Querido diário,

é tão íntimo este momento: ouvindo Pink Floyd, fumando um beck, tomando um chá: in my dark side of the word.

Além de íntimo é tão sagrado e não abro mão. Penso que com pouquíssima gente compartilhei e compartilharia algo assim, tão íntimo.

Penso que passei oito anos casada e sempre tivemos um espaço onde eu pudesse ficar sozinha trancada escrevendo fumando uns tomando chá ouvindo Pink Floyd and Chopin. Altas horas.

Tenho saudades de um dia em que acreditei possível a companhia com a harmonia. Houve harmonia antes da agonia, é certo.

– Eu não sou teu pai.

Quando ele me disse isso pelo telefone, final do verão de 2017, eu apenas respondi:

– É, tu não é mesmo não. E quer saber? Eu não vou pra essa guerra que você insiste travar. Você venceu, Mariaalice vai morar com você. Eu vou largar o mestrado. Vou vender tudo pra pagar as dívidas. E nunca mais usarei um centavo que seja seu. Não quero pensão. Mas, eu vou buscar o que é meu.

E ainda estou buscando. Dias de lutas e correndo pra buscar a glória. E todas as vezes que me senti perto de ter Mariaalice comigo, eu levei uma rasteira.

Estive na Bahia: <não vou dizer que foi ruim também não foi tão bom assim>, por dois meses. 50 dias com Mariaalice, que apesar do cansaço foi muito bom e importante.

Houveram momentos em que ela chorou muito. E eu tive que lhe contar e pela primeira vez lhe disse que não moramos juntas porque o pai conseguiu a guarda provisória anexando no processo textos deste diário.

– Não faz sentido, é muito injusto.

Disse Mariaalice sabiamente com apenas oito anos. Eu a abraçava muito no meu colo enquanto ela chorava. Me controlando pra ser força e acolhimento pra ela. Ainda que me falte força e acolhimento. Pensei, com muita raiva, o quão cruel é uma menina de 8 anos e uma mulher de 37 anos terem que segurar a barra por conta de um homem que não cura de seu ego ferido.

Tento não trazer o peso pra Mariaalice mas, cada dia que passa a leveza se torna mais insustentável.

No final das contas, quando ela voltou pra casa do pai, eu fiquei no vazio. Me senti culpada por não conseguir aproveitar tanto com ela. De a gente ter que passar por várias casas e várias situações.

Me senti cansada de estar neste rolê há tantos anos e tendo sempre que pedir ajuda, gritar socorro.

Se pedir ajuda não fosse tão humilhante e desgastante, a gente: sociedade, estaríamos melhor e nós mulheres mais protegidas e fortalecidas. Mas, a maioria só quer ajudar desde que seja para o seu bem estar e não vá lhe tirar da zona de conforto. Quando a gente não consegue abrir mão minimamente de nosso privilégio, conforto, estamos mesmo querendo uma mudança de sociedade?

Me senti muito distante de meus amigos, em muitos momentos. Em muitas realidades. De como a realidade pandêmica atinge cada um. E como a gente reproduz discursos.

Foi angustiante sentir e perceber tantas distâncias. Eu estou extremamente cansada de relação virtual, agora que constato que pouco importa o real.

Por fim, querido diário, parece tristeza mas é pobreza. Estou muito grata que estou com um trampo que curto etc e tal, mas ainda é pouco para pagar as contas e hoje seu Pedro falou que temos que conversar sobre reajuste de aluguel.

Tô aqui, como sempre sem grana, o que subtrai mais ainda a solidão, já que a socialização requer capitalização.

Pior que ainda tenho que pagar todo mês os honorários das advogadas. Desde abril de 2019. Tô pensando em desistir. Não quero mais gastar grana e energia nisso, Mariaalice já vai fazer nove anos. Essa luta é tão desigual surreal e me faz tão mal. Eu tô cansada de guerra. Cansada de inventar coisas pra conseguir grana e dar conta das contas.

E me dá uma angústia quando penso que tô perto dos 40 anos e ainda nessa situação. In crise pero take it easy.

Hoje, as 16h00, eu tomei uma microdose de cogumelo. Senti levemente uma lisergia. Como de costume, fumei alguns dedos de hulk. Passei a tarde com uma amiga conversando na varanda <só vendo a vista>, comemos macarronada com molho de tomate e abobrinha. Conversamos muito sobre aplicativos de paqueras, carinhas etc. e tal e eu lhe disse que estou sem nenhuma vontade de paquerar, de baixar aplicativo e ou fazer qualquer esforço por um carinha qualquer, e todos são, e aliás, como pontuei, eu não tenho nem dinheiro pra isso.

Ah, querido diário, sei que muita gente diria e dirá que é muita besteira minha isso de não ter grana etc. e tal, mas só quem não tem grana sabe.

– Eu não sou teu pai.

Eu me lembro sempre disso. Fui morar na rua das pedras e de lá pra cá já passei por poucas e más, que hoje eu tô até de boas. E hoje, sinto que apesar de ser grata sempre a toda a ajuda que sempre recebi pelo caminho, que preciso me fortalecer ainda mais, e sozinha, porque eu não quero mais ajuda de ninguém. E se isso significar não sair do meu lugar, assim será. Mas, qualquer movimento tem que ser só por minha conta.

Hoje, eu vejo a solidão como a única condição e solução. Enquanto houver Pink Floyd, beck, lisergia, natureza, eu me faço minha companhia sem agonia, um pouco de alegria e melancolia.

Florianópolis, 12 de setembro de 2021

23h30

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1 comentário em “Eu não sou teu pai”

  1. Avatar

    Ler os seus textos me faz escutar o quanto esse sistema opressor e gados manipulados condenam o nosso merecimento de prazer, dificultando e distanciando as possibilidades de nossa existência.

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