Durante os vinte anos da ditadura militar (1964-1984) vários grupos de poetas e literatura surgiram nas capitais brasileiras engrossando o movimento de contracultura que questionava todas as normas: sociais; políticas; artísticas e etc. Portanto, trago os Poetas Marginais enquanto fenômeno/evento literário para ilustrar qual filosofia de vida lhes sustentavam e como se dava a formação humana.

O presente texto quer entender os Poetas Marginais como uma experiência hermenêutica onde através desta o Poeta Marginal exerce sua poética que traz uma interpretação da vida, logo da verdade, e esta palavra poética que nasce de sua filosofia de vida que será o grande instrumento para a sua formação, contudo é por meio da experiência hermenêutica que o Poeta Marginal se constrói.

Esta expressão Poesia/Poeta Marginal se caracteriza por uma totalidade de fatores tal qual o antropólogo Carlos Alberto Messeder Pereira nos apresentou nos idos dos anos 1980. Para o antropólogo, a Poesia Marginal o é por sua estética, ou seja, é uma poesia que foge totalmente as normas cultas e que rompe com as regras gramaticais, sendo uma poesia antiacadêmica e anti-intelectual. Uma poesia pornográfica. Para além da estética a própria produção também é marginal, haja vista que há uma crise no mercado editorial onde publicar livro é caro e livro não se vende, o poeta marginal vai assumir toda a produção para si. Ele mesmo cria, produz o livro, vende, distribui, circula. E contrariando as editoras, eles não só conseguem produzir a baixo custo e logo vender acessível ao povo, como produzem e vendem muito.

Portanto, a Poesia Marginal está para além de seu caráter estético e de produção (criar produzir distribuir circular vender), como também político ao denunciar em suas expressões literárias as mazelas da sociedade e pautar temas como legalização das drogas, sexualidade, racismo, feminismo, segurança pública, moradia, saúde, educação etc., e anunciar uma sociedade libertária, anarquista, igualitária, como também o é num sentido filosófico e é neste sentido que venho direcionar a discussão.

Perceber os poetas marginais como um evento literário acaba sendo bastante sugestivo para pensarmos a hermenêutica que os atravessa. Logo, trago neste texto o autor Richard Palmer que nos explica sobre a Hermenêutica e suas implicações.

A experiência hermenêutica acontece quando a palavra deixa de ser palavra e passa a ser evento, ou seja, qualquer dizer, afirmar, proclamar, anunciar, expressar “é um dizer que é em si próprio interpretação” (PALMER: 2006:.26). Recitar um texto ou lê-lo em voz alta implica já uma interpretação semelhante a uma interpretação musical.

Nas interpretações aparecem os significados que são explicados a luz dos contextos. O ser humano como ser dotado de linguagem e é por meio da linguagem/interpretação que a experiência hermenêutica acontece. Sempre que nos expressamos trazemos nossas interpretações.

Em suas manifestações literárias, sejam elas escritas visuais ou faladas, os Poetas Marginais afirmam ser a poesia sua filosofia de vida. E essa poesia nasce da práxis, logo os poetas estão a todo tempo interpretando a vida no Aqui e Agora. E nestes papéis de intérpretes têm o compromisso com a verdade.

“A emergência da verdade na experiência hermenêutica aparece nesse encontro com a negatividade que é intrínseca a experiência; nesse caso a experiência surge como “momento estético” ou como “evento linguístico”. A verdade não é conceptual, não é facto, acontece”. (PALMER: 2006:246)

Tal filosofia de vida que sustenta os Poetas Marginais, é pautada pela própria vida. “É a partir da própria vida que temos que desenvolver o nosso pensamento e é para ela que orientamos nossas questões. Não tentemos encontrar idéias por detrás da vida”. (PALMER: 2006:105). E é por isso mesmo que a verdade simplesmente acontece. E os Poetas Marginais têm o compromisso com a vida presente regida no Aqui e Agora, onde a verdade têm seu valor, mais do que analisar as rimas, métricas, os versos, os Poetas Marginais prezam pela coerência entre o que se faz e diz, entre o que o se pensa e vive, pois para os mesmos, não há uma separação entre vida e poesia, elas estão imbricadas e a Poesia Marginal, por livrar-se das regras, traduz verdadeiramente a vida.

Os Poetas Marginais enquanto fenômeno literário que surge em meio a uma crise no mercado editorial durante a ditadura militar que traz a literatura como missão, estes poetas acreditam no potencial revolucionário da palavra poética, porém essa palavra poética só é possível a partir da prática, em suma, sua poesia nasce da práxis. O poeta é tecido pela palavra que também o tece. E essa poesia ela é construída na relação entre o sujeito e a verdade e muitas vezes as ruas, as praças, os bares, as estradas, serão os palcos para estes poetas atuarem e dialogarem diretamente com o povo.

A formação humana do ponto de vista dos Poetas Marginais perpassa pela apropriação da palavra, seja ela dita escrita vista, é dizer, se apropriar de sua própria história, ser autor de sua própria narrativa. É usar a palavra como instrumento para o autoconhecimento e ainda que este processo seja individual, os Poetas Marginais vão entender a importância de construir essa individualidade e autonomia no coletivo e social. Por isso ocupam as praças urbanas das capitais brasileiras e acreditam no potencial revolucionário da palavra poética para transformar a si e a sociedade. Acreditando que sua palavra poética possa lhe provocar alguma reflexão e re-ação. Para que os seres humanos possam estar livres de qualquer poder e autoritarismo, opressão. Que não haja desigualdade. Assim, a palavra é um instrumento emancipatório para o autoconhecimento. E esta palavra é necessariamente uma experiência hermenêutica.

Aprofundar sobre os Poetas Marginais enquanto evento literário de contracultura que rompe com os paradigmas estéticos, acadêmicos, institucionais, com o mercado editorial capitalista, traz a possibilidade de os entendermos como experiência hermenêutica que com a palavra poética marginal se forma como humano, um ser sobretudo histórico.

Destarte, a experiência hermenêutica numa estética marginal para a formação humana nos revela que o conhecimento também acontece nas margens e pode ser libertador.

Maíra Castanheiro

Florianópolis, 18 de Julho de 19