Cara amiga Bárbara Pessoa, não gosto de me indispor com minhas amigas, principalmente publicamente. Mas, como o debate é público e eu e outras mães amigas nossas nos sentimos incomodadas com o tal meme “Meu maior presente no dia das crianças é não ter uma criança pra cuidar” compartilhado nas redes sociais e que te levou a fazer um podcast de 40 minutos sobre o assunto, venho trazer meus incômodos, sobre o meme e seu podcast. 

Vivemos numa sociedade que há mais de 5 mil anos explora as mulheres por elas terem vagina e por serem reprodutoras. Isso é o patriarcado. Então, quando dizemos que meu maior presente no dia das crianças é não ter uma pra não cuidar, não estamos falando do direito das mulheres não ter filhos. Não estamos falando de mulheres que tem como projeto a não maternidade. 

Veja bem, ninguém é obrigado a ser mãe. E nós, feministas, inclusive nós mães feministas, lutamos por isso, para acabar com a maternidade compulsória. Por que? Porque somos mães arrependidas? Porque depois de termos um filho não queremos ter outro pelo trabalhão que dá? Não. Porque lutamos por uma maternidade que seja um espaço de ESCOLHA QUE NOS ACOLHA. 

Apesar da maternidade sempre ter existido, todos nós precisamos de uma mãe para vir a este mundo, o debate da maternidade é muito novo. SOMENTE AGORA, no século XXI, com advento da internet, que nós mães estamos trazendo a maternidade real, sem romantizações e gritando para o mundo o quanto estamos EXAUSTAS E SOBRECARREGADAS.  

Sabe por que existe o livro, a página no instagram e muitas falas intituladas de Mães arrependidas? Porque essas mães não estão dando conta e estão surtando e daí se arrepender de ser mãe passa a ser óbvio. 

Tenho uma amiga que é mãe solo. Ela trabalha num restaurante e precisa estar das 11h00 às 20h00 no trabalho. A creche do filho funciona das 13h30 às 17h30. O horário do transporte público é pior ainda. A conta não fecha. Sabe qual malabarismo essa mãe precisa fazer pra conseguir trabalhar? 

As frases podem ter sim muitas interpretações. Mas, numa prova de português há a resposta certa e há a resposta errada. E por isso digo que sua interpretação é errada e desonesta. 

A frase motivadora de toda esta polêmica: “Meu maior presente no dia das crianças é não ter uma criança pra cuidar” não é direcionada às pessoas que escolhem e não querem ter filhos. “Que legal, escolhi não ter filhos, não tenho que cuidar de nenhuma criança, que presente massa que estou me dando”. Não! Essa frase revela que Maternidade e Infância mais uma vez está na conta das mães.

“Não vai ser a broderagem que vai dar conta do problema estrutural que é a falta de rede de apoio das mães”. Olha, realmente não vai ser a broderagem, a amizade, que vai dar conta disso, ela nunca deu. Tanto não dá que as mães estão exaustas e muitas vezes as crianças abandonadas. Mas, vamos ficar de braços cruzados esperando o Estado resolver isso? Vamos ficar fazendo podcast justificando que “Meu maior presente no dia das crianças é não ter uma criança pra cuidar”?

Mais vale um podcast falando da importância da rede de apoio às mães e do cuidado da infância. Por mais que pareça que falamos muito disso, ainda não é suficiente. E este debate não pode ficar só na conta das mães como tem sido. São as mães que estão pautando maternidade e infância, e elas fazem isso mesmo sem rede de apoio. 

Não vai ser a amizade que vai dar conta de um problema estrutural. Mas, são as amizades que abandonam a mulher quando se torna mãe. É muito mais fácil dizer que a mãe escolheu se fechar no seu mundo de mãe do que oferecer apoio real à mãe. Botar a culpa na mãe, todo mundo faz isso há 5 mil anos, agora assumir a responsabilidade, quem tem coragem? 

Quem quer mesmo usar um pouco do seu privilégio de tempo para apoiar uma mãe? Se eu posso num feriado ficar o dia inteiro vendo netflix enquanto aquela minha amiga mãe tá lá entre mamadas, fraldas, trabalhos, papinhas e mal tem tempo para um papo comigo. 

Sempre que a gente fala de um lugar que a gente não conhece, nosso cuidado deve ser dobrado. Senão, desonesto seremos. Talvez, se nossas amigas e amigos, familiares, se toda a sociedade, entendessem que MATERNIDADE E INFÂNCIA  é uma questão de todos nós, tivéssemos menos mães arrependidas. Qual o problema de ser uma mãe arrependida? Nenhum, qualquer mãe pode facilmente se arrepender, mas vale ressaltar que seu arrependimento mora justo nesta falta de rede de apoio, na solidão materna. Na exaustão e na sobrecarga mental, física, que nunca acaba. 

Portanto, se você não tem uma criança para cuidar, saiba fazer do seu privilégio de tempo para ser empática com as mães e as crianças, que são as categorias mais vulneráveis da nossa sociedade. Porque tempo para fazer podcast pra dizer que mães foram desonestas na interpretação, não há nada mais desonesto que isso e demonstra muita falta de empatia. Muitas mães nem vão ter tempo pra ouvir e responder a este podcast, porque TEMPO é algo que as mães não tem. 

E você? Já ofereceu um pouco do seu tempo para uma mãe? Já chamou uma mãe para trocar ideia? Pode parecer que ela está isolada no mundo dela de mãe realizando seu projeto e não precisa de você e que lhe seja muito confortável deixá-la quieta já que é uma escolha dela. Acontece minha cara, que não é uma escolha. É UMA CONSEQUÊNCIA DO CANSAÇO, DA SOLIDÃO E DA TOTAL FALTA DE COMPREENSÃO E DÓI MAIS AINDA QUANDO VEM DE AMIGAS FEMINISTAS. 

Dito isso, concluo que tal meme compartilhado nas redes e teu podcast fere muito as mães e as crianças, vocês não ouvem nossos gritos, nossos choros, nossos cansaços. Vocês não nos ouvem. Não somos acolhidas por vocês. E por isso que muitas vezes nos fechamos na solidão, pois é no mínimo triste e humilhante, a gente não ter ajuda, ter que pedir ajuda, pedir pra ser vista e ouvida, querer existir para além de nossas divinas tetas. 

Nossa maior dor não vem do parto, até porque esta dor rima sim com amor. Nossa maior dor vem de saber que temos que lidar com tudo sozinha. Somos nós que sozinhas criamos e movemos o mundo. E você, não sabe o quanto dói e o quanto nos pesa essa conta. 

Mas, essa conta vocês não-mães não querem dividir. Não foi uma escolha de vocês, não é mesmo? 

Concluo, que com muita tristeza e incômodo li este meme e ouvi teu podcast. O que nós, mães, mais precisamos é sim de broderagem, mas parece que pouca gente está preparado para essa conversa porque pouca gente vai querer sair do seu lugar de privilégio e assumir alguma responsabilidade. 

A gente não precisa de meme e podcast como esses. A gente precisa pautar MATERNIDADE E INFÂNCIA  de maneira honesta e ampla, dando conta de todas as subjetividades e que é um debate que diz res-peito  a toda sociedade. Cada uma com sua onda que quando se junta é para sol mar. 

Mas, tal meme e tal podcast é só mais um muro que nos separa e nos atravessa. 

Maíra Castanheiro

mãeconheira que está sem a filha e só por isso tem tempo de responder.

Florianópolis, 14 de outubro de 2021

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Quem tiver tempo, ouça:
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6 comentários em “Carta à Pessoa não mãe Bárbara”

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    Maíra, arrepiada com teu texto, sim é isso mesmo.
    Tua sensibilidade e categoria nessa critica foram simplesmente brilhantes.
    Por mais Maíras hoje e sempre ❤

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  2. Avatar

    Sou filho e não tenho filhos, mas sou filho de uma Mãe que assim como muitas lutam para sobreviver.
    Hoje minha mãe distante em outro plano, tua força e coragem me faz refletir os ensinamentos que recebi do amor e coragem através da força de existir, mesmo com a distância de espaço e tempo. Sinto o abraço do espírito da minha rainha quando vejo uma mãe resistir e EXISTIR.

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  3. Avatar

    Não concordo com o texto da Barbara, mas defendo que sim, esse B.O não é meu, que escolhi pela não maternidade. Não concordo que criança seja da responsabilidade de todos, nem da história da aldeia toda pra educar uma criança blabla… até pq essa aldeia será de mulheres né? mais mulheres oprimidas na conta… ainda sendo chamada pra ser rede de apoio (?) eu passo, obrigada. no dia que essa rede de apoio for responsa de homens e mulheres posso repensar. Mas é claro que o dia das crianças não é nem de longe a melhor data para se falar sobre isso.

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    1. aldeiadosaber

      Quando falamos em rede de apoio e de aldeia, estamos falando de todos, todas e todes. Estamos falando principalmente de políticas públicas voltadas para as pessoas que tem filhos! Como eu exemplifiquei no texto:é preciso acertar os ponteiros entre escola, trabalho e transporte público. O mercado de trabalho não está nem ai para as pessoas que tem filhos e qndo falamos dessas pessoas quase sempre é a mãe mesmo!

      2+

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