Querido diário,

acordei mais um dia com saudades. Engoli. Engoli saudades e café. O foda é que eu ainda tenho fé: <mas a fé é feito ferro dura como cobre esperança é a última que morre>.

Tá um tímido sol lá fora e eu deveria aproveitar o sal mas tô afim de ficar em casa de boas e escre-ver.

Escre-ver que ainda o sinto muito no meu coração e mente. Que eu sinto saudades: <se fosse só sentir saudades, mas tem sempre algo mais, seja como for é uma dor que dói no peito>.

Eu tenho muito dificuldades de aceitar as paradas. Sou teimosa. Não me conformo. Eu fui à casa dele e ele não quis conversar e me chamou de invasiva. Ele, sem me olhar nos olhos, se trancou no banheiro e eu fui embora. Lhe deixei um beck e um bilhete. Isso foi 23 de outubro de 2020. Hoje são 10 de janeiro de 2021. Desde então a gente não se vê. Nos falamos algumas vezes: um dizendo que ama o outro e que quer construir irmandade, amizade, qualquer coisa para eternidade. Mas, logo na mensagem seguinte, o tudo vira nada e desde então estou bloqueada. Eu ainda tentei algum “oi, tudo bem?” no natal mas, ele desligou o telefone na minha cara. Ontem foi meu aniversário e hoje é aniversário de sua filha. Mas, nada eu tenho a ver com tudo isso.

Coloco minha playlist: Otto, Lobão e Marisa Monte, traduzem todo meu sentir agora.

Mariaalice ainda dorme. Pego o celular para me distrair. Uma influencer que já tá na casa dos trinta, relata em sua conta do instagram que mora na mesma casa desde que nasceu e pela primeira vez vai morar sozinha e pede ajuda pra geral pra fazer listinha do que não pode faltar na sua nova casinha onde ela vai morar sozinha.

<É ESSA JUVENTUDE QUE QUER TOMAR O PODER>?

É Caetano, nunca foi fácil. Veja bem, a moça dá cursos sobre relacionamentos e ainda vive com os pais. Eu até pensei em comentar e abrir uma conversa séria sobre relações e autonomia e sair da casa dos pais etc., mas, geral não está preparado pra essa conversa e já há muito que não caio mais em treta de internet.

– Rata, então, nossos amigos como C., D., W., demoraram de sair das casas dos pais ou ainda vivem com os pais… o que você acha?

– Acho que não saem de suas zonas de confortos, não enfrentam a escassez e a imprevisibilidade.

<É ESSA JUVENTUDE QUE QUER TOMAR O PODER>?

Pior que sim, tanto do lado da esquerda quanto da direita. Tão influenciando e dando cursos, tirando seus lucros, prometendo ajudar o próximo e porque merecem receber pelo seu trabalho. Estão até se candidatando para vereadores.

Putaquepariu! Eu não finjo ter paciência e por isso não dou curso de Escrita Criativa Curativa. Eu não acredito nos cursos e m-eu caráter e princípios não me permitem fazer/dar. E acho muito engraçado mesmo exibir tanto a bunda para falar de Parrésia. E acho muito medíocre forjar tanto drama pra se sentir digna ou para que sua poesia tenha algum sentido.

Bom, mas seguindo o conselho da minha amiga, deixa lá… deixando tudo lá. Lavo a louça e preparo o café da manhã pensando em 2020. Das coisas boas e ruins. No fim, não fica nada de ruim mesmo. E isso dá uma leveza ao entender que é só o processo, que é só o tempo. Na real, sempre que alguma angústia me vem tento exercitar-me focando no presente e aceitando o tempo. Não é fácil, porque não me é fácil aceitar as paradas. Principalmente quando EU acredito muito em algo/alguém no que sinto/penso.

Eu ando pensando investigando sobre isso. No que EU acredito. Tô precisando muito trabalhar flexibilidade, força e resistência, e isso desde <corpo alma mente>. Eu tô tentando e apenas começando, dia a dia.

Ano passado eu morri: perdi no amor e no trabalho. Ainda estou sofrendo as consequências-sequelas de tudo isso. Muito difícil admitir, pra mim mesma, que fracassei no trabalho. Que o editor não curtiu meu texto e eu não dei conta. Que eu perdi numa disciplina do mestrado do qual era de meu maior interesse. E eu sei que não foi por irresponsabilidade, foi por pura necessidade. Pra pagar as contas peguei vários trampos que ocupam muito o tempo e preenchem pouco a carteira, pra minimamente dar conta das contas. Dei conta das contas: não me faltou casa luz água comida drogas internet. Ufa, consegui pagar tudo. Mas, perdi alguns trampos legais: como a disciplina do mestrado etc. E tampouco quero aqui me justificar, não faz sentido e não choro pelo leite derramado, estou apenas, para mim mesma, refletindo as condições que temos e de onde vem nossos fracassos e sucessos. E porque daí nossos olhares, que por vezes pode soar arrogante diante da falta de paciência para <ESSA JUVENTUDE QUE QUER TOMAR O PODER>.

Risos. Contém ironia, sarcasmo e principalmente antropofagia. Ah, é de fato uma arte e um devir filosófico isso de antropofagia. Há os que admiram e imitam. Como uma criança. E Aristóteles e Rudolf Steiner falam sobre. Há, os que se inspiram e criam, e isso Oswald de Andrade fala sobre.

Querido diário, desculpe tanta reflexão… na real tudo isso não passa de uma tentativa frustrada de não pesar o coração e distrair a saudade. Distraída não vencerei, querido Paulo. Aliás, eu não quero nem ganhar e nem perder por engano. Confesso que meu coração está intranquilo, a mente serena. No meu som agora toca o disco Wish you were here. No meu coração também.

Querido diário, vou aqui acender um beck ouvindo este Pink Floyd, neste domingo fresco, os amigos na varanda, a filha pintando. E eu, com muita sede de ler e escrever. Depois volto aqui para contar mais dos fatos do que dos afetos. É só porque estou um pouquinho desafetada.

Floripa, 10 de janeiro de 21

14h21

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