Querido diário,

tem que ser forte pra pedir socorro. Sábado passado, enquanto eu voltava da trilha, lagoinha do leste, descalça, acompanhando Mariaalice, eu tive altas reflexões diante do verde sincero do ver de verdade. Tinha feito muito sol e depois muita chuva e na volta a trilha tava fresca e eu no auge da onda do lsd. Coloquei cinco gotas numa pequena garrafa de água e tomamos em três pessoas pero obviamente eu tomei a maior parte.

Como já disse choveu, logo a trilha tinha bastante lama. Tivemos que caminhar com os pés na lama com muito cuidado para não afundar os pés ou escorregar. Tem que pisar devagar, de mansinho. Não caímos.

Quando terminamos a trilha, éramos 4 adultos e uma criança, já íamos nos organizar para pedirmos dois Uber’s, quando um carro pára. Quem conduz o carro é um típico manezinho pescador do sul da ilha que propõe por 40 reais nos levar até a lagoa bem de boas. Colocamos nossas máscaras e fomos ouvindo história do pescador. Várias coisas não conseguíamos entender do sotaque raiz dele. Mas, ele nos contou histórias incríveis, da passagem de Don Pedro II na ilha, do horrível nome da ilha ser Florianópolis, uma humilhação e escaldou Floriano Peixoto e eu concordei e imaginei Jorge Amado naquele caro ouvindo aquelas histórias de pescador.

Quando chegamos na lagoa tocou no rádio do carro a música de Morcheeba, Rome wasn’t built in a day, um clássico dos finais dos anos 90 que tocava muito no Disk Mtv, quem viveu sabe. Enfim, apenas pedi pro pescador aumentar o som ele ficou dando volta com a gente pela lagoa enquanto o som rolava em alto e bom som. A música acabou, descemos, eu lamacenta, praieira, descalça, louca, alegre e simpática. Comemos o suficiente e voltamos andando pra casa fumando um beck.

Durante todo o passeio sempre que eu contava uma história minha e de Mariaalice, de algo que vivemos etc. e tal, ela interrompia e dizia de forma incisiva:

– Qual é o problema?

Até que numa dessas eu respondi:

– Mariaalice não tem problema nenhum, eu apenas estou contando uma história.

– Tem problema sim, toda história tem problema.

– Hum… interessante isso. Eu estou trazendo uma história, se você vê um problema, massa, mas daí sou eu que te pergunto: qual é o problema?

– Eu não sei qual é o problema, eu sei que há problema.

– Hum… veja bem, então eu acho que o problema está em você não conseguir identificar o problema. Precisamos identificar o problema, até porque é uma lógica matemática filha, todo problema há solução, se você identifica o problema, encontra a solução.

Game over. Risos. Seguimos a trilha. Seguimos na boa vibe. E me deu saudades dele. Imaginei ele também louco descalço alegre e simpático. Final da noite ainda pedi sushi, lembrei dele mais ainda. Não aguentei, mandei um áudio.

Pensei que ele não pede ajuda embora precise. Mas enfim, pensei no quanto já pedi ajuda. Tem que ser forte pra pedir ajuda. Senão o grito não sai. Pensei em Jesus Cristo e Pedagogia da autonomia.

É certo que o sistema é mau, o capitalismo o patriarcado e tudo mais, pero isso não pode definir, por favor, não. Difícil, complexo, mas entender estes sistemas me faz caminhar mais ainda em direção à Pedagogia da Autonomia. E eu, enquanto estava louca de ácido, caminhando contra o vento sem lenço e com documento num sol de dezembro, pensei em Cristo.

De como ele foi um cara solitário e sozinho caminhou pra se encontrar e espalhar a palavra como missão. Ele carregou a própria cruz e pagou pelos seus pecados. Se cada um carregar sua própria cruz e pagar seus próprios pecados, os julgamentos não fariam sentidos, porque entenderíamos que cada um tem seu processo e sua história. Acontece que distorceram a desgraça toda e a gente tende muito a transferir nossa cruz pro outro.

<você culpa seus pais por tudo isso é um absurdo>.

Creio que nos falta de fato assumirmos nossas responsabilidades, erros, desejos, vontades. Assumir e bancar. Deixar-se errar até acertar. Aí, sobre isso lembro sempre do poema maravilhoso de Margareth Castanheiro, minha mãe:

<convém não forçar a barra / não antecipar o grito / não precipitar o verso / o acerto pode ser incerto mas o erro tem que ser exato>.

Tem que ser forte pra pedir socorro. Tem que carregar a própria cruz. Pagar os pecados. Praticar pedagogia da autonomia. Identificar os problemas.

– Eu não devia tá te mandando este áudio, mas eu só ajo com coração. Mas, uma hora sai do coração.

Eu ri e chorei neste dia. Fui em Belchior e voltei pra dizer que: este ano eu morri mas ano que vem eu não morro. Que mais uma vez pensei: nunca mais vou sofrer por amor, e ri porque eu sei que pra uma pessoa como eu, eu sei que eu sempre vou amar por toda minha vida eu vou amar.

Tô aqui num e-feito borboleta numa leveza numa beleza…

2+

2 comentários em “Este ano eu morri mas ano que vem eu não morro”

  1. Avatar

    sugestão de titulo
    uma tarde vazia em uma ilha cheia
    obs
    o pescador nao pescador era mais um ilheu com ódio do progresso ,reproduzido pelas familias oligarquicas que ainda govenam essa Isd, representado pelo florianismo .
    duvidas ?
    ainda se toma Lsd ?

    1+
    1. aldeiadosaber

      Adorei a sugestão do título! De fato o pescador era mais um ilhéu com ódio do progresso. Hahahahaha! Pedro tu es genial e te amo! E sim, ainda se toma lsd e dos bons!

      0

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