Querido diário,

Si me deu uma missão: escrever um texto sobre o amor. Melhor ainda, ou pior ainda, ela me perguntou: qual é a minha visão sobre o amor?

Responder com um texto. No máximo 3.500 caracteres, ou seja, uma lauda.

Putaquepariu. Eu tenho muito amor, 3.500 caracteres certamente será pouco.

– Si, tenho sofrido tanto de amor que acho que meu texto vai ser pura sofrência.

Risos. Faço um dedo de hulk. Ligo o som. Dia seis de janeiro. Dia de reis. Dias de janeiro. Eu amo dias de janeiro.

3.500 caracteres, uma lauda inteira pra escrever sobre o amor. A propósito a lua está em libra. E eu quase ocupo minha cama hoje. Quase. Mas, como eu sei que não era nem amor e nem cilada, eu deixei quieto.

– porque eu não sei o que é o amor…

– Ai Si, e quem sabe? Ninguém sabe. Quem souber morre.

– Mas Mai, a gente não deveria saber?

– Acho que não. Tipo, saber de saber, não. Acho que deveríamos apenas sentir, sem teorizar, sei lá, tipo: deixa acontecer naturalmente… A gente não tem dúvidas de quando estamos felizes ou triste, né?

– Não acho que seja tão simples… porque amor não é só bom… assim como o fato de eu estar feliz, não me impede de sentir alguma tristeza. Na real, a vida adulta é basicamente isso, né? Aprender a ser feliz apesar das tristezas.

– Sim, mas tu sabe quando está feliz, né? Acho que amor não é dúvida. É certeza!

É isso, querido diário, amor é certeza! E concordo com Tom Zé quando ele canta que o amor é a coisa mais linda quando o vento traz e também concordo com João Gilberto quando ele canta que o amor é a coisa mais triste quando se desfaz.

Me pergunto eu, qual visão tenho eu sobre o amor? Eu sempre pensei e senti muito sobre o amor. E não há poesia, romances, músicas, que traduza o que é o amor.

E caro Caetano, não há pra quê rimar amor com dor. Amor rima com humor. E só me fez sentido rimar amor com dor quando pari.

Mas, vamos lá querido diário, eu ainda não respondi qual a minha visão sobre o amor. Tá sendo mais difícil do que imaginei, falar é complicado. Mas pô, sei lá, tipo assim, mano, cara…. risos. Hoje eu penso que o amor é sobretudo aceitação, entrega e disposição. Não sei se é isso, mas, é o que busco. Obviamente que tem todo o papo sério e real de amor próprio etc. e tal. A solidão me traz muito autoconhecimento e amor próprio até porque é algo que eu busco e teço dia a dia com todos os fios das meadas que perco e encontro. Mas, ainda que eu curta star sozinha, eu quero uma companhia. E poucas vezes quis de fato uma companhia pra dividir a cama a pia a sala negociar o som dividir o beck passar os dias juntos aguentar todos os humores dividir contas compartilhar sonhos estar sob o mesmo teto sob o mesmo céu sob mesmo o sol. Quis isso uma vez, segunda vez e terceira vez. A primeira e a segunda se concretizaram e tiveram suas histórias com começos, medos e sim. E fim. A terceira, eu ainda não sei. Talvez eu ainda não aceite o fim in mim. Embora nunca houve o sim. Eu sei que minha mente e meu coração ainda pensa e sente ele. Não devia, ok, eu sei.

<amo você, talvez não seja o certo>.

Agora me diz, pode o amor ter alguma razão? Ou talvez seja ele a razão e quando a gente foge só se fode? Ai que desgraça! Putaquepariu! Caralho! Que desgraça!

Respiro. Vai passar. Um dia passa. Enquanto isso, eu sigo trabalhando malhando estudando fazendo amor com outras pessoas e tem uns caras bem legais. Acontece, que sou muito criteriosa, eu só me relaciono por amor, e por isso que me fodo, ainda que gostoso, me fodo, ainda que eu me arrependa e aprendo, eu me fodo, ah, eu só me relaciono por amor.

Ok, eu acredito que o amor é de fato uma construção histórica social o patriarcado o capitalismo o cristianismo etc. e tal. É tudo verdade. E venho dia a dia desconstruindo este amor pra mim. Transo com muitos. Amei poucos. Os que amei, casei. Nunca namorei. Fica até parecendo que sou oito ou oitenta. Mas, na real, eu sou romântica pra caralho, sofro com essas pequenas relações líquidas efêmeras vazias, que o cara só te chama de linda e gata quando quer te comer, ou sempre acha que você tá emocionada intensa apaixonada querendo namorar, sei lá o quê caralho, na real nem eu sei, como tu vai saber? Eu sei que agora eu tô afim e tô querendo. E tô bancando isso. Ah, não vou fazer o joguinho do desprezo, do desinteresse, não procurar, etc. e tal. Isso comigo não vai funcionar. Nunca funcionou. Não funciona. Ah, querido diário, entende porque eu não namoro? O mundo é muito cruel. Risos. Eu vivo onde os fracos não tem vez e os brutos amam. Eu vivo a oeste do meu coração. E aqui há o espaço de ser ridícula, vulnerável. Tem que ter coragem pra lidar com a vulnerabilidade. Tem que ser forte pra gritar socorro. É força sobre força. E aí, um som um beck um lsd a natureza e já amo. Amo o amor. E hoje penso, como já tive tudo isso em companhia de amores, de todos os tipos de amores e de como tenho isso sozinha, este amor na solidão, o amor próprio. Mas, confesso pra mim, como queria tudo isso com ele. Muito. E talvez, o amor seja sobretudo sobre isso: escolha. Investigar essa escolha. Ok, tô anotando isso aqui pra trabalhar. E como eu disse antes, amor é sobretudo aceitação. E eu o aceitei. O aceitei justo quando o vi sem máscara. Ele que anda sempre pelado, só o vi desnudo por completo quando ele chorou: eu vi, era só por amor, aquele choro todo. E ainda assim eu o quis. Eu o kiss.

<amo você, talvez não seja o certo, amo você demais>.

Ai, Otto, tô aqui no replay me perguntando: Por que?

<Na vida tenho muito que dançar/ Para aguentar o peso /Pra parar de pensar no erro / Por que você não quer / Ficar tranquila um pouco/ Seu rosto é mais bonito rindo / Por que você me quer assim / Triste, traiçoeiro / Se eu posso dividir meu corpo e meu amor/ Pra que ficar assim desesperada / Se ele falou que não lhe quer / Até de manhã / Vou esquentar os pães / Teus dedos /Até de manhã / Vou esquentar os pães / Teus dedos>.

Porque o amor é escolha. Aceitação. Entrega. Disposição. Enquanto sofro por um amor interrompido maldito, eu escrevo, eu ouço música, até passar… só acaba quando termina.

E Si, sinto muito, mas se passaram de 3.500 caracteres, aceite mesmo assim, porque têm muito amor envolvido.

Florianóplis, 6 de janeiro de 21

23h03

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