Querido diário,

Tô sentindo um vazio e hoje me ocupei dele, deste vazio. <Enter the void>. Pensando na força que há no que sentimos. Há tempos que desejo a solidão e eu a tenho. Passei o dia em silêncio, me alimentando bem, cuidando da casa, emiti apenas algumas palavras, ouvi música e depois de escrever vou ler.

Um cara disse que viria hoje. Confesso que fiquei em dúvida se queria que viesse ou não. Mal o conheço. Mas, mesmo assim eu o chamei. É só um beck, pensei. E antes de eu desistir ele desistiu, tava de ressaca cansado e quis marcar pra amanhã.

– Aí já não sei.

Pensei. Tava me dando uma chance de conhecer alguém que pode ser legal. Ele disse que viria e não veio. <Canto de Ossanha>. Tava me dando uma chance de conhecer alguém que por uns instantes me fizesse não pensar e pesar sobre aquele desejo que rumina em minha mente há um tempo.

Eu fiz um par de beck pra fumar todo dia,

Todo dia, todo dia.

Do tamanho da minha melancolia,

Melancolia, melancolia.

O dia todo pensando nessa minha melancolia, neste meu vazio, nesta minha solidão, e no prazer que há em ser só e no desejo de estar abraçada naquela transa — eu queria que ela fosse eterna. Algumas já foram. Um dia essa se esvai. Mas, só importa agora: o <mistério stereo>.

Pensei em escrever mais uma carta. Se pá mandar um meme engraçado. Ou mandar mais uma canção

<<<Com a sua impecável e distinta harmonia

Harmonia, harmonia

Como se fossem duas notas da simples melodia

Melodia, melodia>>>.

Não há espaço para romances. Me contenho. Me entrego as músicas, as diversas palavras que leio e ao silêncio. Depois que o dia passa, um banho quente e um beck do tamanho da consciência, e me sinto plena. Tudo certo, nada resolvido. Mas, se as contas não são minhas, não tenho mesmo que resolver. Eu me multiplico. Unidade por unidade venho somando e foi preciso o vazio, o zero, pra isso. E no fim das contas eu estou tendo exatamente o que sempre desejei. E hoje percebo, que de alguma forma ou de outra, eu sempre segui lutando e caminhando na direção daquilo que eu queria. Não está sendo fácil e por vezes pensei em estar sendo teimosa, até mesmo vaidosa, muitas vezes não estava dando conta de sustentar a mim mesma, já não eram mais minhas escolhas e decisões, era apenas sobreviver sem pesar escolhas e decisões. Mas, não tem jeito não. Sempre pesa. Dá de sentir literalmente nos ombros, costas, nuca.

Eu subi a montanha e estou de frente pra lagoa com vista pra dunas. No meio do bosque. Um teto todo meu. Aqui posso ouvir música, fumar meus becks e receber amigos. Contei a Mariaalice. Ela disse estar muito curiosa pra conhecer a casa e ficou feliz de saber que podemos tomar banho de lagoa todos os dias.

Faz alguns anos que o mês de agosto na minha vida tem sido difícil. É o mês que meu pai faz aniversário. É o mês que sempre mudo de casa. São os ventos. Estou aprendendo a lidar com o vento. No meu caso, prefiro me recolher e ficar de boa esperando a ventania passar. Mas, nem sempre é possível, o vento as vezes é inevitável. Sempre que há mudanças, se bagunça.

<é caos e efeito>. Na sequência dos ventos, eu me fiz água. Me encharquei. O sol arde de brilhar mais uma vez e o calor acolhe. E por fim vem a calmaria,

Calmaria, calmaria.

O vazio transparece o Eu. É disso que há de que se dar conta. De si. É coisa pra caralho pra dar conta. Ocupar-se de si é um exercício para eliminar desejos. Segundo os budistas, pra ficar de boas temos que eliminar os desejos. Isso é tão profundo que necessita um total mergulho em si. Afogar o ego.

Como se controla a mente a razão a emoção o sentimento? Será possível? As vezes penso que uma autoeducação e este processo já é curativo, podem nos elevar a forças divinas capazes de atingir a harmonia e o equilíbrio entre mente razão emoção e sentimento. Isso de autoeducação autoformação autoconhecimento é bruxaria, na moral.

Segue o baile. Lua cheia. O leão urge. Até pensei em ir pro baile dançar a noite toda pra curar dor e refazer a dor. Mas eu fiz um beck do tamanho do ego de um leão. Coloquei my soul soundsystem e me senti completa. Preciso de mais nada. Eu encontro meu conforto meu prazer, que delícia. <Echoes>.

Floripa,17 de agosto de 19

23h12