Querido diário,

São 09h45 e estou acordada desde as 07h00. Nem bebi água ainda e tá errado isso. Mariaalice ainda dorme, aliás, como têm dormido essa menina. Eu tô deixando… com este tempo também! Faz um século que chove aqui na ilha e pra mim está insuportável. Sei que precisamos de chuva etc. e tal, mas tá demais, não pára um segundo, aquela garoa, aquela chuvinha, fica tudo o tempo todo molhado e úmido. Nada seca, mofos, e etecetera. Eu não gosto.

Tô aqui com fome e com vontade chorar. Nem choro e nem como, que desgraça.
Como de costume, já falei com Leila hoje. Conversei com uma desconhecida pelo direct do instagram. Ela gostou e se identificou com meus textos: falamos de machismo beleza filhos etc., ela também não sabe resolver a conta.

Aliás, tá foda demais dar conta das contas. Muito trabalho e pouca grana. Mas, no momento, apesar das dívidas e de muito trabalho e pouca grana, quanto a isso, eu estou mais tranquila. Eu só queria ficar de boas produzindo no meu canto. De certa forma estou de boa produzindo no meu canto, mas sinto falta de um amor.

Sábado eu me tranquei no banheiro pra chorar sem Mariaalice me ver e em seguida fui cortar cebola, Mariaalice sabe que as cebolas ardem os olhos e nos fazem chorar.

Agora pela manhã, enquanto ela dorme e ainda chove, eu quase chorei, mas a lágrima chegou na pálpebra e não desceu.

Faz tempo que estou precisando chorar, não tá rolando. Hoje acordei pensando em tudo que preciso aceitar. Não é uma aceitação para me acomodar, mas uma aceitação para me respeitar e ficar bem comigo mesma, com o que sou, com o que posso ser, com a minha história e com as minhas condições.

Pra mim é difícil assumir muitas coisas: difícil assumir que estou triste e isso toma muito minha mente e coração e atrapalha na minha produção intelectual. Perdi o prazo de uma disciplina que eu super gostava.

Difícil pra mim assumir que quando estou com Mariaalice não consigo produzir tanto quanto gostaria e deveria. Foram nove meses que ficamos sem nos ver nessa pandemia. Tem três semanas que ela chegou e estou muito apaixonada por ela e quase não conseguindo trabalhar. Eu quero passar o dia abraçando-a, beijando-a, penteando seus cabelos, dançando e cantando com ela. Até que eu digo, filha preciso trabalhar. Ela super entende e vai pro sofá ler. Eu não aguento e fico horas olhando e admirando. O tempo está passando e putaquepariu, os prazos!

Produzir intelectualmente, pra mim, que alinha sempre o coração à razão, é foda justo quando num curto espaço de tempo eu me apaixonei, me decepcionei e tá doendo pra caralhooooooooooo! Pronto, falei: tá doendo pra caralho! E quando ainda tem a filha e tudo isso que envolve. Quando ainda tem a mãe e tudo isso que envolve. Muita coisa na cabeça e no coração.

Amigas me mandaram fazer terapia. Nada contra, até recomendo. Eu não vou falar hoje sobre porque é muito complexo isso. Eu só quero ficar de boas no meu canto produzindo e de certa forma estou e estou exatamente como quero: uma casinha pequena no mato no alto da montanha com minha filha minhas drogas meus livros e nada mais. Sinto falta dos meus amigos, ah se sinto! Putaquepariu como sinto falta da minha galera! E sinto falta de um amor. Falando em amigos e amor penso logo em Salvador. Todas as vezes que algum cara foi de fato escroto comigo e eu de fato sofri, não estou falando de pequenos lances, pequenas decepções e pequenas causas, risos, eu estava fora de Salvador. Curioso isso, mas acho que consigo entender o porquê. Na minha Salvador eu sempre fui muito nutrida de afetos e amigos e quem tem amigos tem tudo. E é só por isso que todos os dias penso na minha Bahia. É estranho meu rolê com a Bahia, sempre saio de lá pra construir um caminho pra voltar e ficar. Quem sabe um dia eu chego lá. Porque a Bahia nunca sai do meu pensamento embora eu já me sinta tão pedra nessa ilha.

Hoje acordei triste com vontade chorar. Acordei irritada com essa chuva que não pára. Eu disse a Leila, que nunca mais vou sofrer por amor, que nunca mais vou passar por isso. Que eu estou aprendendo, que está doendo.

Querido diário, deixa eu confessar uma coisa: sempre quando estou triste eu penso em me internar num convento. Eu até tento ter uma vida de sexo, drogas e rock and errou, mas não é fácil e acho de verdade que tenho muita vocação para ser monja. Talvez, se eu conseguir me livrar dos desejos e dos prazeres, eu encontre a paz. Tá aí, duas coisas que nunca saem da minha cabeça: Bahia e me internar num convento. Tem que ser das Carmelitas. Acho que na Bahia tem, se pá junto tudo né?! Tô chegando lá. Enquanto isso, sigo aqui: trabalhando estudando malhando e escrevendo. Ou eu morta ou eu escrevendo. Ah, Torquato, ou a gente morto ou a gente fudendo! Torquato, te amo! Putaquepariu! Já são mais de dez da manhã, vou com muito dengo acordar Mariaalice e levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Antes que Lobo desista de mim, antes que perca os prazos das outras disciplina do mestrado. Ah, a tradução sobre o cuidado desde a perspectiva feminista e das defensoras da terra, lá da Colômbia, eu terminei, que gostoso foi traduzir este texto!

Mas é isso, caro diário, às vezes mãeconheira acorda triste se sentindo feia pobre velha. E sei que não faz muito sentido isso e que está errado pensar e se sentir assim. E que não tem nada a ver com o que sou e busco. Às vezes quero muito chorar, mas não sai. Penso que cometi muitos erros, que sempre peco por ser sincera, por ser espontânea, por ser boa, por ser entregue, etc. e tal. Mas tá errado achar que isso é um erro. O lance, é como disse minha amiga, não ser sincera, entregue, espontânea, com o vento, ou seja, com quem não está preparado para essa conversa. O lance é saber já de cara quem mostra tua cara.

Às vezes eu penso em desistir total do amor, mas é que eu apenas sinto muito e tá tudo bem, apenas aprenda Maíra, de uma vez por todas o que é amor.

Ah, ele me mandou ler Platão, putaquepariu. Tô há três anos debruçada em Sócrates/Platão, pra uma desgraça dessa que comeu meio Banquete e acha que digeriu o suficiente, me mandar ler. Eu até pensei em responder, mas desta vez fiquei quieta e só apaguei a conversa e excluí seu número da minha agenda telefônica. E pensei: perdoai pai, eles não sabem o que fazem.

Querido diário, preciso muito beber água e começar o dia aqui. E Leila, acredite em mim, nunca mais isso vai me acontecer. É sol que me falta!

Florianópolis, 7 de dezembro de 20

10h27 

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