Querido diário,

ontem, quando terminei de escrever aqui e publiquei, eu finalmente chorei. Troquei alguns áudios com Bárbara que num tom meio raivoso, e eu entendo porque eu também sou dessas, me deu uns tapas. Tava chovendo pra caralho e fui ao quintal e vi os micos se abrigando no meu telhado. Chamei Mariaalice pra ver os micos que estavam todos juntinhos e fofinhos e desabei a chorar.

Chorei na frente de Mariaalice. Sentei.

– Filha, estou triste.

– Por que mãe?

– Eu e um amigo brigamos. E eu estou mal com isso.

– Tu já pediu desculpas? Já conversou?

– Sim, pedi desculpas e conversei. Mas, ele não pede desculpas e nem conversa. Ele não me respeita. Então nossa amizade não funciona e por isso acabou. Está doendo mas, vai passar.

Nos abraçamos. Eu disse que eu estava tão feliz de ela estar comigo, que essa tristeza não vai ganhar espaço não. Fui tomar um banho quente e depois tomamos café da manhã ouvindo Pequeno Cidadão cantando alto.

Seguimos nosso dia e ambas irritadas também com a chuva e tudo molhado.

– Filha, preciso trabalhar. Mas, hoje não pode ser como ontem, tá?

– Tá bom, mãe.

– Eu não consigo trabalhar com você chorando, e eu não posso ficar sem trabalhar, sei que tá há dias chovendo, que não há outra criança pra tu brincar aqui e somos só nós duas, mas eu preciso muito trabalhar filha, e eu tô muito feliz de poder estar trabalhando em casa com você. Mas, pra isso, preciso ter disciplina e tem horas que tu vai mesmo ter que ficar sozinha, brincar sozinha, ler sozinha.

Ela com cara compreensiva, aceitou. Mariaalice chegou dia 16 de novembro e eu fiquei alguns dias sem trabalhar direito e deixando o mestrado meio de lado, só matando saudades. Eu simplesmente muito apaixonada por ela não conseguia fazer outra coisa a não ser estar com ela. Mas, daí perdi o prazo de uma disciplina do mestrado e minha consciência pesou, está pesando. Cá estou, fudida de grana e surgiu um freela, uma tradução que aceitei na hora e com prazer. Tive que tirar o domingo pra fazer porque o prazo era segunda pela manhã.

Passei o domingo com Mariaalice e a noite disse que iria pro computador fazer a tradução. Ela ficou entediada e reclamou de eu estar há muito tempo no computador. Lhe expliquei que eu tinha prazo e que eu precisava muito me concentrar, precisava muito daquela grana. E que tudo bem ela sentir tédio, também sinto. Lhe disse que muitas vezes resolvo meu tédio escrevendo, ou ouvindo música, ou apenas sem fazer nada, pra ela descobrir sua maneira de resolver seu tédio.

Ela ficou sentada forçando um choro. Eu respirei fundo e ignorei e trabalhei com aquele choro no meu ouvido. Quando terminei, ela estava cansada de tanto forçar o choro. Em silêncio nos preparamos pra dormir. E dormimos agarrada.

Voltando para ontem, depois que chorei, tomei banho e tomamos café da manhã, eu comecei a trabalhar no computador e Mariaalice caiu da escada, se machucou e chorou. Parei tudo e a cuidei. Ficou horas no meu colo pegando no meu cabelo. Até que o tio Ninico apareceu com pão, bolo de chocolate, suco. Ela ficou muito feliz e radiante porque ela estava morrendo de saudades do tio Ninico. E foi dormir na casa do tio Ninico.

Aproveitei que estava sozinha em casa para trabalhar e já de madrugada pensei em Platão. Abri O banquete para ler. Afinal, ele me mandou ler Platão, não foi mesmo? Lembrei de um filósofo que há um tempinho que trocamos ideias, e o chamei pra ler O banquete comigo fumando uns becks na minha cama. Ele veio com seus vinte centímetros. Mas, o filósofo não curte Platão, portanto não rolou o banquete, ficamos só na entrada.

Confesso que me foi um pouco decepcionante. Mas, enfim, homens. Muitos acham que seu pau é o suficiente, basta. Não caras, na real se eu quisesse só uma pica eu comprava um vibrador e evitaria todas as dores. Mas, eu quero flores.

Hoje acordei e o sol se abriu. Era sol que me faltava. Faxinei a casa. Falei com minha galera. Mariaalice feliz na horta com Tio Ninico. Tudo certo, pero nada resolvido. Ainda estou magoada com o cara, mas estou muito tranquila porque eu sei que é só uma questão de tempo pra passar este tormento. E foi bom chorar, pôr pra fora, gritar com Tim Maia, escrever, etc. Fudeu. Doeu. Deu.

Enquanto isso, eu tô trabalhando! Eu tô escrevendo!

<como é bom poder tocar um instrumento>.

Florianópolis, 8 de dezembro de 20

16h20

1+

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima