Querido diário,

<eu vim pra não morrer> eu quero apenas mostrar as marcas que ganhei nas discussões com deus e o diabo na terra do sol. Dias sim e dias não eu vou sobrevivendo apesar dos arranhões.

Antes sangrava, ardia. Agora já não sinto nada. Isso me preocupa. Socorro.

Alguma coisa precisa acontecer no meu coração: que este já não bate e nem apanha.

Alguma coisa precisa acontecer no meu coração: que este já não bate e nem apanha.

Remix.

– Essa vontade de não fazer nada, desânimo, etc., pode ser depressão, tem que investigar.

– Não me sinto triste. Não estou triste.

– Depressão não é tristeza.

–  Verdade.

Uma coisa eu concordei: seja o que for é preciso investigar. Ocupar-se de si. Mas, que preguiça. Sair da preguiça, da inércia, o que seja, que difícil! Pra sair da preguiça tem que sair da preguiça, putaquepariu, procurei outro jeito mas não houve, tive que levantar sacudir a poeira e dar a volta por cima, mais uma vez. Que saco, essa vida de eternamente tentar e tentar outra vez etc. É cansativo.

Tem o inverno, é osso suportar o frio. Tem o patriarcado, o machismo, o capitalismo, o racismo, é osso. Tem a saudades de Mariaalice, é osso. Tem a pandemia eterna, é osso. Tem uns boys tudo errado, é osso.  Tem essa ladainha há mais de dois mil atrás, é osso.

Looping.

Um saco também. Não quero falar sobre. Sigo investigando e indo mais afundo que este looping. Este looping que depois da verdade é só tormento pra justificar nossos lamentos. Meus sentimentos – ou mesmo a ausência deles, tem também algo que é particular a mim: coisa do meu ego. Do meu cerne. Coisa que preciso afagar. E penso que o exercício do amor próprio vem por aí: afagar o ego. Buscar nele a dor que deveria te trazer lágrimas ou qualquer coisa que se sinta <com tanto sentimentos deve ter algum que sirva>.

Muitos dias de inércia fazendo o mínimo: tomar um bom café da manhã, caminhar fumando um dedo de hulk, ler algum artigo, anotar algumas ideias, algumas reuniões. Eu poderia e deveria estar fazendo muito mais.

Tô muito atrasada no mestrado, sem dar conta dos prazos e das atividades. Tá me faltando coragem pra encarar de fato o mestrado. Tô enfrentando um perigo: não estou encarando muito bem a escrita e a leitura. Ainda que eu leia e escreva algo todo dia, não tô de fato encarando como quero: o mestrado e meu livro. Pois, eu acho que se eu começar a encarar eles, eu irei ficar tão concentrada que ficaria alheia a todo resto. E eu simplesmente não posso ignorar as outras atividades. Então, tento cumprir com todas as outras atividades e as principais: mestrado e livro, deixo pra depois. Deixo pra quando eu puder parar o mundo e morar neles.

Tá errado isso e preciso tomar uma atitude. Aos poucos tô tomando e tentando correr atrás do prejuízo. Me vejo num exercício muito forte de disciplina e controle da mente. De tomar decisões e cumprir consigo mesma. Tô tentando. Tem dias que consigo ir mais além. Tem dias que pareço regredir.

Uma amiga mãeconheira querida me salvou e só por isso consegui pagar dois alugueis atrasados, honorários dos advogados e comprei minha passagem para Bahia, ficar um tempo lá com Mariaalice e amigos. Tenho certeza que passar um mês na Bahia vai melhorar meu humor e esquentar corpo mente alma coração.

Meu lsd tá acabando e isso me preocupa. Preciso logo comprar mais e quero um mais potente. Sexta-feira passada, 25 de junho, eu e Vick fomos a praia da Galheta. Tomamos lsd. Tomei banho de mar sol sal. Vimos lua de morango. Vimos o sertão virar mar. Vimos deus brincando com uma bola de São João iluminando o céu. Vimos as estrelas soltando raios energéticos e interligando-se entre si formando uma teia, mandalas. Rimos choramos caminhamos. Refletimos e filosofamos muito e no final quando chegamos na pista mais uma vez concluímos: a culpa é do patriarcado e do capitalismo. Que merda.

Finalmente consegui um trampo. Escrever para um blog sobre Maternidade e Trabalho e criar conteúdo para as redes sociais. Essa grana mensal vai me salvar: ter uma mínima estabilidade financeira tira um peso das costas além ser bom aos olhos do juiz, afinal a qualquer momento pode rolar uma audiência sobre a guarda.

Eu moro numa kitnet, faço mestrado sem bolsa, sou mãeconheira… O juiz pode considerar que eu não tenho condições ideais para criar minha filha. Por isso estava muito apreensiva por estar sem trabalho remunerado e com aluguéis atrasados. Mas, parece que as coisas estão melhorando e as portas estão se abrindo. Acendo uma vela e agradeço pelo milagre de ter visto fadas. De ter me conectado com a lua de morango. De ter pessoas bárbaras na minha vida.

– Mai, e as contas?

– Luna, estão atrasadas, mas eu não estou desesperada como antes, porque agora estou fazendo meu trabalho, não tá dando grana ainda mas, vai gerar. Há perspectivas reais.

– Mai, você tá rica. Você tá rica porque você se encontrou. Se conhece, sustenta quem é e tá no seu caminho.

Me emocionei quando ouvi isso. É verdade. Eu insisti (insisto) muito no que acredito. É, têm sido uma longa jornada pra chegar aqui: no início. Apenas tô começando. Conseguindo trabalhar em casa com traduções e escritas. Publicando meu segundo livro. Tentando escrever outros. Me conectando com várias mãeconheiras, formando redes de apoios, debates e ações.

 Mas, confesso que tô cansada de solidão. Me sinto sufocada pela solidão. A falta de amor de toque de abraço amasso suor, é foda. Tampouco quero voltar apelar para os aplicativos de relacionamento. Têm sido desgastante este rolê de relação sexo tesão.

É como diz a poeta Manoela Gil: às vezes a mania de tensão tira o tesão do tempo.

Ando sem paciência e sem saco para frases e ou textos com dizeres do tipo: você não precisa de ninguém pra ser feliz. Se ame. Seja suficiente pra si. Você se basta.

Aff, que saco e eu não finjo ter paciência. A gente precisa do outro sim caralho! A gente precisa do outro pra se vê, se conhecer, se relacionar. Ser humano é relação, conversação, caralho!

Obviamente que não temos que criar relações de dependências, isso quase sempre é abusivo e tóxico. Até porque sempre vem manipulações e transferências juntos. Uma coisa é praticar pedagogia da autonomia, ter responsabilidade.

– Tô cansada de construir autonomia sozinha.

Me desabafou uma amiga, 40 anos. Artista, mãe. Tá sempre sem grana. Sempre correndo atrás e se sente fracassada por não conseguir. Caralho! Não se constrói autonomia sozinha! Isso é uma cilada tremenda da ética protestante e do espírito do capitalismo.

Desenvolver o amor próprio é um processo individual pero acon-tece também na sua capacidade de se relacionar com o outro deixando vir as falhas, os erros, permitindo-se ser vulnerável. A construção do amor próprio perpassa também por receber amor. A vida é uma construção. Leva tempo para edificar.

Domingo de muito vento e melancolia. Pouca comida e energia. Hoje pensei bastante naquele cara, o qual já fiz livro e já muito falei por aqui, porém não pronuncio e não escrevo seu nome.

Penso sempre com pesar. Pesa muito ainda. Eu não sei dizer o que sinto por ele, nada do que eu disser será próximo da verdade. Talvez não haja nenhum sentimento e apenas tormento. Eu me apego <naquela noite de lua cheia você rindo de barriga de cheia> e penso: putaquepariu a gente tinha tudo pra ser tão bom e por que não?

O que me deixa inconformada foi como acabou ou não acabou, tudo. Foi tudo tão de repente! Ele me disse que me queria em sua vida pra vida inteira e do nada: tô bloqueada e sem nenhuma notícia, nenhuma vista. Não há arte colagem beck sushi recado poema que resolva este problema. Eu deveria desistir de entender e de esperar. Me dói o desprezo de quem me teve apreço. Insuportável o silêncio de quem me sussurrava nos ouvidos. Ai coração, não dá pra falar muito não. Eu perco a razão. Tá demorando pra caralho, parece até meio obsessivo depressivo todo este sentimento história. Tá demorando pra caralho pra passar, e tá passando feito um trator por cima de mim, mas tá passando. Tá passando. Tá passando e há de ser passado. O futuro não demora. É preciso viver o Aqui e o Agora: que me devora.

Vou comer um macarrão a bolonhesa. Tomar um banho. E transar gostoso com meu motoboy. Fumar uns becks lendo Só Garotos de Patti Smith e dormir. É o que tem pra hoje. Amanhã é segunda e essa semana vai ser muito frio e muito trabalho.

E eu não vejo a hora de chegar na Bahia, minha alegria.

Florianópolis, 27 de junho de 21

19h33

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