Querido diário,

faz tanto tempo que venho aqui. Faz tanto tempo que não vinha aqui. Faz tanto tempo que estou pagando advogadas. Faz tanto tempo que Mariaalice cresce. Faz tanto tempo que acabou. Faz tanto tempo que não os vejo: os homens. Os homens que eu amei são os homens que eu mais me decepcionei. Que desabei em segredo. Que me descabelei em segredo. Que chorei baixinho pra ninguém me ver. Todos me bloquearam. Eles nunca respeitam a história, o que foi vivido sentido. Eles estão com seus egos feridos. Eles não se curam e suas feridas doem tanto de doer ao redor.

Querido diário, desculpe a ausência, desculpe a demora. Faz muito tempo que não venho aqui e tenho evitado. Porque sempre que venho aqui: in my dark side of the word – perco um pouco as horas os prazos. E eu tô a muito custo tentando estabelecer uma rotina pra mim. Por saúde e pra dar conta das contas e produzir tudo que quero e preciso.

<disciplina é o segredo e olhe que eu nem acordo cedo>.

Eu tento. Fracasso, mas sigo tentando. Todo mês tento manter uma rotina de atividades físicas. Essa semana eu consegui fazer todos os dias, com muito sacrifício, mas fiz. Pero, exagerei no ifood e na inércia. Confesso que foi uma semana de muita inércia. Estou sem som direito e isso é foda. Meu irmão até me emprestou uma caixa sua, JBL falsa, que não funciona com músicas da internet. Tenho algum som salvo no meu computador e HD. Basicamente: Raul, Chico Buarque, Otto, Cidadão Instigado, Cartola, Nelson Cavaquinho, Tim Maia, Música Clássica, Pink Floyd. Me satisfaz.

Recebi uma grana de freela, uma tradução que fiz do espanhol pro português. Sobre movimentos feministas latino-americanos que tem o Cuidado como princípio. Paguei aluguel de março e abril. Paguei lavandeira água luz internet. Fiz mercado. Fiz feira. Me abasteci bem de maconha de lsd. Paguei todas as parcelas de abril e maio. Paguei os honorários das advogadas de abril e maio. Tô dura, com as contas pagas, com maconha e lsd e comida. Agora é trabalhar para pagar as próximas contas, feiras, mercados, etc.

Tô com muitas coisas pra fazer. Ah querido diário, tô aqui me dando conta que tem tanto tempo que não venho aqui que acumulei muitos casos pra contar. Vou tentar organizar. E falar do que mais importa. Senta que lá vem história:

Agora é sábado a noite. Comecei com Raul Seixas, na sequência: Chico Buarque, Cidadão Instigado, Otto e agora Pink Floyd. Fumando o terceiro dedo de hulk. Não almocei hoje mais jantei acarajé com coca-cola. Agora, tô tomando chá.

Hoje conversei com Barbára – Linha canábica da bá e Nahbrisa. Ambas mulheres do ativismo canábico que produzem muito conhecimento e conteúdo e pautam o debate de forma muito honesta. E conhecer suas histórias, foram duas horas de conversa, me fez respeitá-las mais ainda, de ver o quão de vitória e luta têm em suas jornadas. E como encaram isso com humildade verdade coragem, ainda que haja vulnerabilidade e medo.

Fevereiro fiquei muito em casa. Minha avó materna faleceu. Tive muitos sonhos e sonhei muito ainda com aquele cara que partiu meu coração e falando nisso, digo que o tempo está curando mas, volta e meia um sonho uma saudade uma vontade, pero sigo quieta no meu canto me acostu-amando cada dia mais. Quis, por vários motivos e um deles é a pandemia, ficar mais quieta no meu casulo, ainda estou.

No dia 18 de fevereiro lançamos a campanha do financiamento coletivo, deste diário aqui. Com uma seleção de textos de 2015 a 2020.

Eu mergulhei de cabeça no financiamento coletivo e foram 50 dias muito imersa. Foram muitas lives e entrevistas para podcasts para falar do Diário de uma Mãeconheira. E falar sobre, ler os textos, é revisitar minha história e por isso teve momentos de muita emoção. De chorar de rir de refletir, de tudo! Foi muito intenso.

A campanha do financiamento coletivo gerou muitos debates. Conheci muita gente legal e fundamental para co-criar, trocar, produzir. Muitas mãeconheiras estão desde então me procurando e trazendo seus relatos, eu fico deveras muito tocada e pensando no que fazer com tudo isso.

Fico muito feliz de ter feito contato/contrato com a editora Moluscomix. Por ser uma editora realmente engajada politicamente e estar abraçando a causa e juntos estamos construindo parcerias e projetos para dar conta das demandas que surgiram com os debates.

Confesso, que por vários momentos eu tive medo de não bater a meta. E me senti cansada exausta. Me decepcionei com algumas pessoas. Me admirei com outras. Dormi mal comi mal fumei pouco por 50 dias. No dia 9 de abril encerramos a campanha batendo a meta. Eu fiquei muito feliz e aliviada. Fui deposilar. Fui para casa de um gatinho conhecido, no alto de um outro morro, pra conversar fumar maconha tomar lsd e transar. Bati mais esta meta. Risos. Dia seguinte, eu não consegui ficar num apartamento perdida na cidade pensando que as coisas vão melhorar, ultimamente eu tenho olhado muito pro céu com muita fé e muita luta. Fui pra minha casa. Uma mina, que eu só conhecia virtualmente, veio tomar café da manhã comigo. Frutas, cuscuz com banana da terra e café. Comemos e conversamos a vontade. Após o café da manhã, tomamos lsd e fomos à praia, Beco da Lua. Tomamos um vinho rosé refrescante e foi uma tarde muito deliciosa.

Lsd, eu amo você. É sério, quanto mais eu tomo mais eu gosto. E já são 17 anos que eu tomo pelo menos uma vez por mês. E pra mim o lsd é sempre uma experiência transcendental espiritual filosófica psicanalítica, diversão, tesão. É perfeito. Amo muito tudo isso. Tomo e nunca me arrependo e sempre aprendo.

Março Mariaalice voltou para Bahia. Uma mistura de alívio e tristeza. Alívio porque vou poder trabalhar trepar etc. Com ela aqui, trabalhar é muito difícil principalmente no nosso contexto. Tristeza porque sofro mesmo de abstinência. E essa é razão para muitas vezes eu demorar tanto de levantar da cama. Acordar com ela e ter nossos dengos matinais é um alimento para alma. Coisa de carne. Karma. Acalma. Morar nesta saudade é difícil. Baixei o tinder novamente. Vários matches pero nada mete. Risos. Rimas infames, ai Maíra, às vezes tu é tão ridícula. Não quis me arriscar com nenhum boy desconhecido aparentemente bonito. Desinstalei o tinder.

Peguei uma tradução grande e por alguns dias trabalhei como assistente de educação infantil num jardim Waldorf, pero por conta da instabilidade da pandemia, não desenvolvemos muito o trabalho.

Estive tão imersa na campanha do financiamento coletivo que o tempo passou voando. E isso me lembra Cacaso:

<passou um versinho voando? Ou foi uma gaivota?>

Tive uma pequena treta no mestrado. Tudo porque numa aula online, eu em minha casa, acendi um beck e a professora não gostou e demandou tal questão para a coordenação que me intimou para uma reunião. Que situação! Indignada fiz o que sempre fiz: textão! E debati. Eu me ex-posiciono. Já passei por muitas situações constrangedoras e humilhantes pelo fato de eu fumar maconha e assinar o Diário de uma Mãeconheira. Eu sempre chorei nestas situações e desta vez decidi não chorar e devolver o constrangimentos e a humilhação aos donos. Minha cruz carrego eu e dela eu venho suportando há muito o peso e apesar dos pesares a pesar, estou aqui. Vivendo por minha conta.

No mês de Março eu conversei com diversas mãeconheiras e ativistas canábicas, de muitas idades realidades contextos etc e tal. Todas as conversas foram enriquecedoras e escutar a história de outras pessoas e cada vez recontar a minha, me fez ter a certeza da importância do fazer história. Contar a própria história é fazer história e é necessariamente um exercício de autoconhecimento e autonomia. Ao recontar diversas vezes a minha história me vi num passado que não termina de uma história  que não acabou que o baile segue e as questões percursam feito mar: é muita onda!

E daí, querido diário, estamos aqui no mês de abril, outono está uma delícia aqui na ilha. Eu sigo com saudades da filha. Tô cheia de gás e coisas pra fazer. Mas, sinceramente precisei ficar uma semana de: inércia ifood motoboy voltou aparecer e é aquele sexo de ferver séries qualquer sem esquecer dos afazeres. Mantive o mínimo de atividade física e alimentação saudável e coloquei no papel vários planos, afinal foi uma semana de lua nova e segundo dizem, é tempo de planejar.

Pero, agora é tempo de fazer acontecer. De tecer para ser. De pegar os fios das meadas e costurar sem agulha, de dar ponto sem nó.

Organizando tempo ideias para alcançar os objetivos. É querido diário, de fato tu vai virar livro. Na real, daqui a pouco tu vai pra gráfica e eu estou ansiosa pra ver tua capa. E olha só, antes mesmo de tu ser livro, já está sendo mais que um livro, está sendo um movimento, um ato político. Um grito coletivo: Mãeconheiras de todo o mundo: uni-vas!

Mas, como venho dizendo, é só um começo. Têm sido uma longa jornada para chegar aqui no início: <eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar eu não posso ficar aí parada>. Eu não páro na pista. <mistérios há de pintar por aí>.

E por uns instantes eu dou risada da vida: com tanta bad eu ainda consigo ser feliz? Putaquepariu! Sei lá viu diário, tá tudo muito incerto: nunca sei como vou pagar as próximas contas, se o próximo crush vai valer a pena, se o juiz vai marcar logo uma audiência peloamordejah, enfim, só sei que me sinto em paz e tranquila.

<Na vida tenho muito que dançar para aguentar o peso pra parar de pensar no erro. Por que você não quer ficar tranquila um pouco? Teu rosto é mais bonito rindo>.

Não sei, mas isso de viver o dia a dia no improviso a gente vai desenvolvendo aquele mantra do Rudolf Steiner:

<viver com pura confiança sem qualquer segurança na existência>.

 Acho que por hoje já deu, depois volto pra contar mais.

Florianópolis, 17 de abril de 21

22h21

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