Sempre me incomodou o fato de tanto as discussões como as práticas relacionadas a Desescolarização e o Cuidado de Si se darem em espaços restritos e ocupados por pessoas que possuem determinados privilégios, sendo o econômico o principal.

Foi a partir da maternidade que passei a pre-ocupar-me mais com o devir da educação e desde então uma educação pautada principalmente na liberdade que sempre se esbarra nas traves do sistema impedindo o gol.

Essas traves são construídas ao longo da história. E sempre que tentamos equilibrar na balança os privilégios, decisivamente pesará mais para os pobres, os negros, os indígenas, as mulheres, etc., porque há muito ainda que destravar para que possamos equilibrar essa balança. Há muita história: pela frente e por trás. A liberdade tem preço e seus d-efeitos são colaterais.

O Cuidado de Si e a Desescolarização são práxis pedagógicas para o devir da liberdade. E neste processo do Cuidado de Si como práxis pedagógica desescolarizada para alcançar a liberdade, se constrói uma relação entre o/a sujeito/a e a verdade.

Entretanto, voltemos ao ponto de partida deste ensaio, que é o meu incômodo de tanto as discussões quanto as práticas do Cuidado de Si e a Desescolarização se darem no campo dos privilegiados. As pessoas que tomam a desescolarização para si (sejam os teóricos e/ou os que praticam de forma consciente/ideológica/política/filosófica assumem a desescolarização) em sua maioria são pessoas brancas de classe média que tiveram acesso ao conhecimento e o privilégio de fazer uma escolha: que é a busca da verdade, verdade esta que se revela no autoconhecimento e este autoconhecimento se resulta na autonomia, na consciência, na emancipação plena do ser.

Esta escolha, logo esta maneira filosófica e desescolarizada de viver, só é possível sob determinadas condições que incluem sobretudo tempo e dinheiro, ou seja, não dá pra colocar o Cuidado de Si como uma responsabilidade unicamente do indivíduo, ainda que o Cuidado de Si pressupõe essa responsabilidade individual.

O que faço é alertar para as condições históricas e materiais deste indivíduo que é também social. É neste tecido imbricado que busco entender o Cuidado de Si e portanto tirá-lo do lugar de privilegiados.

O Cuidado de Si do qual falo remete a uma maneira filosófica socrática/platônica de viver, onde a filosofia nasce da práxis, não há uma separação entre a idéia/abstrata do ser e do modo como este vive.

E durante o período da antiguidade clássica, na Grécia, somente os privilegiados, ou seja, poucos homens livres e da elite, que tinham direito e acesso ao conhecimento e a oportunidade da prática do Cuidado de Si que consiste em Ocupar-se de si mesmo e Conhecer-se a si mesmo.

Na antiguidade clássica, na Grécia, os filósofos socráticos/platônicos tinham uma rotina de cuidar de si mesmo afim de ocupar-se consigo mesmo para conhecer-se a si mesmo. Todo este processo se dava de forma dialógica onde o conhecimento era tecido no diálogo com o outro.

Conhecer-se a si mesmo pressupõe a ocupar-se consigo mesmo, porém ainda que seja um processo individual – voltar-se para si, será na relação com o outro que será possível se conhecer. É olhando no olho do outro que se vê/enxerga a si mesmo. Se reconhecer no outro para se conhecer. E a partir dessa relação com o outro, de se reconhecer para se conhecer, que se faz possível o diálogo para a constante construção do conhecimento.

Contudo, o conhecimento e o modo de viver são coexistentes. São tecidos imbricados que vestem os sujeitos e as sujeitas na busca – sinônimo de devir, da verdade e liberdade.

Se ainda hoje as práticas do Cuidado de Si e a Desescolarização se restringem a uma classe de privilegiados, encontramos na história sujeitos e sujeitas que usaram a palavra desescolarizada como instrumento para o Cuidado de Si afim de alcançar a liberdade e encontrar a verdade.

Tal como os filósofos socráticos/platônicos, cujo o discurso filosófico justificava a prática, os escritores Beats (meados do século XX) nos Estados Unidos e os Poetas Marginais/Geração Mimeógrafo (segunda metade do século XX) no Brasil, cujo suas expressões escritas também justificavam suas práticas. Em suma, o discurso, seja este poético ou filosófico, nasce da prática.

E é neste ponto que faço aproximar os escritores Beats dos Estados Unidos, os Poetas Marginais do Brasil (escritores da contracultura do século XX) a uma maneira filosófica socrática/platônica de viver, porém estes escritores da contracultura do século XX abrem caminhos ainda mais sinuosos desafiando bifurcações. Toda sua condição de escritor/poeta/intelectual marginalizado pelo sistema irá configurar sua prática e discurso que têm como propósito a palavra como instrumento para emancipação plena do ser, todavia esta palavra é aquela que nasce da realidade/razão do indivíduo, uma palavra que recusa as normas cultas e gramaticais e ao mercado editorial, uma palavra anti-acadêmica e desescolarizada, que expressa e impressa a existência do indivíduo.

Esses escritores da contracultura do século XX traz na palavra expressa e impressa na existência, a possibilidade de o conhecimento acontecer fora do lugar dos privilegiados. Estes escritores ocupam os bares e botecos mais sujos e pobres das cidades e das estradas, ocupam as praças dos grandes centros urbanos e com a palavra dita e escrita dialogam com o outro – o povo, e tecem seus conhecimentos cuja finalidade é a libertação e a autonomia total do ser. A palavra como missão e essa palavra só tem sentido se for da realidade. Essa escrita da existência é um exercício curativo/terapêutico na medida em que obriga o escritor e a escritora a voltar-se para si, para sua existência. E este exercício do autoconhecimento através da palavra será essencial para encontrar-se com a verdade e para a construção da autonomia.

Portanto, vejo que os escritores e escritoras da contracultura do século XX se aproximam a uma maneira filosófica socrática de viver quando em ambos casos seus discursos nascem de suas práticas e assim constroem seus conhecimentos. Porém, enquanto os filósofos socráticos se mantém no campo dos privilegiados onde essa tal educação era restrita a homens livres e da elite e que futuramente iriam ser os governantes das cidades, os escritores e escritoras da contracultura do século XX ao usar uma palavra desescolarizada/anti-acadêmica e dialogar diretamente com o povo, levando a palavra como missão, saem do campo dos privilegiados.

Hoje, no século XXI é possível vermos várias práticas desescolarizadas fora dos campos dos privilegiados: estão nas periferias das grandes cidades, produzindo saraus, raps, funks, sambas, construindo suas narrativas e contando suas histórias. Tem mano que faz rap e nunca leu um livro. E daí voltamos ao ponto filosófico socrático: a experiência. A práxis. O diálogo.

No mundo inteiro há práticas desescolarizadas que não tomam para si esse conceito idéia palavra e se lhes dermos tal nome poderá lhes parecer abstrato e lhes carecer de sentido. Porque “eles” só são desescolarizados para nós: escolarizados colonizados ocidentais patriarcais cristãos até o caroço.

Atualmente o movimento pela desescolarização, tanto nas Américas como na Europa, tem vários sentidos e direções, e em sua maioria se dá entre pessoas brancas de classe média burguesa universitária. Assim como todas as práticas educacionais consideradas alternativas, pois todas elas são possíveis diante de duas condições caras: tempo e dinheiro. Ainda que suas práticas educacionais alternativas busquem romper com o sistema é o próprio sistema que os mantém. Como resolver essa equação? Ivan Illich já deu a idéia em 1979. Tem que desinstalar a escola da sociedade que consequentemente irá mudar a lógica de trabalho. E isso é só o começo. E vamos lembrar que o Cuidado de Si ainda que seja uma tarefa de si, há que pesar as condições históricas e materiais deste indivíduo. Michael Foucault resumiu bem isso em a Hermenêutica do Sujeito. Paulo Freire trouxe a didática: Pedagogia da Autonomia.

Paulo Freire e Ivan Illich passaram alguns verões da década de 1970 se encontrando em Cuernavaca/México, junto a outros intelectuais, para discutir a desescolarização como necessária para uma mudança real da sociedade e sermos indivíduos sobretudo livres e autônomos. Contudo, pensaram a desescolarização no âmbito social/coletivo para que seja possível a construção do indivíduo permeado pela liberdade e autonomia.

A Desescolarização não será privilegiada. E daí vem meu incômodo: é cruel mantê-la no campo dos privilegiados e principalmente usar a “pedagogia da autonomia” para responsabilizar o indivíduo cujo o mesmo cria sua própria realidade e limitações etc. A Pedagogia da Autonomia e a Desescolarização consideram o indivíduo como ser histórico e social cuja a educação escolarizada colonialista capitalista etc e tal, produz tais condições históricas e sociais, entretanto, será pela Desescolarização e pela Pedagogia da Autonomia que iremos construir outras condições históricas e sociais para que sejamos indivíduos livres e autônomos.

Quem tem medo da liberdade?

Maíra castanheiro

Historiadora e Escritora

Florianópolis, 24 de dezembro de 2018

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