Querido diário,

acordei tristonha. É sempre muito foda na verdade acordar e não ter Mariaalice e é incrível como a falta de carne osso músculo pele suor cheiro sabor faz falta.

<a saudade é meu pior tormento>.

Desabafei num pequeno grupo de amigos no whats: fala só de amor. Depois uma chamada via vídeo com Thais Maia que dura uns segundos que inunda os olhos. Depois tomei café da manhã com a minha diva do divã, Luane Campos. Já era quatro da tarde e eu estava fazendo minha primeira refeição: cuscuz com ovo e manteiga e café preto. Depois um beck pra digerir, coloco Céu pra cantar e tudo já melhora.

Abro o computador e começo os trabalhos. Tenho que me inscrever pra seleção de bolsa do mestrado. Tenho um trampo de produção editorial pra fazer. Tenho um texto que estou devendo pra escrever cujo o tema é: um outro mundo é possível?

A noite tenho pilates. A conta quase zerada. Jantarei novamente o mesmo que comi no café da manhã as quatro da tarde: cuscuz com ovo e manteiga e café preto. Por pura preguiça. Amanhã deve entrar grana na conta, de umas traduções e uns textos que escrevi, e daí faço mercado.

Estou bem abastecida de maconha e lsd. Aliás, os últimos dias têm sido bastante de sexo drogas rock and errou e trampos. Quem diria, em plena pandemia estar ocupada entre trampos e trepadas.

Baixei o tinder mas já o desinstalei. Foi o suficiente pra eu conhecer um cara.

<e tome tento fique esperto hoje não tem papo, jogo-lhe um quebrante e num instante você vira sapo, bobeou na crença príncipe volta ao seu posto de lenda>.

Mas na real, entre gozos e mais do mesmos, tem sido muito bom no sentido de eu me perceber e me proteger. Me acolho mas não me encolho, pois há uma grandeza nisso tudo que eu estou disposta aprender a lidar sem Queixa: <dessa coisa que mete medo, pela sua grandeza, não sou a única culpada, disso eu tenho a certeza! Princesa, surpresa, você me arrasou. Serpente, nem sente que me envenenou>.

Pausa para pilates com Débora Clarkson. Esquentou o corpo e crio coragem para ir ao mercado gastar os 32 reais que tenho e comprar algo pra comer. Volto, cozinho, lavo louça, elaboro planos infalíveis com amigas de Salva-dor numa chamada de vídeo: nossos planos são muito bons.

Som no volume máximo e alguns dedos de hulk e uma vela amarela: no meu lar doce lar, eu sola, com a lua crescente e as estrelas lá no céu e já estou de boa na lagoa e ela brilha feito prata e agradeço muito por essa vista e pelas árvores que me rondeiam. Pausa para fazer xixi e mais um dedo de hulk. Tô inspirada. Provavelmente faltarei o yoga das 07h30 porque irei dormir de madrugada, pretendo ainda hoje trabalhar.

Ouço Prazer Carnal de Tom Zé no looping e na sequência entra Maria Elvira e Kas Dub com Essa Noite. Acendo mais uma vela, agora azul: tudo blue, tudo flui. Dois becks prontos. Acendo um beck, fecho os olhos diante da luz do fogo e mentalizo: tudo blue, tudo flui.

<todo mundo tá feliz>? Porque eu já estou a mil com my sound system in my soul. <Eu sou amor da cabeça aos pés>.

Repenso meu dia: acordei triste, levantei da cama as quatro da tarde, desabafei com amigos, fiz pilates, mercado, me alimentei bem, som, escrever, becks, o tempo todo sentindo e pensando e há dias sentindo e pensando. Sorrio. Só rio. É muito bom quando a gente aprende com tudo:

<tudo vale a pena quando a alma não é pequena>.

Já não tenho mais Queixa e já sei identificar bem o que um Prazer Carnal me move e não transfiro pro outro o que é meu e de mais ninguém. Se eu tenho a minha dor eu tenho também o meu amor, é meu só e não é de mais ninguém.

Eu sei que posso parecer repetitiva, mas em tempos de quarentena com a solidão maior ainda, eu sinto falta de dar rolê: tomar uns lsds, dançar até o sol raiar, paquerar, etc. Porque continuo gostando e muito satisfeita de estar morando sozinha, sem precisar negociar meu ritmo e minha playlist com ninguém. Eu amo star só e faço do meu lar meu templo sagrado. Eu ritualizo demais meu cotidiano: as velas, os becks, as músicas, as luas, os livros, a escrita, o lsd, tá tudo alinhado. Inclusive o sexo para desopilar.

Daí voltemos ao Prazer Carnal:

<querem te afastar do amor; como sinal de chama e chuva, enxofre e sal. Sacode a fera em fúria animal>.

Penso que viver o Prazer Carnal com todo amor que ele pode carregar é um dilema numa sociedade que falta amor, no qual muitos de nós fomos/somos abandonados por nossos primeiros laços, nossa família.

Todas as vezes que estive no fundo do poço e precisei de ajuda eu pensei na minha família e consequentemente veio uma grande frustração por saber que não poderia contar de fato com a família. Os limites são muitos. E daí, entendo cada vez mais o sentido de eu estar em Floripa. O contato com a família, mesmo com todos seus limites. O afeto e o apoio, principalmente de minha mãe e irmão, que vem se fortalecendo e para isso é preciso delimitar espaços, aceitar os limites de todos, para que possamos nos apoiar e nos nutrir de amor.

Mas voltemos ao Prazer Carnal:

<querem te afastar do amor; como sinal de chama e chuva, enxofre e sal. Sacode a fera em fúria animal>.

Me vejo muito no exercício do amor livre no sentido de simplesmente ele ser livre pra existir. Que eu possa viver o amor, manifestar o amor, expressar o amor, sem que isso seja interpretado pelos olhos monogâmicos patriarcais heteronormativos. Como se qualquer manifestação de amor fosse sinônimo de prisão ou um ato desesperado de não querer ser só.

Estou avançando para além disso, e este caminho é muito solitário e há muitas dores pero há sobretudo uma verdade que vem se assentando na alma que acalma.

<Pois o amor é a coisa mais linda quando o vento traz>. E eu não me assusto quando me dizem que a vida é boa.

Outro dia tomei 1 lsd e ½ e passei o dia com um verso na minha mente feito mantra, de Rudolf Steiner: viver com pura confiança sem qualquer segurança na existência. Por uma questão de sobrevivência – em todos os sentidos – eu tenho feito o exercício de ser e star presente. Há muito tempo que o futuro é duvidoso e não entrego minha vida meu destino minha história ao léu, ao azar:

<meu caminho pelo mundo eu mesma faço. A Bahia já me deu régua e compasso. Quem sabe de mim sou eu!>.

Anseio por minha Salva-dor. Anseio por minha pequena. Mas é um anseio que alenta. Esquenta. Dias melhores virão.

Floripa, 31 de julho de 20

01h49

1 comentário em “Prazer carnal”

  1. Avatar

    Magia acontece quando a gente lê um texto e ele ressoa dentro da gente! Compartilho das piras e devaneios e sensações. Viver mil dias em um dia. Fazer oq dá conta em cada dia. Correr atrás da grana e do gozo, pagar os boletos e pagar pra ver onde que essa doidera chamada vida vai dar vivendo uma vida inteira todo dia. Grata por compartilhar

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