrugada e faz muito frio. Entre conversas com Bárbara, presa a canções entregue as paixões que nunca tiveram fim, fumo um beck do tamanho da minha consciência: maior alma. Acendo uma vela. Me conecto ao som. O som ao redor é deserto. <cantando eu mando a tristeza embora>. Ouço Verdade Chinesa de Emílio Santiago mil vezes. Os arranjos, o coro e a letra: um hino. Pensar a Verdade Chinesa em tempos de corona vírus que veio da China e está causando em nossas vidas e relações. Tá tudo fora da ordem, tá todo mundo fodido.

Hoje eu chorei. Chorei e conversei com amigas num grupo do whats. Chorei porque estou cansada exausta e magoada. Ouvi os conselhos das manas e mal sequei as lágrimas quando um enviado de jah: aquele que leva, bateu em minha em porta e eu abri. Ele foi acolhedor e caliente. Depois eu ri. Mais uma vez não sei se Jah ouviu minhas preces ou se está me testando.

Ri, fiz um beck. Dancei com Mariaalice via Skype e tive uma vontade louca de abraçar ela, e que agonia isso.

Esperando agosto chegar e ver que cenário irá se desenhar na minha vida por enquanto. Me dá preguiça só de pensar em mais uma vez me desfazer de casa, me mudar etc. Todo agosto é isso. Pensar as reais possibilidades de grana e trampos em tempos de pandemia, ainda. A vontade de pegar o primeiro avião com o destino a felicidade: Mariaalice. O medo de pegar um avião. As incertezas do dia do amanhã. Nunca foi tão incerto.

Certo dia de junho, eu me angustiei ao pensar e tentar desenhar meu futuro próximo quanto a trabalho grana filha escrita pesquisa amor etc., e pensar nisso tudo diante de pandemia, caos político social econômico, o planeta sendo consumido, a educação perdendo seu único/último espaço de alguma diversidade cuidado e socialização. Eu me enfiei debaixo do cobertor e chorei. Foi quando Jorge Hilton me ligou, um amigo da adolescência, sociólogo e referência para o/no Movimento Hip-Hop na Bahia. Conversamos por uma hora ao telefone e foi emocionante conversar com ele. Ele me indicou um vídeo no Netflix para ver: O Poder da Coragem. Que fala de Vulnerabilidade  e Constrangimentos, de Fragilidade, Coragem e Verdade. Em suma, a pesquisadora diz que é preciso muita Força e Coragem para assumir e enfrentar suas próprias vulnerabilidades e fragilidades.

Quando comecei a tomar LSD, aos 20 anos, percebi logo que este é uma ferramenta poderosa para trabalhar a vulnerabilidade, porque cai a máscara e vem a verdade, fica tudo óbvio e ridículo. E nem todo mundo sabe/consegue lidar com isso, para alguns dá bad. Enfim, não irei me prolongar muito nisto, porque escreveria muitas páginas para tratar deste tema tão caro. Resumindo, o LSD foi e é uma ferramenta muito potente de autoconhecimento para mim e há muitos anos que passei a usar o LSD com muita frequência e em qualquer situação, com qualquer pessoa e ambiente, para independente de tudo/todos, eu buscar conforto na minha vulnerabilidade, na minha verdade, no meu óbvio, no meu ridículo. E foda-se. E isso nos fortalece e amadurece.

Mas, nem todo mundo está preparado pra essa conversa.

E eu cá reflito que quando minha espontaneidade não é recíproca eu sinto que perdi o jogo que eu não quis jogar e que mais uma vez tudo saiu conforme eu não esperava, [porque afinal de contas eu acabo sempre acreditando mais uma vez, e mais uma vez era só isso mesmo e só mais um] e daí sinto minha vulnerabilidade exposta, e que merda e que saco, tudo isso é muito chato, chato, chato.

 Mas, só me resta seguir e nada como um dia a pôr no outro e com o tempo tudo se revela na mesma proporção daquilo que tu plantou. Quanto mais a gente se relaciona e se entrega, mais a gente aprende, na mesma proporção que a gente quebra a cara. O bom é quando a gente já sabe pesar e perceber as doses de todos os sentimentos e falas e silêncios postos. Num gole a gente já percebe se é líquido ou sólido. E o líquido é só pra matar a sede, necessário também, refresca e hidrata: desde que seja transparente, por uma questão de saúde.

Enfim, matei a sede.

Florianópolis, 16 de julho de 20

04h20

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