Querido diário,

Mariaalice chegou segunda-feira e hoje já é sexta-feira e nem preciso dizer que os dias estão passando voando com asas de borboletas, transformando tudo e deixando tudo colorido.

Foram nove meses de muitas saudades, por causa desta eterna pandemia. Ela chegou e até agora a gente não se desgrudou, muito amor. Fazendo tudo juntas: cozinhando, limpando, arrumando, lendo, escrevendo, hidratando cabelo, lavando roupa, escovando dentes, tudo juntas.

Ontem fomos ao centro de saúde do Canto da Lagoa pra minha consulta ginecológica. A enfermeira fez exame de toque nas mamas e depois abri as pernas, ela com uma luz olhou tudo lá dentro, enfiou lá aquela parada que não sei o nome e Mariaalice olhando tudo isso. Depois falei a Mariaalice que ela quando for adulta também terá que fazer estes exames. Ela me perguntou se doeu, eu disse que não.

Fiquei pensando que eu nunca tinha visto minha mãe e/ou qualquer outra mulher fazendo este tipo de procedimentos.

Daí me peguei pensando em quantas vaginas eu já tinha visto na vida. E quantas picas eu já vi. É desproporcional. Eu conto nos dedos quantas vaginas eu vi e sei o nome de todas. Já quanto às picas, impossível contar. Seguramente perderia as contas. A vida toda vi a pica de meu pai. Ele sempre andava pelado, assim uma coisa tão comum quanto fumar maconha, ler um livro e cagar de porta aberta. Este era meu pai.

Para além de meu pai, já vi muitas picas com as quais toquei, chupei, gozei, brochei, etc. Algumas só vi, outras nem senti, enfim, uma infinidade de sabores e sentidos, formas e texturas. Experiências. Eu tenho minhas preferências, inclusive. Conheço bastante pica, pero pouco conheço de vagina. A minha conheço muito bem. O caso é que a gente se re-conhece muito no outro e também no semelhante. A falta de referência é uma lacuna. Um buraco cósmico, como disse meu amigo Cazinho.

Eu não cresci vendo filmes pornográficos ou revistas do tipo. Entre minhas amigas não fazíamos masturbações coletivas ou exibíamos nossas vaginas. Minha mãe não andava pelada dentro de casa e não cagava de porta aberta.

É estranho que eu como mulher, conheça mais de pica do que vagina. Que eu conheça as diversidades das picas que há, pero tenho pouquíssimas imagens de vaginas, de quão diversas elas são.

– Cazinho, ode a pica, o A é com crase?

– Sim. Pica é um substantivo feminino. Daqui a pouco inventam substantivo neutro também e daí é Pique.

– kkkk. Que horror. Pique não me apetece, pica sim. Agora pica com pique é show!

– Hahahahahahaha!

É querido diário, a desgraça é que eu acordei pensando naquela pica. Amor de pica, amor que fica. Mas ele não teve pique, não ficou. Tem que ter muito amor na manha pra endurecer sem perder a ternura. It’s revolution baby.

Floripa, 20 de novembro de 20

13h04

2 comentários em “Amor de pica ou Ode À pica”

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