Sou mãe de uma geração de mães que têm algum espaço e voz para gritar: estamos exaustas, cansadas, sobrecarregadas. Não somos heroínas. 

Sou mãe de uma geração de mães que produz – além de leite e ser humano, sobre o que é ser mãe, qual mãe queremos ser e qual mãe precisamos ser. 

Semana passada assisti a minissérie Maid (netflix) e isso ativou alguns gatilhos em mim. 

Tenho uma mãe bipolar e borderline, que por muitos anos foi dependente química. E isso foi muito ruim para nossa relação e ainda hoje é. 

Não poder ter ajuda da mãe é muito difícil quando se é mãe. 

Lembrei de cenas da minha infância. Lembrei que quando meus pais eram casados, nossa casa estava sempre cheia de poetas e sambistas, mas depois que meus pais se separaram, a casa ficou vazia. Só havia minha mãe com seus filhos. Meu pai foi embora e os amigos nunca vieram. As tias e os tios nunca apareceram. 

Hoje me dei conta que minha mãe NUNCA TEVE REDE DE APOIO. 

E que seu único apoio foram drogas e sexo, porque isso nunca falta. 

Hoje me dei conta que nunca apareceu ninguém lá em casa para conversar com minha mãe e ela estava em depressão, sozinha com 5 filhos pequenos para cuidar. 

Que nunca houve uma pessoa que levasse a gente na escola, buscasse a gente na escola, nos levasse a passear. 

Era impossível para minha mãe trabalhar e estudar com 5 filhos pequenos. 

Não existia internet e nem mesmo celular. 

A solidão era muito maior. Hoje, faço parte de uma geração de mães que sabe pautar sobre essa solidão, sobre a necessidade de políticas públicas voltadas para as mães, sobre a urgência de rede de apoio. 

Apesar de tudo, eu sempre tive uma amiga ou outra para me acolher, me abraçar, me emprestar uma grana, me oferecer sua casa, me ajudar quando eu estava com minha filha. 

Apesar de tudo, eu consegui estabelecer nas minhas relações alguma rede de apoio, ainda que virtual. 

Apesar de tudo, eu consegui publicar 2 livros cujo o tema principal deles é a maternidade. 

Apesar de tudo, eu consigo apoiar e ser apoiada por outras mães.

E hoje eu sei que minha mãe e sua geração de mãe, nunca teve isso. Nunca tiveram sequer espaços de diálogo sobre essas questões que atravessam as mães. 

Minha filha vai completar 9 anos, ou seja, tem 9 anos que sou mãe e ainda não consigo falar de outra coisa. É como canta Marina Peralta: até tentei falar de outro assunto, temi não conseguir e agora eu me pergunto: quantas mães guardaram seus dons na gaveta?

Eu sei que minha mãe foi uma que nunca conseguiu potencializar suas potências. Eu sei que minha mãe não é um caso isolado, porque eu vejo as mães de minhas amigas que são mães. 

Eu disse que minha mãe é bipolar e borderline. Eu conheço várias mães com diagnósticos parecidos. Mas sabe quanto pais eu conheço com algum diagnóstico do tipo? NENHUM. 

Hoje pela primeira vez entendi que sofri e sofro abusos psicológico do pai da minha filha. 

Hoje como historiadora consigo localizar muito bem porque nós mães sempre temos um diagnóstico enquanto os homens têm grana e liberdade. 

Por isso, hoje faço o exercício de entender nossas mães porque sei que é um caminho para eu me entender. 

Maíra Castanheiro, e é por isso que faço questão de assinar com o nome de minha mãe, nunca do meu pai, apesar de sempre tê-lo tido como meu amor e meu herói, hoje eu sei o quão foi fácil ele ser herói e o quão mínimo isso foi a custa da máxima maternidade da minha mãe.

 Florianópolis, 15 de outubro

16h54

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5 comentários em “As nossas mães”

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    Margareth Castanheiro de Moraes

    Por isso, como mãe pertencente a essa geração de mães que nunca tiveram essa rede de apoio, é que eu me sinto privilegiada por estar aqui tendo a oportunidade de refletir juntamente com outras mães, graças a sua geração de mães conectada ainda que virtualmente. Mães que através do bom uso das redes sociais, se ajudam, se apoiam e trocam experiências e vivências muito suas. É a chance de evoluir o sentimento, abolir a culpa, a vergonha, o remorso e todas essas coisas que permaneceram em mim, em nós e se não cuidarmos, se não nos limparmos, vamos permanecer doentes e adoecendo as pessoas a nossa volta. Então, que bom poder se beneficiar dessa geração de consciência em curso de desconstrução.

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    Nossa! Tenho feito essa reflexão sobre a solidão da minha mãe. Entendendo tanta coisa agora, tendo tanta clareza que até dói. Que texto amiga, que incrível.

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    Lotus (nome fictício por precaução)

    Sou mãe, meu filho tem apenas 6 meses. Sou diagnósticada como borderline desde os meus 20 anos (tenho 25 hoje).
    Ter esse diagnóstico não é fácil, você sempre vai ser taxada como doente, paranóica, explosiva e por aí vai. Mesmo sendo horrível ter esse rótulo, saber que sempre terei que conviver com ele, todas as minhas crises e explosões nunca foram “do nada” ou “sem motivo” (mesmo que falem ao contrário, eu sei que não são do nada). Podem sempre ter sido reações desproporcionais com o momento, mas sempre fruto do acúmulo de violências diárias que uma mulher preta sofre. Coincidência, ou não, meu diagnóstico veio após seis meses de um estupro que sofri. Nao acho que seja coincidência que 98% de pessoas diagnosticadas como bordeline sejam mulheres. Nada me tira da cabeça que isso é mais uma doença para justificar a explosão de mulheres que estão cansadas e frustradas com a realidade cruel que nos é imposta. Hoje meus “surtos” diminuíram, mas minha exaustão é cada vez maior. Não acho que esteja melhor, ou que os remédios estejam milagrosamente fazendo efeito. Acho que hoje aguento muito mais, por proteção ao meu filho. Por saber que eu em crise fico exposta, e eu em crise com meu filho de 6 meses iria expor ele. Não sei até quando essa “melhora” vai continuar. Mãe solo, mesmo com rede de apoio, não é fácil. Obrigada pelos seus textos, eles são um aconchego durante as mamadas e sonecas do meu filho. A maconha é o que sempre me ajudou, mas morro de medo pois o pai do meu filho se acha no direito de ser contra que eu consuma. Sei que a sociedade ideal para nós, está longe, mas o nosso movimento hoje irá acolher muitas mães daqui 5/10 anos.

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