Sabe aquele poeta com sua velha roupa, que vez por outra seu hálito recende a cachaça porque isso é melhor do que não ter hálito nenhum? Aquele poeta cuja pernas caminharam por linhas tortas e a palavra sempre esteve no comando? Aquele poeta cujo seu ser é envolto por uma neblina de hollywood ou marbolro ou mesmo um velho camel, desde que seja forte? Porque assim se mantém atentos: a cada tragada um verso. A cada gole, um golpe silábico. A cada passo, um uivo agudo e gutural.

Há poetas e poetas. E o poeta que vos falo é o poeta marginal beat visceral. É desses poetas que você quer trocar idéia tomando uma num boteco antigo tradicional sujo e sem vento, apenas suor hálitos e bafos. É desses poetas que você quer trocar idéia fumando um na maior palosidade: em frente a secretaria de segurança pública do estado da Bahia, ali na praça da piedade da capital soteropolitana. Ou mesmo vendo-o recitando no Porto da Barra. É o tipo de poeta mais insuportável que há. Ele não suporta o mundo hipócrita, o sistema bruto e a ilusão. Traz sua poesia profética como quem dá um tapa na cara. Vende o suor dos seus dedos nada mais do que sua verdade, sinônimo de vida e liberdade.

Este poeta marginal não tem lenço e nem documento. Não tem pátria, nem patrão. Não tem partido, mas têm sempre caneta, papel e vida em mãos. O lema é o Aqui e o Agora. Viver inteiramente e intensamente o presente. Esses poetas meteram o pé na estrada em nome do vento. Seus uivos beat desde o velho oeste do coração distraído porém, jamais vencido.

A palavra é o maior poder e instrumento. Estes poetas marginais rompem com as academias, com os dicionários e as normas cultas. Expressam através da palavra todo o seu devir/sentir. Para os poetas marginais não há regra para a expressão poética, ou indo mais além, não há para ser/estar.

Não há método. A escrita é fonética. É pornográfica. A escrita acompanha o ato. Cada ação é imediatamente versejada, poetizada, narrada. Ser/estar o mais presente possível. E isso é se libertar de erros, conceitos, julgamentos.

Impulsividade, intensidade, ingenuidade, espontaneidade, originalidade: adjetivos que verbalizam cada transição direta.

Ser/estar Aqui e Agora é a busca da evolução social emocional mental racional cósmica astral e o caralho a quatro. Há muitos caminhos para alcançar tal evolução. Alguns se movem pela poesia. E são destes poetas que desejo falar. Estes que trazem outras concepções de arte, trabalho e linguagem. A palavra como práxis pedagógica, e me arrisco a dizer, desescolarizada. Desescolarizada desde sua criação poética, no seu devir cotidiano, nas suas relações com o trabalho, na sua forma de produzir seu próprio livro, seja ele mimeografado, xerocado, artesanal, industrial. Na sua forma de distribuir e circular seu produto/livro: vendendo-o de mão em mão; nas ruas; nas praças; nos bares; nas portas de shows e teatros; nas universidades; nos meios de transportes públicos; onde o povo está. Criando assim, uma relação direta com o leitor. Desescolarizada na sua estética por não se submeter as críticas literárias, ao mercado editorial, as normas acadêmicas.

Abaixo conto um pequeno capítulo da história dos poetas marginais.

Poesia: um artefato de revolução, trabalho e linguagem

Era o ano 1979 em pleno verão tropical, quando uns poetas resolveram se juntar diariamente na Praça da Piedade em Salvador, em frente à Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia. Na hora sagrada da ave-maria: às 18 horas, com o badalar do sino da igreja lembrando à hora da missa, junto com os pedintes nas escadas da igreja e calçadas estreitas, o pôr do sol e o fim do expediente, o dendê exalando entre suores e fumaças, o trânsito engarrafado nas apertadas avenidas Sete de Setembro e Joana Angélica, os poetas soltavam o verbo na praça, agora além de ser da Piedade, é também desde já a sagrada Praça da Poesia.

A rotina do fazer poesia na praça impulsionada por Antônio Short, Ametista Nunes, Eduardo Teles e Gilberto Costa, foi agregando cada vez mais os poetas como Geraldo Maia, o casal Margareth Castanheiro e Zeca de Magalhães, entre outros, os levando a se organizarem e a se autodenominarem como Poetas na Praça. Em novembro de 1979 lançaram seu manifesto: Por – Poesia Revolucionária.

O título do manifesto já explicita a compreensão de poesia que os poetas defendem. A poesia como instrumento de revolução, como uma linguagem mais acessível ao povo que coloca em discussão os problemas do “aqui/agora”. Para os Poetas na Praça, o poeta e sua poesia se estabelecem numa relação interdependente, na qual a poesia está associada diretamente ao mundo do poeta, em outras palavras, o poeta se expressa a partir do que ele próprio vive, do mundo em que ele se comunica, é necessariamente um homem do povo.

Além de ser um instrumento de revolução, a poesia é também uma ferramenta de trabalho: “nós poetas na praça / vivemos do nosso trabalho / como qualquer outro trabalhador”*. E assim querem ser reconhecidos: como trabalhadores da arte que se preocupam com os problemas sociais e cotidianos, e a poesia tem de estar a serviço da mudança social e cultural. “Não se pode conceber / uma forma de arte / que carregue em sua linguagem / a análise burguesa da sociedade / ou um substituto reformista qualquer”*.

Em Por – Poesia Revolucionária, os poetas suscitam o desejo de uma sociedade mutualista, que tem por princípio a solidariedade e a coletividade, ao passo que vivem sob uma sociedade baseada num capitalismo liberal selvagem e sob a vigência de uma ditadura militar repressora e opressora. Diante disso,

o movimento Poetas na Praça / existe / a partir de uma necessidade / concreta / de mudar essa realidade / porque ela não satisfaz as necessidades de cada ser humano / para viver como tal / em qualquer parte do mundo do universo”*.

Os Poetas na Praça, todavia não compartilham com os partidos de esquerdas, acusando-os de reduzirem “a luta revolucionária / a uma simples luta / por ascensão de classe / mas não das ideias”*. Propõem uma sociedade sem Estado, contra o autoritarismo, a censura e a ditadura, em suma, uma sociedade anarquista.

manifesto apresenta críticas à Fundação Cultural do Estado da Bahia acusando-a de usar mecanismos burocráticos para dificultar a comunicação/relação entre os “trabalhadores da arte” e o Estado e de contribuir para manter os privilégios da elite burguesa. A estética e a linguagem, a mensagem poética destes poetas, não correspondem aos valores estéticos do mercado editorial literário e muito menos se enquadram nas normas da “academia brasileira de letras”. Portanto,

com esse objetivo / o movimento Poetas na Praça / propõe à comunidade / que a Fundação Cultural da Bahia / seja autogerida / pelos trabalhadores das artes / a fim de que nós possamos encontrar / por nós mesmos / as verdadeiras soluções / para as nossas necessidades / de vida e trabalho”*.

Para além deste manifesto aqui citado, os integrantes deste movimento realizaram uma série de práticas pela promoção e incentivo da poesia. Uma poesia que representasse as angústias e as necessidades de um povo marginalizado. E assim, o Movimento Poetas na Praça pretendia continuar uma luta por uma sociedade libertária tendo como suporte principal a arte como um artefato de Revolução, Trabalho e Linguagem.

A década de 1980 no Brasil representa um momento importante para a nossa política. Estávamos em transição de uma ditadura militar para a dita cuja democracia. Foram os anos primordiais do PT, que foi fundado em 1979 no mesmo ano do manifesto dos Poetas na Praça que vimos aqui.

Por uma década estes poetas gritaram e foram até presos por isso, mas isso fica para outro capítulo. Muitos continuaram gritando e poetando no seu caminho (recitando, publicando, ensinando). Alguns partiram para outro mundo, aquele que o poeta sempre versa e verbaliza. Aquele mundo que o verbo se faz carne e dela o poeta continuará se alimentando e digerindo um mundo que agora é só seu. E nós aqui da terra, não vamos adentrar. Só temos suas poesias e histórias, suas histórias que são poesias e poesias que são histórias.

Ao fim de uma década os Poetas na Praça, por vários motivos, dispersaram-se. As letras embaralharam e cada qual tomou seu abecedário e fez seu dicionário. Alguns creiam serem letras maiúsculas e que muitos outros eram minúsculas. Alguns se confundiram em ora adjetivos, ora substantivos. Poucos se fizeram de transitivos diretos, já que a maioria foi pelo intransitivo indireto. Uma coisa se sabe, esses sujeitos não eram e não são ocultos. Apenas se embaralharam em tantas interrogações e exclamações. As reticências deixavam muitas dúvidas, foi aí então, que o pingo do i tomou uma atitude e virou ponto final.

Por Maíra Castanheiro in Vale do Capão, 10 de agosto de 17 as 00h16min ouvindo Pink Floyd: Endless River. Fumando maconha. Tomando chá.

*Trechos do manifesto Por – Poesia Revolucionária do Movimento Poetas Na Praça publicado em Novembro de 1979 no Jornal O Inimigo do Rei.

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