Querido diário,

tem quatro meses que não escrevo e muita coisa acontecendo. Maria Alice fez sete anos e eu lancei um livro: Para Maria Alice.

Estou de férias. Planejo cuidar de meu corpo. Curtir muito Maria Alice. Natureza. Dar um gás num romance que estou escrevendo. Dar continuidade aos meus estudos sobre literatura de contracultura escrita criativa curativa desescolarização cuidado de si auto formação auto educação auto terapia antroposofia. Escrever para o site Aldeia do saber. Começar uma horta, cuidar de flores, e fazer tricô. Ainda bem que no verão os dias são longos.

O inverno foi longo solitário e difícil. A primavera de fato floresceu e rendeu. Choveu na roseira. O sol brilhou mais uma vez. Pintei minha casinha e deixei ela com minha cara. Caminhei muito. Subi muito o morro da lagoa. Dei um pulo na Bahia para minha alegria me Salva-dor. Verão is comming e me sinto radiante. Feliz por star onde estou e como estou. Feliz pela casa pelo trabalho pelo livro e por ver que todo o processo têm sido difícil duro mas, de muito aprendizado e crescimento. E pensar que comecei o ano querendo simplesmente desistir. Já não aguentava mais sobreviver. Este rolê de casa trabalho contas e sem mariaalice estava me enlouquecendo. Eu não estava dando conta do básico e a cada dia que passava eu tinha menos: menos grana, menos força, menos beleza, menos paciência, menos energia. Mas, eu não podia desistir. Não posso. Insisto, logo existo.

O trabalho numa escola Waldorf, morar sozinha, e conseguir por mim mesma dar conta de minhas contas, foi fundamental para transmutar e depurar os sentimentos minguantes. A ajuda e o apoio de família e amigos, foi nutrição para a alma. A gente não sobrevive mesmo sozinho ainda que sejamos sozinhos, somos seres que se dissolve no cosmo, no universo.

Minha rápida experiência com horta me ensinou que paciência cuidado constante e persistência, são qualidades necessárias para que os frutos brotem e floresçam.

Algumas vezes eu dei uma pirada, quis me internar num convento, queria fugir. Na adolescência em momentos de muita raiva meu pai me ameaçava a me internar num convento. Até que um dia, estou eu cá adulta, pesquisando como faz pra entrar num convento. Minha natureza radical pensou logo nas carmelitas. Foi um dia de muitas gotas de choro e a noite acendi um vela que um boiadeiro benzeu e me deu. Orei a minha maneira. Acalmei meu coração e fumei um beck. Dormi profundamente. Acordei com o sol entrando pela minha janela, eu nunca fechei a janela da minha casa, e acordei me sentindo melhor. Quando bate a luz assim, eu gosto. Foi quando decidi que já era hora de fazer um livro, e que o primeiro livro teria que ser Para Maria Alice. Pois, é essa minha história toda que tem me feito escritora. Uma escrita que ousa assinar o próprio nome e contar sua própria história. Que ousa impor seu lugar se deslocando de seu próprio lugar. São muitos os lugares: históricos sociais culturais econômicos gênero etc. E ainda se tem o lugar de si: é possível apenas ser?

<Ser ou não ser? Eis a questão> e <Isso de querer ser exatamente aquilo que se é ainda vai nos levar além>.

Outro dia peguei carona com uma mulher que também é mãe e conversando falei meio de forma conclusiva que na nossa sociedade ou a gente é mulher livre ou é mãe que corre com os lobos, os dois não dá. Pesamos as questões. É foda. Eu sofro com isso. Ao mesmo tempo me sinto bem por estar exatamente onde eu queria estar e estou com um enorme sentimento de gratidão e alegria pela realidade presente. Mas, pra isso, tenho minha maternidade limitada. Essa luta é muito cruel. Dói mais que a putaquepariu.

Respiro. Sigo o baile <na batida no assunto pertinente>. Foi longo e difícil chegar aqui, e todavia não termina. A caminhada nunca pára. Mas, depois de atravessar alguns labirintos bifurcações becos sem saídas e túneis, eu cheguei mais perto de minha direção e por ela tenho me guiado e este caminho está cada vez mais belo: tudo azul muito verde. Com a espinha ereta a mente e o coração tranquilos, eu aprecio cada dia com seu frescor. Com toda a dor e a delícia de ser o que é. Tentando ficar de boas gozando de um domingo solitário.

<sunday morning> 14h55 tomei meu café da manhã: pão de fermentação natural com geléia de laranja orgânica, bolo de jabuticaba com uva passa branca.
Na sequência: bolei uns bem bolados para processar tudo que venho vivendo e sentindo e principalmente pra depurar aquilo que me deixa bolada.

<Mais uma vez> perdi no amor, mas não na piada.

Maturana já dizia que mantemos nossas culturas por conversações. E são as conversações que tecem as relações. A gente age sempre pela emoção. A razão, não se enganem, vem da emoção. Do pulso. Outro dia reparei bem no meu pulso e vi minha veia pulsando, bombando.

<Mais uma vez> é domingo e meu pai não está aqui, quis chorar. Essa saudade que só pode ser saudade, tipo blues que esfarinha os ossos.

Maria Alice chega terça-feira e ontem foi formatura do primeiro ano dela, eu acho brega ridículo burguês patriarcal, jamais faria isso mas, me emocionei e sei o quão ela está feliz e realizada.

<Sunday morning>. Pensando muito na minha princesa e no cowboy. <Mais uma vez>.

Estou aqui ouvindo legião urbana: <mais uma vez>.

Não escrevo desde agosto. Me mudei, moro sozinha, no alto da montanha no meio do bosque com vista pra lagoa e dunas. Tudo azul muito verde. De estagiária passei pra auxiliar de educação infantil numa escola/casa waldorf. Conheci alguns caras. Trepadas inusitadas. Coisas de filmes. Vivi uma história com um cara, tava massa leve suave na nave. Mas, eu estou sempre atenta e logo percebo as armadilhas machistas que dão emoção as ações posturas que sempre são decompostas. Eu sou atenta as subjetividades e as linhas tênues que costuram as relações. Costurei meu próprio manto pra me proteger. Muita leitura/vivência antroposófica. Todas essas linhas tecem minhas vestes que desnudam meu  ser.

Verão is comming e hoje não veio o sol. Veio a saudades de meu pai. A ansiedade para Maria Alice chegar logo. A preocupação com as contas, preciso vender o livro pra pagar o livro.

Ouvindo legião. Mais uma vez. No looping. <de vez em quando eu sofro>. Quatro meses sem escrever. Hoje eu voltei. Eu tô de férias e tô de boas. Separei minhas ferramentas: word lsd thc chá de camomila raízes frutas chopin muzarkas. E vou escrever até cansar desopilar.

Mais uma vez. Mais um verão.

Floripa, 15 de dezembro de 2019
20h44

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