Querido diário,

semana passada, era domingo de sol, eu acordei de um sonho. Sonhei com ele. Sonhei que ele conhecia minha avó. Estávamos muito felizes. O clima era de alegria. Acordei intrigada. Não queria ter sonhado com ele justo quando já quase não o sinto não penso não peso.

Achei curioso no sonho ele conhecer minha avó. Porquê seria a última pessoa a quem eu apresentaria. Minha avó era muito exigente.

Minha avó era…

Minha avó morreu. Iracema Castanheiro está enterrada. Ela era uma mulher com muitos defeitos. Mas, seria injusto eu falar sobre pensar sobre, seria ingratidão, porque apesar de tudo, ela não foi tão má assim. E se a gente for cavar essa história, impossível não ver as questões machistas e patriarcais que nos atravessam.

Neste caso, atravessou desde o Amazonas, cruzando por todo o Brasil para findar em Florianópolis.

Mariaalice dorme, Vick saiu pra dar uma volta. Eu tô chorando pra caralho. Chorando baixinho que é pra ninguém me ver. Eu sempre soube que algumas mortes me seriam/serão difíceis de lidar. E a morte de dona Iracema Castanheiro é uma delas.

Tal como na cremação de meu pai, eu fui a última a chegar no enterro da minha avó. A primeira pessoa que encontrei foi Fernanda. Minha prima. Crescemos juntas. Ela foi criada pela avó. Fernanda chorava muito. Era a única que não estava de preto. Fernanda estava aos prantos e ao me ver sorriu. Aquele encontro familiar. Eu chorei. Nos abraçamos. Me aproximei do caixão, já fechado. Vi meus tios, primos e Raoni. Todos os filhos ali presentes. Havia tios e tia que não os via há mais de 15 anos. Meu tio Pita, o que eu mais gosto, me abraçou forte e me disse:

– seja forte.

E eu pensei que era eu quem devia dizer isso pra ele. Que era ele quem mais precisa de força. Mas, não consegui dizer nada. Fui incapaz.

Após o enterro, fomos pra casa da minha avó. Foi estranho. Estranho pensar que nunca mais verei minha avó. Sentar com ela no sofá e conversar. Responder pacientemente as mesmas questões. Colocar música e dançar e ela achar engraçado. Pensei nisso, acabou. A ficha ainda tá caindo. O pior vem depois.

Olhei pra casa. Vi minha mãe, Ceminha, Manu, Ricardo e tio Pita. Desejei que aquele cenário permanecesse. Que tia Bernadeth, que as primas Alessandra, Hayane, Fernanda espalhafatosa, continuassem a frequentar a casa, que a gente continuasse a nos reunir nos aniversários, natais, etc. Quis manifestar este desejo. Mas, me calei. Me senti incapaz. Eu sempre temi muito a morte de minha avó. Por temer a morte de uma família. Por saber que ela tinha esta família em sua mão e coração. Que controlava tudo. Que era ela o lar. Sentei no sofá, em seu lugar e pensei. Lembro do dia que nos mudamos pra esta casa. Eu morei aqui. Faz tanto tempo. E fiquei tanto tempo longe desta casa, desta família. Foram 14 anos sem vir aqui e sem contato. Voltei em 2018. E apesar dos pesares a pesar, eu estava/estou curtindo os momentos de família. De ter um lar, uma casa, uma família, como referência. Porque isso nunca houve do lado de meu pai. E o pouco que havia de “família” para nós morreu com meu avô e na sequência, com meu pai.

Minha família materna sempre foi treta e é treta. Mas, eu amo tio Pita. Eu amo tia Bernadeth. Eu amo Alessandra, Eu amo Dudu. Eu amo Hayane, Fernanda. Ricardo, Manu e Ceminha. Eu cresci com essa galera. No Rio de Janeiro, em Teresópolis, em Goiânia, em Belém, em Florianópolis.

Hoje, ao lidar com a realidade de que Iracema Castanheiro não está mais aqui, eu olhei pra minha família e senti, eu sinto muito. E não queria que a gente se perdesse. Eu sinto muito porque hoje me dei conta que com todas as tretas, a gente tem uma história, tem sentimentos e eu tô muito sentida por esta partida da família.

Quando eu era criança eu queria ser como minha avó: bonita elegante chique sempre com grana advogada trabalhando poderosa inteligente organizada.

Aos quarenta anos minha avó ficou viúva. Ela com oito filhos, deixou as terras amazônicas e foi viver no Rio de Janeiro em plena ditadura militar e contracultura. Perdeu um filho que servia ao exército, foi brutalmente espancando por policiais. Ela, aos quarenta anos, que tinha sido educada pra casar, ser mãe e dona de casa, com oito filhos, viúva, resolve fazer duas faculdades: Direito e Administração. Se forma em ambas e passa na OAB. E trabalhou até quase os setenta anos. Sustentou a família inteira: filhos, netos e bisnetos, até agora, que restam os últimos centavos para pagar as contas dos hospitais remédios enterro etc.

Ao fumar um beck no quarto da minha mãe, de janela fechada pra tia Martha não se incomodar:

– é sério isso? Somos todos adultos. Essa casa é grande pra caralho. Estamos nos quartos dos fundos, janela fechada, fumando um beck, e ainda reclama? Aff.

– É mana, ela se incomoda. Vamos respeitar.

– Isso não é respeito. Vou fumar sim. Por que não veio falar comigo?

– Maíra, ninguém vai falar com você. Por que sabe que vai ser encrenca, né, mãeconheira?

Diz meu irmão em tom de brincandeira, como sempre querendo harmonizar, Fernanda ri e eu sigo fumando o beck até o fim.

– Melhor assim mesmo, e vou seguir fumando e quem quiser que venha então falar comigo. Aff, na moral, já tô de janela fechada… Podia tá no quintal vendo céu azul…

Fernanda conversa. E ri e chora. Assim ela é. Manu também. Margareth Também. Tem algo comum entre elas. Aí penso também um pouco nas sinas das mulheres Castanheiro’s. Veja bem, eu quando adolescente morava com meu pai na Bahia e minha mãe morava aqui em Floripa. Aí, não sei bem como, mas hoje, Mariaalice mora com o pai na Bahia, e eu a mãe, aqui em Floripa.

Eu disse que Fernanda foi criada pela avó, né? Pois bem, hoje a filha de Fernanda, que também se chama Alice e ela e Mariaalice são melhores primas, também é criada pela avó, no caso a mãe da Fernanda.

São histórias que se repetem e que nós precisamos resolver. Desatar alguns nós pra fluir.

– Tia, te amo, tá?

(e eu sabia que ela estava chateada comigo porque tínhamos discutido dias antes).

– Garota…

– Ah…tia! Nem vem! Eu sei que tu me ama!

A interrompi e abracei. Ela abraçou-me forte e disse:

– Te amo minha sobrinha preferida.

Sempre foi assim, o resto que morram de ciúmes. Risos.

Vó, tu vai fazer tanta falta, eu tô sentindo tanto… te amo e obrigada por tudo!

Castanheiro’s de todo o mundo (e só há nozes mesmos): uni-vos! Amo vocês, e desculpem por eu ser incapaz de dizer abraçar chorar, ali. Mas, eu estou aqui. Eu sinto muito.

Floripa, 26 de fevereiro de 21

00h57

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2 comentários em “A grande partida da família Castanheiro: Iracema. Por onde chegamos.”

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