E bem no meio da ilha da magia, há um bairro que entre alguns prédios, há muitas casas grandes com jardins bonitos. Tantas árvores deixam o lugar fresco e agradável mesmo quando calor. Ainda é possível ver as montanhas e o céu muito azul.

E por várias ruas pelas quais caminhamos podemos ver riachos, córregos e até cachoeira. Por ser um lugar de muita água se chama Córrego Grande. Muito próximo a Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, é um bairro de classe média alta.

Próximo a uma praça de muitas árvores há uma bela casinha, com muro de plantas. Quando adentramos por esta casinha vemos um gracioso jardim onde sol ilumina e as árvores sombreiam e os pássaros cantam. Há alguns brinquedos de bambu e madeira próprios para as crianças desenvolverem suas potências: coragem; equilíbrio; flexibilidade; confiança.

A casinha abre logo quando o dia clareia e fecha logo quando escurece. Mas, vou contar aqui sobre as tardes nesta casinha. Após o almoço, as 13h30, os ninhos estão prontos para receber as crianças, que assim que chegam recebem o aconchego de suas professoras e vão para o ninho cuja as cores com o reflexo do sol promovem uma luz suave. As professoras os ninam com doces canções e os balançam como se estivessem todos navegando em um barco em alto mar. E feito fadas com suas saias rodadas, as professoras cantarolam, remam, dão colo, fazem cafuné, para que todas as crianças possam navegar tranquilas pelas ondas que cada uma traz consigo.

As 15h00 as cortinas se abrem e o sol ilumina toda a casinha, que está toda arrumada para o lanche. Com uma suave canção, as crianças são despertadas uma a uma e saem de seus ninhos quase como renascendo para o mundo e/ou chegando ao fim de mais uma viagem. As crianças maiores já saem do ninho fazendo acrobacias.

Em seguida, todos fazem xixi, lavam suas mãos, e sentamos a mesa. Acendemos uma vela chamando a Fada da Chaminha com uma cançãozinha aguda e agradecemos a mãe terra, ao nobre sol e a chuva pelo alimento e iniciamos nosso lanche, primeiramente sempre com dois tipos de frutas e no segundo lanche variando entre: pão, raízes, cereais, grãos…

Terminado o lanche, as crianças são limpas. Os menores trocam de fraldas. E os maiores se limpam sozinhos. E assim: descansados; alimentados e limpos, todos vão livremente brincar, cheios de energia. A diferença de idade: de 1 ano e meio a 6 anos, é um desafio que muito tem contribuído para lidarmos com as diversas necessidades e capacidades.

Ao final do dia, as crianças escutam/veem uma história que a professora conta, sempre usando gestos e objetos. Há também as rodas rítmicas, com cirandas, danças e canções, que trazem imagens da época em questão, nas quais está presente as forças elementais da natureza. Essas histórias e rodas, se repetem por dias, até que as crianças consigam apreender todo o seu sentido e consequentemente reproduzir com perfeição e naturalidade.

Existe o brincar dentro e o brincar fora. Com poucos brinquedos e estes são de madeira, lã, tecidos, ferros, palhas, algodão. Cada espaço: externo/expansão; interno/inspiração, tem sua qualidade, necessidade e capacidade. As professoras estão sempre atentas para respeitar o ritmo: inspirar/expirar; contrair/expandir, oferecendo espaços seguros para que as crianças, através do brincar livre, desenvolvam todas suas potências da forma mais natural e saudável possível.

Enquanto as crianças brincam livremente, cuidamos do jardim, da horta, cozinhamos, lavamos, secamos, limpamos, varremos, rastelamos, descascamos mandioca, costuramos, tricotamos, consertamos, estamos sempre em atividade: sempre produzindo; cuidando; criando e fazendo. E quase sempre cantando. E todos nossos movimentos trazem qualidades: os movimentos de nossos braços quando varremos;  de nossas mãos quando limpamos; de nossos pés quando rastelamos; revelam como nossos corpos dançam quando fazemos. As crianças se encantam e querem participar. E logo voltam a brincar.

A pedagogia Waldorf, criada por Rudolf Steiner, tem por princípio a Antroposofia, que é uma ciência espiritual. Segundo a antroposofia, o ser humano aprende por imitação e repetição, o que o filósofo da antiga Grécia, Aristóteles, também dizia. Portanto, os adultos e os ambientes da família e da escola, são as maiores referências para as crianças se constituírem. E pra elas se constituírem com beleza e liberdade, suas necessidades precisam ser atendidas e suas potências potencializadas.

Para que sejamos seres humanos bons, belos e justos, necessariamente temos que ter esta imagem materializada de um mundo bom, belo e justo. E o mundo começa por onde viemos e vivemos, por onde damos nossos primeiros passos, corremos, pulamos, tropeçamos, caímos, levantamos.

 E foi nesta casinha, no meio da cidade, sob o ar fresco, o céu azul, as verdejantes montanhas, as árvores sombrosas, que vim aprender a ser Jardineira. Cheguei com pouca experiência. E com muitas limitações: meia surda; sem habilidades manuais; canhota; desafinada; sem nunca ter feito uma horta.

Apesar de ser mãe, de ter feito alguns cursos livres antroposóficos, de estudar educação ativamente, de ser professora de história, ser escritora e intelectual, eu me sentia muito crua mas, mesmo assim disposta a aprender a ser Jardineira.

Cheguei em abril/outono/páscoa de 2019 nesta casinha: Espaço Educacional Lazúli, que funciona desde fevereiro de 2018. Comecei como estagiária e no inverno passei a ser auxiliar, cargo que exerço atualmente. Amanda Prado, idealizadora do Espaço Educacional Lazúli, é pedagoga e já experiente na prática pedagógica Waldorf, que logo é a base filosófica educacional espiritual do nosso jardim de infância dedicado ao primeiro setênio.

Ela e outras jardineiras/professoras que compõem nosso jardim muito têm me ensinado sobre o devir de cuidar: plantar germinar regar. Em como cuidar de nossas sementes para que elas floresçam lindamente.

Ser aprendiz de jardineira têm sido um desafio pra mim. Em maio comecei a fazer uma horta e percebi o quão potente é a vida que gera a própria vida. Ao plantar e ver seus frutos, e as minhocas geradas na horta, aprendi que as coisas para gerar frutos requer: cuidado constante; paciência e persistência. Dia a dia tirar as ervas daninhas e limpar o terreno e regar. E contar com o tempo, do qual não está sob nosso controle. Perceber as forças que cada fase lunar traz.

Como aprendiz de jardineira voltei as minhas leituras antroposóficas e participar de cursos e eventos do tipo. Eu, que sempre me movi muito pelo intelecto, Homo Sapiens, agora me via tendo que me mover pela ação, pelo fazer com as próprias mãos. Eu que sempre me senti limitada por falta de habilidades manuais,  mal sei cortar um papel com tesoura e fazer um O com copo, nunca costurei um botão e preguei um prego, me vejo que também somos Homo Faber e que sim, ainda é possível aprender a fazer. Ser aprendiz de jardineira está me trazendo diversos desafios que impulsionam para o meu autoconhecimento.

Na maioria de minhas experiências no mercado de trabalho, as minhas limitações sempre foram expoentes. Durante o ano de 2019, de Abril a Dezembro, enquanto eu estava trabalhando como auxiliar de educação infantil, vários momentos me sentia insegura, eu temia que minhas limitações fossem novamente expoentes. Mas, a cada dia eu sentia que era/é possível romper com estes limites, e que estamos sempre aptos a aprender. Quando me dei conta, eu estava fazendo uma horta, criando historinhas e musiquinhas com as crianças, fazendo uma segunda faculdade (Pedagogia/EAD), querendo aprender tricô. E tudo isso porque a casinha me acolheu e olhou para as minhas potências, para a partir daí trabalhar os meus limites. A práxis pedagógica Waldorf é essencialmente auto-educação. É perceber que o mundo a gente olha, escuta, mastiga e engole, e toma pelas mãos. A gente faz. A gente produz. E estou aprendendo muito a criar criando crianças nesta ciranda cirandinha vamos todos cirandar…plantar germinar regar para todos flore-ser!

Maíra Castanheiro

Florianópolis, 04 de janeiro de 20

05h15