Querido diário,

Eu simplesmente páro pra ouvir música. Hoje passei o dia quase sem comer e boa parte em silêncio. Só agora fiz um beck: do tamanho da bad. E cá estou ouvindo ora Radiohead, ora Lívia Nery. Minhas estranhas melodias. I’m creep.

Eu sou terra e me rego com meu próprio líquido, que vem do meu suor e lágrimas. Há tempos que busco lugar para me plantar. Para flore-ser. Construir um lugar: do nada concreto. Dos escombros afetivos. De cal.quer.si. Eu sou a arquiteta. A engenheira. A pedreira. Ainda estou tentando construir essa base. Sozinha é muito trabalhoso e cansativo. As vezes acho que não vou dar conta. Que o patriarcado o capitalismo é foda e só de sobreviver já é uma luta que sinceramente, tenho nem arma pra isso. As vezes parece que essa base nunca virá. E que a única possibilidade que tive de tê-la foi quando tive um pai e depois o marido. Mas o pai morreu e o marido virou ex e inimigo. O machismo estrutural entrou na minha casa na minha vida e estou pagando por um preço alto por isso. Faço um esforço danado pra não enlouquecer, não desistir e não me deprimir. Mas, sinceramente, tem horas que dá vontade de apenas se entregar.

Por algumas razões eu ainda não me entreguei, porque afinal de contas eu sou orgulhosa e teimosa demais pra me render. Porque simplesmente decidi escrever a minha história. E principalmente, porque há Mariaalice. É por nós. A gente merece uma história cuja a narrativa seja nossa. Insistir para existir.

Eu só quero ficar de boas. Desde pequena quis ser mãe professora e escritora. Brincava de ser as três. Escrevia livros. Trinco e cincos anos e sou mãe professora e escritora. Eu devia estar plena e realizada mas o Estado patriarcal capitalista não colabora e é uma luta danada pra conseguir viver dia após dia totalmente sozinha.

Ser humano necessita da comunidade que pode ser família, para sobreviver. É difícil ser só, mulher, pobre, com uma história familiar pra lá de bizarra complicada. É difícil todo mês pedir ajuda.

Hoje eu tinha pensado em passar mel nos cabelos e no rosto. Voltar a cuidar da horta. Continuar a ler o livro Natureza Anímica da Criança. Ler a apostila do curso que farei 24 e 25 de agosto. Escrever mais um pouco do livro inédito que comecei a escrever, vai se chamar: Homens. E ler os textos da disciplina que farei na linha de filosofia da educação na pós graduação em educação da UFSC.

Não tive este dia produtivo como planejara. Acordei de calundu. Custei a levantar da cama. Já eram quase três da tarde. Comi cuscuz com ovo e café. Passei o dia pensando. Processando. <De vez em quando eu sofro>.

Há tempos que não sei da vida de vários amigos e que também não sabem de mim. Há tempos que não escrevo o diário. Há tempos que cansei de mim: sempre os problemas que fogem as minhas capacidades. Cansei de ser a garota com problemas e que nunca consegue. Tá sempre mudando de trampo ganhando mal mudando de casa. Numa guerra com o ex marido pela guarda da filha. Odeio o sistema. Definitivamente: odeio o sistema. Ele nos cansa, cansa nossa beleza, nosso corpo mente coração. É por isso, cara bossa nova, não posso aceitar que a vida tem sempre razão quando ela está sucumbida neste sistema patriarcal capitalista etc.

Preciso escrever para Mariaalice. Ela esteve aqui por quarenta dias e foi intenso. Aí quando ela vai embora fica um imenso vazio e penso: que mágica foi essa que dei conta? Que dei conta de estarmos num lar, com comida, lazer, rotina, amor, muito carinho, presença, etc.? De onde tiro tanto humor? Do amor, só pode. O mesmo acontece quando vou diariamente para escola lidar com cerca de quinze crianças de um ano e meio a cinco anos.

Tenho em mim um amor que encontrei e cultivo na verdade. E ainda que o caminho para a liberdade, afinal de contas é pela estrada da liberdade que venho caminhando para conquistar meu lugar, esteja sendo doloroso solitário e difícil para caralho, neste percurso tenho aprendido a potencializar minhas potências e sempre que me envolvo me desenvolvo.

Só que tá pesando nos ombros porque não há descanso. Aceitar totalmente que se é só é desatar alguns nós que machucam lá no fundo do peito fazendo efeito. Na história, há poucas mulheres que sozinhas conseguiram construir suas bases. E quando mães, e decidem construir suas bases por si só, muita vezes a maternidade lhe foi limitada.

Quando olho ao meu redor, as minhas amigas que são mães, em sua maioria estão casadas, no segundo casamento, e tem ajuda e ou algum apoio real da família. É muito mais saudável quando se tem apoio acolhimento base. Não tinha que ser pesado doloroso sofrido cansativo.

Eu não sei até quando estes pesos vão pesar, mas eles precisam pegar leve. Depois de tanta pancada, ninguém resiste tanto. Eu sei bem o peso da minha responsabilidade escolha e sei bem da minha força. Mas quando eu passo o dia em águas tenho medo de perder o fôlego.

Ó vida, ó céus, não venha de com força não, venha de leve. Releve.

Floripa, 11 de agosto de 19

01h45

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