Ano passado me separei. Toda separação tem suas dores, suas mágoas, seus tempos para curar e superar. Superei, me encontrei e voltei a olhar para mim, para os meus prazeres, interesses, dores e alegrias. Estava vivendo intensamente em mim. Consegui, no meio desse turbilhão de emoções, com altos e baixos, proteger minha filha. Sem esconder minhas tristezas, os fatos, mas tudo com amor e com cuidado. Ela entendeu e vivenciou essa separação melhor do que eu, com amor e tranquilidade.

Mas, não era tão simples assim, ir cada um para o seu lado. Temos uma filha, na tentativa de manter ela próxima dos dois, fizemos planos de permanecer juntos na mesma casa por um tempo, para cada um poder organizar a própria vida e seguir em frente. O principal plano era sair da cidade onde morávamos (Lençóis – Chapada Diamantina), buscar melhores oportunidades de trabalho para os dois. Planos feitos, desfeitos e refeitos, seguimos com a ideia e viemos para Praia do Forte, Bahia.

Cheguei depois do carnaval. Rapidamente fui agilizar a vida nova. Fazer contatos, adaptação da minha filha na nova escola, conhecer esse novo espaço, adaptar-se. Saudade gritando no peito, saudade saltando dos olhos da minha menina. Contatos em andamento, já pensando como seria a organização da vida quando eu começasse meu novo trabalho: filha, estágio, emprego. Frio na barriga mas, também muita esperança.

Resolvi aproveitar o quanto pudesse também da natureza que me cerca nesse lindo lugar. Pedalávamos todos os dias, nadávamos também. Aproveitando que ainda tinha sol, que os dias ainda eram de verão, mesmo as águas de março dando sinais de sua chegada próxima.

Sentia muito forte a solidão, o fato de nós ainda não ter amigos para conversar e para ela brincar. Minha filha tem 8 anos, por mais que eu brinque com ela, estar com outras crianças é algo importante e saudável na sua idade. E nesse meio tempo, o primeiro caso de Covid-19 foi anunciado no Brasil e depois em Salvador. Dia 13 de março iniciou nossa quarentena.

Eu, até então, estava no apartamento alugado pelos pais do meu ex companheiro em Praia do Forte, praticamente sozinha o tempo todo. Ficaria, como havíamos combinado, até eu conseguir encontrar um trabalho e alugar uma casa. Com o número de casos crescendo em Salvador o mais seguro era eles virem para cá, pois já são idosos. Primeira semana de quarentena, minha filha e o avô ficaram doentes. Febre sem saber o motivo, medo de sair e pegar coisa pior. Medo de ficar em casa. Medo. Moiza nunca ficou quatro dias com febre sem outros sintomas. O avô dela ficou ainda pior e o pai da minha filha, que estava dando um tempo em Salvador, veio também para ajudar a cuidar dos pais dele. E desde então estamos todos juntos num apartamento pequeno.

Convivemos bem, muito bem. Me dou bem com todos, mas essa situação não é fácil para nenhum de nós e as arestas da convivência não é algo simples de lidar, especialmente para mim.

Para nós adultos é difícil, para uma criança que está vivenciando um turbilhão de emoções e mudanças em sua vida em um curto espaço de tempo é ainda pior. Já não é fácil para quem está no seu canto. Ela, apesar de tudo, está aqui, vivendo essa mudança até que muito bem e de forma bem compreensiva. Mas, sendo uma criança, não posso esperar que seja assim sempre, embora eu gostaria que fosse. Vivemos altos e baixos. As vezes ela está feliz, outras vezes revoltada, algumas vezes vejo tristeza.

Na nossa rotina normal já existiam limites e um certo ritmo. Não muito marcado, porque não sou muito metódica. Na situação atual, algumas coisas que já estão na nossa rotina natural, podem até ser flexibilizadas, mas não mudadas totalmente. Outras, não tem como manter igual, não há somente nosso ritmo aqui. São ritmos que se misturam e todos precisam se adaptar. Outras se tornaram extremamente caóticas.

Quando eu li mais sobre ritmo na visão da Pedagogia Waldorf, percebi que ter limites bem estabelecidos e algum ritmo também ajuda na mudança de ambiente/rotina. A criança sabe os limites do espaço e consegue viver dentro desse limite. Não que ela não vá tentar quebrar essa barreira. Aqui, mesmo sabendo que os dias de ver TV são sábado e domingo, todo os dias da semana ela pede para eu ceder um pouquinho, tenta negociar uma troca, ou simplesmente conta os dias que faltam para chegar o grande dia, que ela chama de “meu dia”! Ela insiste muito, especialmente quando ela quer mais atenção, ou quando está com algum incômodo que não sabe comunicar. E é aí, que para mim entra outras análises para além da rotina estabelecida, ritmos e limites. Aqui entra, para mim, a educação emocional, minha e dela, e como ferramenta para isso eu venho utilizado a Comunicação-Não-Violenta.

Moiza, aos 8 anos de idade já sabe identificar muitos de seus sentimentos, porém não todos. E muitas vezes ela pede nossa atenção ainda que nós lhe demos muita atenção ao longo do dia. Mas, ela quer comunicar algo que está dentro, incomodando, algo que ela não tem maturidade de falar e talvez nem mesmo de confirmar quando eu pergunto. Percebo que ela, quando está assim, gostaria de ver o mesmo nos outros, como para se ver no espelho. Embora eu pesquise e pratique em casa a educação emocional com minha filha, o processo de aprendizado começa em mim, porque não fui educada dentro dessa perspectiva e no meu caso, por exemplo, ainda não sei expressar adequadamente minhas emoções e tenho o desejo íntimo que as pessoas adivinhem, afinal, tudo é tão óbvio! Só que não. Faz parte desse aprendizado identificar os sentimentos, as necessidades e comunicá-las.

Ela é uma anteninha, e embora não consiga se expressar sempre, percebe o que se passa comigo e pergunta: Tá triste mãe? Tá com raiva? Por que você quer chorar? Ela me vê, ela capta na micro-alteração da vibração da minha voz o meu sentimento mais profundo. As vezes ela reage colaborando, me ajudando. As vezes a reação é de espelho, expressando como uma criança o que eu estou sentindo como adulta. Eu não grito, nem choro, nem faço birra. Porém é assim que as crianças expressam as emoções. Outras vezes, não consigo ver aquilo em mim, talvez esteja em outra pessoa da casa, mas não posso afirmar isso. Como eu sou a referência de segurança para externar suas frustrações, eu sinto que as vezes ela quer provocar em mim o que ela está sentindo, para que consiga se ver e compreender seus sentimentos. Isso é muito desafiador, por não ter certeza de ser o sentimento dela, ou de outra pessoa ou até mesmo algo meu, que não consegui identificar até o momento.

Ter um certo ritmo me ajuda no sentido de que me alerta para a proximidade de uma situação que para ela muitas vezes é desafiadora, por exemplo, quando sente fome ou sono. Se eu consigo me antecipar, passamos por isso com mais tranquilidade, parece óbvio e normalmente crianças e adultos são mais intolerantes quando alguma necessidade básica não está sendo atendida. Entretanto, ter essa clareza de que ao contrário do adulto, a criança não consegue controlar sua irritação nesses momentos, fica mais fácil não esperar por compreensão do pequeno quando o almoço atrasa. Talvez isso não resolva a questão do almoço, pode atrasar por diversos motivos, e não quer dizer que vamos correr atrás desesperados para evitar o atraso sempre. Porém, para mim muda um pouco a visão da situação. Continua sendo desafiadora mas, consigo entender os motivos e ajudar ela a superar isso com uma outra postura.

Tudo isso não é simples, demanda tempo até a gente olhar e identificar as nossas emoções e as emoções dos nossos filhos. Aceitar e ser compreensivo com o modo como eles se afetam com coisas que para nós as vezes não são importantes. Nós, não fomos educados assim e estamos cansados e cheios de coisas para resolver. E escrever sobre isso me dá uma certa insegurança, porque não quero passar a imagem de alguém que está em conexão total com os próprios sentimentos e os sentimentos da criança e consegue ser compreensiva o tempo todo e está vivendo uma quarentena de paz e elevação espiritual. Definitivamente, não. Estou muito longe disso. Aqui entra o que aprendi com a Comunicação Não Violenta. O que para mim torna tudo isso tão desafiador quanto bonito de viver, pela riqueza de aprendizado que traz.

Na CNV uma das primeiras coisas que fizeram sentido para mim é que eu não posso mudar o outro. Não é um modo de se comunicar para fazer alguém fazer o que você gostaria que fizesse. Pelo contrário, é sim um modo de comunicação que valoriza a vida que existe em você e no outro. Quando falamos de vida, falamos do que nos faz ser reconhecidos como organismos vivos: nossos sentimentos. Esses são a ponta do iceberg, ou a seta da bússola que aponta para o norte que são as nossas necessidades. Juntos, sentimentos e necessidades é que orientam nossas ações, qualquer uma delas, boas ou ruins.

A primeira coisa que aprendi, é que se não posso mudar o outro e o modo como o outro reage, só posso mudar a forma como eu vejo determinada situação. E para ver as situações de uma forma diferente é necessário ver o que essa situação mobiliza em mim. Eu aprendi que a primeira coisa a se fazer é ir para dentro. Verificar o que eu estou sentindo e o que necessito. Acolher isso, não se culpar e não culpar o outro. Reconhecer, sentir e acolher.

O efeito disso nas crianças é incrível. Toda vez que eu vejo meu sentimento e acolho, sem falar nada para minha filha, internamente já mudei a minha postura, assim observo ela lentamente baixar a guarda e as coisas voltarem ao normal. Todo dia eu consigo isso? Não! Porém, cada vez que isso acontece é tão lindo de se ver que até me emociono.

Muitas vezes estamos exaustos. No meu caso, percebo que, fico tentando apagar o fogo antes dele começar. Isso é muito cansativo, pois nos coloca em alerta constante. Então passo os dias criando situações, atividades, almoço e janta, e outras coisas para evitar uma situação estressante para mim e para ela. E muitas vezes quando ela começa a apresentar o comportamento indesejado, é natural que minha primeira reação seja: cara, eu fiz de tudo e você está fazendo isso. E aí percebo que espero recompensa pelo meu grande esforço de um dia brincando, cozinhando, tentando ser uma mãe legal. Mas, esqueço que ela está conectada com o que há de mais profundo em mim que é a mulher frustrada, que fez muitos planos e todos foram por água a baixo, que gostaria de ter uma renda nesse momento, que tem medo do que pode acontecer…etc..etc..etc…

A criança não está ligada somente ao que aparece na superfície. Isso não diminui a importância das ações diárias para ser uma mãe legal e tentar fazer com que os dias sejam saudáveis para eles e para nós mesmas. Porém, não podemos escapar dos nossos sentimentos e dos sentimentos deles. Então, voltando a CNV, a segunda coisa que aprendi (mas, ainda tenho que exercitar muito) é não culpar ninguém, muito menos a criança birrenta. Se o mau comportamento nos afeta, precisamos buscar o que estamos sentindo e necessitando, a resposta para a irritação com o comportamento da criança não está no comportamento dela, mas nos sentimentos e necessidades que estão em nós. E na grande maioria das vezes encontro em mim a necessidade de descanso, de tempo, de compreensão e de colaboração. E não há culpa do outro ou sua nisso. Somente o exercício de se ouvir, sentir e buscar formas internas ou externas de resolver isso. Talvez seja uma reorganização dos horários, talvez seja delegar algo das tarefas diárias, talvez seja se permitir ficar um dia de pernas para cima e deixar as crianças comerem os restos que tem na geladeira. Cada um, identificando onde aperta seu calcanhar, saberá encontrar o melhor calçado.

A criança muitas vezes precisa apenas que o adulto encontre esse ponto de equilíbrio interno. Não que esse adulto vai se transformar num monge zen budista todo trabalhado na paciência e elevação espiritual. Longe disso. O adulto que busca entender seus próprios sentimentos sinaliza para a criança que sentir é bom, sentir faz parte. Que não existe sentimento inadequado, que sentimos raiva, medo, tristeza porque estamos vivos. E também sentimos amor, alegria, paz. E não existem sentimentos melhores ou piores. A criança que vê os adultos sentindo, se sentem livres para sentir e exercitando esse sentir conseguem encontrar o caminho para suas necessidades. Sabem que está tudo bem, estão seguras. Eu posso ser, eu posso sentir, eu sou amado não importa qual sentimento eu expresse, vai passar.

Para mim CNV é potência, pois me coloca como protagonista na minha vida. Eu ainda não sei atuar, ainda me vejo dependente, ainda estou aprendendo a me soltar. Contudo, cada nó desatado é uma vitória, é um passo para essa tal de liberdade que eu sinceramente não sei se é a fórmula da felicidade, mas parece ser a fórmula da paz interior!

Débora Daltro

Salvador/Bahia, 01 de Maio de 2020

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