Querido diário,

faltam poucos dias para minha lua chegar e além de estar levemente tensa e ansiosa para que ela chegue, minha libido aumenta. Cá estou, no auge de um sábado a noite meio frio solitária e a libido lá em cima. Coração aqui sentindo muito, uma vontade de gritar na mesma proporção de dar.

Fiz uma playlist com canções que gostaria de enviar para ele para que ele entendesse.

Entender o quê, Maíra?

Salvei vários memes nos quais eu nos via representados.

Representados como, Maíra? Não existe vocês! Não viaja!

Ensaiei umas mensagens mas antes chamei Paula: a voz da razão e não mandei.

No grupo do whats, dei um grito pero todos dormem e/ou veem série.

Pedi a uma amigo pra me tirar as cartas e aliviar um pouco meu coração pero o brother tá com zika e a energia lá embaixo.

Maíra, as cartas já estão dadas e são óbvias minha irmã, aceite que dói menos.

Sem tarô, sem amigos, sem lsd, aliás, preciso urgentemente comprar lsd, em pandemia ainda, longe da filha, um futuro próximo com algumas promessas porém nada certo, eu lamento: que saco!

Preguiça enorme de cozinhar coisas mais elaboradas para além de cuscuz com linguiça Blumenau, banana da terra, coentro e cebolinha, manteiga, ovos mexidos e café. O feijão preto que deixei de molho pra cozinhar hoje, o guardei na geladeira na promessa de amanhã voltar a cozinhar e fazer exercício físico. Uma coisa puxa a outra.

Passei o dia ouvindo música e minha consciência. Agora me dou conta que hoje nem a voz usei, nem mesmo um áudio. Ufa, eu adoro passar o dia sem usar a voz. Ah, mentira, lembrei agora: teve o momento do chá das 4i20, aí também usei a voz. Mas, foi pouco hoje.

Passei o dia me escutando e sentindo meu coração: que bate mais que a polícia e apanha mais que bandido.

Anteontem eu e Mariaalice ficamos três horas no Skype. Ontem duas horas e meia. A gente conversa janta joga dança e no fim eu sempre lhe conto uma estória. A da vez, é um conto indígena da América do Norte: a vovó aranha. Fala sobre luz, sombras e caminhos. Sobre que nem sempre ser forte e esperto é suficiente. A vida exige muito além da força e esperteza. A vida exige sabedoria e experiência, e uma coisa puxa a outra, e tudo isso tece nosso caminho formando nossos raios solares.

Pausa. Passei uma hora numa chamada de vídeo com Martim: meu melhor amigo é o meu amor. Usei a voz, colocamos papos em dias, fumamos nossos dedos de hulks, rimos e refletimos, e já me sinto melhor. Aliás, Martim tem um poema que eu acho muito foda cujo verso sempre me faz sentido: perdi no amor, mas não na piada. E também: quando um não quer, dois não amam.

Estou lendo quatro livros e a meta é terminá-los na próxima semana pra passar para outros. Minha meta é conseguir terminar de ler os livros e passar para outros, na mesma velocidade que rola com os garotos.

Uma editora me desafiou a escrever um ensaio, sobre este meu lugar de mãe que não mora com a filha e que usa e fala abertamente sobre drogas. Eu já estava mesmo querendo ensaiar sobre, então prontamente aceitei o desafio. E já estou separando material para estudar.

Traduzi um texto feminista muito legal, trazendo vários movimentos feministas da América Latina que têm o CUIDADO como método principal de atuação. E aqui entre nosotras, ainda somos o gênero que mais exerce o cuidado, quase sempre este cuidado vem junto com serviço e isso nos cansa, nos adoece, nos pesa, nos anula, é foda.

A pandemia e o isolamento social têm tensionado muitas relações, sobretudo heteronormativas. E pode parecer tema do século XIX, mas a questão principal ainda são as questões domésticas. O trabalho do cara é sempre prioridade. O sonho dele é sempre a-creditado e investido. E a mulher que aguente firme com as crianças e a casa, que segundo ele, quando tudo isso passar, ele vai atingir as metas dele lá, os prazos dele lá, e daí ele vai assumir a casa e os filhos já crescidinhos, desmamados e desfraldados, pra você fazer o seu. Do que sobrar de você. É pela família. Engraçado, que sempre que me deparo com essas mesmas histórias, este discurso de é pela família, no fim das contas é pelo cara/pai e quem paga as contas são as mães.

As mães cansadas de guerras, guardando seus dons/sonhos na gaveta, o tempo passando e o cansaço a frustração e o desânimo somando. Uma soma que só diminui.

Isso porque os caras não conseguem resolver o básico que são as questões domésticas. Isso porque os caras não conseguem não se colocar como prioridade.

Manos, se adiantem.

<Pensando bem, pode mesmo chegar a se arrepender e, pode ser então que seja tarde demais, vai saber>.

Ouvindo no looping Vai saber de Marisa Monte. Eu sempre me consolo com as músicas com os livros e os becks. Sempre tem uma canção para uma razão. Sempre tem uma canção para uma emoção. Sempre tem uma razão para uma canção. Sempre tem uma emoção para uma canção. Vai saber. E já não me sinto tão só ou melhor: gosto de ser e star só no meu infinito particular.

Florianópolis, 19 de julho de 20

04h20

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    AhhhhhhHhHHHHHhhhhhHhh por aqui também. Talvez não role por áudio, quem sabe depois de um beck e uma lembrança desse texto (ão). 🙂

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