Querido diário,

hoje é segunda-feira, ouço Lobão: minha aventura, pra onde você foi, pra onde você vai… se ao menos tanta coisa não se evaporasse assim… e o chato pra mim é que hoje o dia está evaporando, do tipo vapor, do tipo chove e sol toda hora, umidade nível 100% por cento. Eu não gosto. E isso afeta meu humor. Gosto do sol forte que seca arde queima de passar mal e reclamar de passar mal, pronto, admito.

Mas, tô aqui hoje no exercício falar mais dos fatos q afetos, afinal hoje é segunda-feira e eu sempre começo a semana num gás novo. Eu até tô conseguindo manter minha rotina pra alcançar meus objetivos e dar conta etc., mas ainda sinto que preciso de mais foco e disciplina.

Acontece que é verão e tô com Mariaalice. Eu quero ver filme com ela, fazer colagem com ela, fazer trilha com ela, tudo com ela. Acontece que é verão eu sempre quero praia e pegação. Mas, ok. Tô tentando focar e dia a dia sinto que tô conseguindo. Um dia chego lá.

Finalizei 2020 bem legal. Dezembro foi um ótimo mês: o projeto sobre o Amor, no qual uma amiga que me convidou pra compor a equipe pedagógica, foi aprovado. Matei um leão por dia, risos. Acho engraçado essas coincidências. E do nada, conheço vários leoninos. Gostei de todos. Risos. Confesso que gostei muito de um jogador, profissional, aí obviamente perdi. Perdi justo no dia que dei as cartas. Ele ainda elogiou. Mas, ok. Risos novamente e vida que segue.

– quantos ano você tem?

Me perguntou a mãe dele.

– Faço 37 dia 9 de janeiro.

– Hum… tá perto… então você tá calejada né, minha filha?

Rimos. Isso, tô calejada.

Passei o natal em família. O ano novo com uma amiga, que também tem uma filha, Alice, também de 8 anos. Foi tudo leve, tranquilo e legal. Muito familiar e curti isso. Tal como meu aniversário, apenas irmãos, cunhada, amiga e filha. Muito familiar. Não sei se a idade, mas tô curtindo este lance de muito familiar.

Dispensei e dispensando todos os trabalhos que não são meus, ou seja, ainda não sei como pagar as contas direito, mas tô determinada a focar apenas na minha produção porque quero muito fazer o meu. Sei lá, mas agora ninguém me segura, bom… não que antes alguém tivesse segurado, mas é que agora é agora e é aqui, e eu construí um pouco de estrutura, juntando com um pouco de ajuda caótica problemática e sincera da família, pra poder fazer isso: este ano quero escrever muito e ler muito. E já comecei.

Assinei contrato com uma editora e quero ainda este mês publicar um livro independente. Ai, este livro… era pra sair na primavera, mas por muitas adversidades, de todos os lados, não rolou. Tô na maior pressão e pressa pra que saia este livro ainda nestes dias de janeiro. É só porque quero terminar esta história, me livrar. Enfim, o fim.

Tô lendo um livro, pra mim tá muito chato. Mas, eu sou daquelas que quando começa, termina. Vou terminar, e não vejo a hora de termina-lo para ler outros que estão na fila.

Tô inclusive querendo ensaiar sobre os livros de escritoras mulheres independentes, sobre essa escrita de si. Bom, vou falar aqui agora algo sobre. Alguns pontos, se pá, um dia os desenvolvo.

Ano passado comecei a buscar mais escritoras, mães, independentes, que praticam a Escrita de Si. Cheguei primeiramente na Natt Naville, com seu livro Somos todos bipolares. Neste livro, ela relata como descobriu a bipolaridade e desde então como lida com a bipolaridade. Fala muito sobre o universo do qual ela se insere: sua família do interior de São Paulo, ela transitando por “cenas alternativas” com muita música eletrônica, sua relação com as drogas, psicologia e misticismo.

Eu li o livro numa sentada, uma escrita muito fluída. Gostoso de ler. Tenho uma mãe bipolar e algumas amigas, curiosamente também escritoras, bipolares. Portanto, vi muito dessas pessoas com as quais convivo, no livro. Reconheci muitos traços comuns e principalmente o fato de serem mulheres brancas privilegiadas e usarem drogas. Acho que o livro problematiza muito pouco a família e este diagnóstico. Digo isso, porque me pergunto como se chega neste diagnóstico para outros gêneros, raças, classes sociais, etc. e tal.

E sobre a família, me pareceu que a autora se sente muito no papel de gratidão/culpa. O que percebo que facilmente é confundido. Não podemos criticar àquele que nos alimenta, nos socorre, nos acolhe. O que é um erro, porque não mudamos o paradigma e fica essa moral cristã, ainda que usemos drogas e consumimos misticismo e otras cositas más, nos permanece ainda este peso da moral cristã.

Depois fui ler o livro Mãe ou eu também não gozei, de Letícia Bassit, mãe solo, escritora, atriz, performática, dramaturga. O livro tem várias linguagens: poesia, prosa, desenhos, diálogos, etc. Eu também o li numa sentada, revisitei várias partes. Esteticamente o livro também me agradou muito e achei a escrita e narrativa de Letícia muito original. De maneira poética e sarcástica ela abre discussão sobre o que nos é vital: sexo, e assim ela coloca, o sexo como algo vital. A busca de saber quem é o pai de seu filho, nos leva a nos questionar sobre corpo sobre sexo sobre gozar sobre responsabilidade sobre caráter. Ninguém gozou dentro, inclusive a Letícia não gozou. Quantas de nós parimos um filho que sequer gozamos? À mulher não cabe a dúvida.

E pra fechar o ano, comprei dois livros de poesia. Eu jamais compraria livro de poesia se não fosse Paulo Leminski ou Fernando Pessoa, mas como eu estava escrevendo um livro de poesia, eu jamais escreveria também mas depois falo sobre, e eram de duas poetas e escritoras que eu conheço e pra fortalecer, eu me permitir.

Primeiro, foi o Todos meus humores de Dia Nobre e depois Pungente de Giullia Ciprandi. A primeira nordestina, a segunda sulista. Não vou comparar e nem tentar sequer uma aproximação entre ambas, não me cabe e não quero fazer isso.

Como tudo isso aqui, querido diário, é um espaço de minhas opiniões e reflexões, uma conversa comigo mesma sobretudo.

Mas, vamos lá. Poesia é difícil pra caralho pra mim, mas fui ler o livro de Dia Nobre: Todos meus humores. Tem várias coisas que de fato gosto, principalmente os versos curtos. Me lembra muito a galera da Poesia Marginal dos anos 1970/80.  E eu sempre acho muito adolescente. Confesso, que ainda estou digerindo este livro e qualquer hora o lerei novamente, mas, como eu só me confesso, venho dizer que me vi muito no livro e estou incomodada, de ver versos e ideias ali, dos quais já escrevi. E isso me tem feito refletir sobre minha escrita, dos versos e ideias que eu uso, me faz refletir sobre inspiração, sobre antropofagia, sobre releituras, etc.

O livro Pungente, tem alguns poemas fortes e muito potentes. Mas, no geral, não me tocou. Acontece que a poesia é também melodia, e quando Giullia recita não há quem não goste e quem gosta ama, e eu gosto e amo.

E pra começar o ano, tô lendo o romance distópico: Fisgadas, de Angélica Glória. A autora é psicóloga e lésbica e traz neste romance personagens lésbicas. A história é super atual e cabe perfeitamente com o momento pandêmico que estamos vivendo. Confesso, lá vem eu de novo confessar, risos, que tô achando interessante pero até o momento, página 85, sinto muita reflexão e discurso e pouca história e me está sendo um pouco chato, mas como disse sobre logo no início, querido diário, o que eu começo eu termino, então vou até o fim pra ver que onda.

Li e lendo muitos outros livros, mas por ora vou apenas fazer essas pequenas pontuações sobre estas escritas. Natt Naville e Letícia Bassit são mães, Angélica e Dia Nobre são lésbicas. Todas escritoras feministas que exercem a escrita de si e usam a palavra como instrumento de emancipação e autoconhecimento. É este ponto que nos aproxima e me interessa. É sobretudo este devir poético político filosófico: a escrita de si.

Tô aqui no maior groove com o disco de Paêibiru de Lula Cortês e Zé Ramalho. De 1975. O dia tá fresco. Vou me dedicar hoje a Reinhart Koselleck: estratos do tempo. Que manos, tô lendo com muita atenção e intenção, porque… que livro, galera! Que livro! E como ando pensando sentindo e aprendendo com o tempo.

E o tempo há de curar todo o amargo, cujo prefixo é amar e o sufixo is go, traduzindo amar é ir.

Florianópolis, 11 de janeiro de 21

13h54

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