Querido diário,

começou agosto com dois dedos de sol. As 18h00 eu encerrei minha voz por hoje e mergulhei no silêncio como de costume. São quase 03h00 e eu devia estar dormindo pero minha mente não pára de pensar atingindo diretamente no meu âmago.

Depois de ver uma série francesa e besta, comer um pão integral, banana da terra e ovo, e foi só isso que comi hoje, eu abri o my dark side of the word: apenas uma vontade de escrever, muitas idéias e pendências inclusive, pero não conseguia começar. O que eu vou escrever? O conto Minha estréia no Tinder: do tesão ao óbvio? Uma terceira parte do poema Rascunhos para uma epopeia? Um pouco da minha tentativa do romance Homens? O texto Um outro mundo é possível?  O trampo que peguei?

Abri todos estes arquivos e li todos eles. Não quis escrever nada sobre, mas ainda assim uma vontade de escrever. Muita água e beck. Acendo uma vela, hoje: roxa.

Fui remexer no meu email. Fui procurar os mais antigos. O quê eu não sei, mas quem procura acha. Fui na minha pasta pessoal e entre 308 emails salvos achei um que anexo tinha o diário digitalizado de meu pai, do ano de 1992 quando ele e minha mãe se separaram e ele, pra superar, viajou a pé do Rio a Salvador registrando tudo neste diário. Minha mãe ficou no Rio de Janeiro num apartamento perdida na cidade com 4 filhos acreditando que as coisas iam melhorar, infelizmente piorou.

Baixei o arquivo anexo, li e chorei. Não quis ler completo, dei aquela passada de olho. São 71 páginas de word.

Num dado momento ele conta que está lendo Rudolf Steiner e diz estar gostando muito. Foi aí que desceu a primeira lágrima. Caralho, então meu pai conhecia este cara que venho lendo desde que Mariaalice nasceu? Porra, isso me faz muito sentido.

Dia 4 de agosto meu pai faria 61 anos. O CRIA fará uma homenagem a ele e me convidou para participar. Ainda na minha pasta pessoal achei um outro email de 2009 que escrevi em seu aniversário também, um texto-tentativa de reconstruir meu pai, meu herói.

Eu ainda gosto do texto e provavelmente devo usá-lo, embora hoje, treze anos após a sua morte, eu tenho um outro olhar sobre ele que vem sendo destruído e construído a cada passo.

Posso dizer que a separação foi um marco para eu ver meu pai para além do herói que eu sempre vi. O processo é lento e constante. O tempo todo recorro a minha história e a história de meus pais para entender. Na real, sempre que cavo essas histórias e memórias, tenho um entendimento e sinto que avanço algumas casas no caminho do bem: it’s a long way.

Nós mulheres aprendemos a amar os homens mesmo eles sendo escrotos. A começar pelo nosso pai. E isso é uma disgraça: patriarcado e machismo mesmo que chama. Idealizamos e relativizamos muito.

Por gostar de homens e me relacionar com eles, e sabemos que não é fácil, estou investigando que homem é este que busco me relacionar, que homem é este que me faz por vezes me sentir ridícula otária ou só mais uma, ingênua etc. e tal e ainda assim eu sigo acreditando a cada homem que parece ser legal e ter subido algum degrau mas, por um leve toque no ombro cai escada abaixo? Que homem é este que eu relativizo e aceito seus erros mais grotescos e escrotos, e por vezes seu desprezo, por querer ficar só com o lado bom que não se sustenta para além do gozo? Aliás, por que eu aceito seus erros, precariedades ou até mesmo suas escrotidões, quando eu mulher, por qualquer vacilo que seja, sou condenada a pagar meu erro sem perdão?

Minha mãe paga até hoje pelos seus erros e nunca foi relativizada. Ao contrário, muitas vezes foi internada, lhe tiraram seus filhos, ficou sem casa e foi foda. Até hoje é foda na verdade.

Aí dou mais uma passada de olho no diário de meu pai. São páginas e páginas dedicadas a minha mãe e aos filhos, mas é sobretudo pela sua dor deste amor que rompeu tudo. Ele saiu de casa em janeiro e voltou em setembro. Curado na sua peregrinação pela BR-101, nos seus processos de Escrita de Si, do uso de cocaína e maconha, das caminhadas e da solidão, de encontrar os amigos pelo caminho e fazer arte e política, de simplesmente se aventurar para se encontrar. Ele voltou forte. Voltou já disposto a se relacionar de novo e a ficar com os filhos e viver de sua poesia. Minha mãe, ela também poeta, mas ela estava com 4 filhos num apartamento perdida na cidade e não lhe sobrava tempo para a Escrita de Si, ela também usava cocaína e maconha pero ficava deprimida e consumida pela culpa por estar ali com 4 filhos e sofrendo pelo amor que rompeu tudo. Difícil sofrer lutar entender processar superar e cuidar de 4 filhos sozinha.

Quando meu pai voltou curado, ela estava destruída: foi fácil lhe tirar os filhos. Não tinha mais força. Isso nunca foi reparado recuperado e nunca será.

Escrevo isso sem mágoa. É um entendimento. É olhar para este meu passado e saber exatamente o que me pertence e o que não. Ver quais foram os caminhos que me fizeram chegar até aqui agora. Ver minha mãe que está atrás e adiante de mim: a sua presença no presente me mostra num só tempo o passado e o futuro. Um passado que só posso revisitar para entender e conhecer. O futuro que posso ver e escrever minha própria história: do tempo presente. Ver minhas ancestrais e honrar suas histórias e conhecer seu final e querer um final diferente. Acho que deve estar aí a finalidade da história: pegar essa linha tênue e torta e costurar nossa colcha de retalhos.

E voltemos aos homens. Por que nós mulheres AINDA relativizamos acreditamos idealizamos os homens? Pode parecer uma pergunta simples com respostas óbvias, pero creio que não. Ainda que muitas de nós não nos relacionemos com homens sob carência submissão dissimulação joguinhos etc. e tal, a real é que a gente ainda tem muita disposição para perdoar aceitar ensinar cuidar.

Eu não sei como resolver essa equação de pouca soma e muita subtração. Eu chego logo no zero. Mas, estou investigando sobre mim. Não abro mão de minha solidão e de minha liberdade. Estou muito acostumada a fazer o que quero e ir pra onde eu quero. Não gosto de negociar muito a minha playlist. Entretanto, creio haver um equilíbrio: entre ser e star só, e ser e star com o outro.

Eu gosto muito do amor. Gosto de gostar. Gosto de me apaixonar. E é angustiante não poder manifestar tais sentimentos, pois não serão entendidos com a leveza do ser e fica insustentável. Aí é foda, quebro a cara e me frustro mais uma vez. Só que mais foda ainda é que eu sou teimosa e nada me tira do meu caminho. Dói, eu pago a conta e seco minhas lágrimas e sigo <na batida no assunto pertinente>.

Eu gosto de homens e quero continuar gostando gozando. Só que não tem negócio: não sou mulher disso. Como diz o poeta Paulo Lins: sou seu cio sou seu ócio sou seu sócio do prazer.

Homens: fuck you, foco me.

p.s. que engraçado que ultimamente quando escrevo o diário quase sempre termino as 04h20, hora da saideira: um beck antes de dormir é muito bom, pra gozar e sonhar melhor.

Florianópolis, 02 de agosto de 20

04h20

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