Querido diário,

Eu estava numa casa que nunca estivera antes. Na rua estava acontecendo uma revolta. Barricadas e trincheiras. Policiais. Indígenas. Muitas crianças. Fogo. Minha mãe e minha avó fechavam toda a casa. Dentro da casa estava Mariaalice e outras crianças, que não eram minhas, mas muito próximas a mim. Minha mãe e minha vó estavam protegendo a casa e as crianças. Elas estavam sérias e calmas, estavam sob controle e pareciam fortes. Eu estava num quarto, atenta a tudo, na companhia de um amor. A gente transava e gozava. Muito. <faça amor, não faça guerra>. Interrompemos a transa para verificar os perigos. A casa estava protegida. As crianças também. Minha mãe e minha vó tinham tudo sob o controle. Lá fora: guerra. Eu e o rapaz juntamos algumas coisas numa mochila e saímos pelos fundos e damos numa praia linda e deserta. O rapaz se declarava pra mim, dizia me amar e que era pra sempre. Acordei. Olhei a hora no celular, nove da manhã. “Que sonho foi esse”? “Que dia é hoje? Putz… aniversário dele. Sonhar com ele justo no seu aniversário, putz”.

Penso. Sinto. Antes mesmo de me levantar da cama olho algumas notícias. Fico sabendo que é o dia do Massacre da Sé, de São Paulo, quando em 2004 sete moradores de ruas foram assassinados enquanto dormiam. Voltam as imagens dos indígenas com seus facões. Tem mais coisa nesse sonho. A avó. A mãe. A filha. Ancestralidade, disse-me Maria. Levanto. Me alimento. Me alongo. Respiro fundo. Olho a vista: essa lagoa essas dunas essas montanhas… Sigo o baile e vou pro trampo. O sonho me acompanha. Tento traduzi-lo e concluo que deve ser meu desejo de revolução e amor. Amem.

Dia seguinte fui visitar a avó e a mãe. Elas estavam serenas. Vi uma doçura em minha avó a qual nunca tinha visto, pude presenciar ela e minha mãe se alimentando de afeto como nunca tinha visto. Foi uma imagem e um estado de serenidade. Minha avó irradiava uma doçura quase infantil. É por isso que estou aqui: pra ver isso. Eu precisava ter uma imagem assim de minha mãe e avó, mãe e filha, numa relação de afeto e serenidade. Eu achei que nunca teria essa imagem, mas ela veio em sonho e realidade. Ela percorreu o vale das almas e se materializou aqui. Eu vi este percurso. Com meu olhar atento de historiadora. Eu vi a mulher que atravessou o país, de norte a sul, do Amazonas até Santa Catarina, protegendo seus filhos e netos. Eu vi a mulher sempre amável com as crianças. Eu vi essas mulheres enfrentando muitas guerras: dentro de si mesmas. Eu vi tudo isso. Quando me dei conta disso me veio um sentimento de muita gratidão pelo presente.

Segui o baile. Semana intensa de trabalhos e reuniões. Entre caminhadas, caronas e ônibus, sempre chegando na hora certa. Muitos dias cinzas e friorentos. Quando tem sol e céu azul o frio fica mais suave. É muito gostoso o sol de inverno. Difícil é acordar cedo e sair do quentinho. Domingo, seis da manhã, acordei. Muito frio e muito cedo resolvi dormir um pouco mais. Daí, eu estava caminhando na rua Direita de Santo Antônio com alguns amigos atrás de um carro de som. Passei em frente a casa que morei por toda a adolescência. A casa tinha virado sede de uma editora de algum sindicato. A fachada da casa ainda era a mesma. Verde. Senti forte a presença de meu pai. O procurei e não o vi. Está morto, eu sei. Mas achei que aqui pudesse vê-lo, mas só senti. Segui o carro de som. Entrei numa casa e lá estava o pai de Mariaalice. Senti. O procurei pela casa e não o encontrei, apenas vestígios seus. Sentei e pensei em esperar ele voltar, queria lhe falar. Acordei super atrasada para o último dia do encontro regional sul de jardins de infância Waldorf. No caminho fui pensando e processando o sonho. “Por que não o encontrei? Onde ele estava? Acho que o perdi de vista total”. Voltei pra casa assim que acabou o encontro. Não comi e não usei a voz. Apenas deitei na cama e pensei. Pensei… Pensei… pensei sobre estes sonhos, sobre a solidão, sobre a saudade de Mariaalice e a angústia de não star com ela. Pensei sobre a saudade de meu pai. Pensei sobre este inverno e como vem sendo meu percurso ante as forças da natureza. Que este ano eu quis morrer e nunca tinha querido antes e agora me sinto cada dia mais viva, que apesar dos pesares a pesar, estou aqui e muito consciente de meus processos e caminhos. Eu caminhei para a natureza, a solidão, a simplicidade, e cá estou. Porém, eu estou no início da montanha < it’s a long way>: <no caminho do bem>.

Ao findar a tarde e chegar a noite gelada e estrelada, deixei pingar algumas gotinhas de choro. Bebi água. Comi pão de abóbora. Ouvi Pink Floyd volume máximo. Adocei a cabeça com mel. Fiz a cabeça com a erva. Des-cans-ar é preciso. E de minha pequena torre e nela tudo coube e se encaixou, eu contemplo as dunas a lagoa as montanhas, quase uma vida de conto de fadas, só que sem príncipe e rei. <Deus está morto>: <ele está no meio de nós>.

Floripa, 25 de agosto de 19

20h51