Querido diário,

isso de ser só ainda vai nos levar além. Tem muita coisa que me está sendo difícil dizer, pensar, sentir. Admitir. Assumir. Inclusive eu queria muito chorar pero não há lágrimas. Sigo seca. Lágrimas não rolam porque I’m like a rolling stone.

Tenho pensado muito na urgência do amor. E eu tô de saco cheio de geral falando de amor próprio. Geral falando de autoconhecimento. Geral falando de solidão para auto conexão. Caralho, na moral, eu não finjo ter paciência para essa falsa inocência. Eu vejo todo este discurso de amor próprio autoconhecimento auto conexão tão individual liberal como le gusta el capital.

Tememos o amor na mesma medida que a revolução, e nisso Che Guevara tinha razão.

É urgente encararmos o amor ainda que não saibamos o que seja, mas é sempre aquilo que nos faz sentir rir chorar pensar pesar. Tal como precisamos dos olhos do outro pra nos enxergar, precisamos do amor que é relação, cuja batida ressoa vibra pulsa, faz uma canção: uma transa inteira, tal como o melhor disco do Caetano Veloso. O amor mora na filosofia and it’s a long way.

É urgente encararmos o amor e os homens precisam mais do que nunca encarar isso: aqui e agora. Isso perpassa por comunicação por conversação por práticas cotidianas, por responsabilidade por cuidado por atenção.

<atenção na intenção>.

As redes sociais estão um saco. A sociedade está cansada. É impressionante a quantidade de influenciadores, homens e mulheres, ensinando às MULHERES como elas devem agir para conquistar um relacionamento, um cara, como ser uma mulher de impacto.

Por outro lado, há uma quantidade imensa de vídeos estilos reels e tik tok, de minas brancas cabelos lisos escovados megahair sobrancelhas geométricas micropigmentação contém 1 kilo de maquiagem filtros harmonização facial unha porcelana botox silicone preenchimentos etc., questionando padrões de beleza (sic) e afirmando a necessidade de aceitação e fazendo questão de zoar e afirmar que não ligam pros boys, que tiram onda das caras dos boys, porque pegam os amigos dos boys, porque elas também têm muitos contatinhos e que elas não sofrem pelos boys.

E há um outro lado, que diz que não aguenta mais o joguinho o desprezo o desinteresse, pero quando se vê numa quase relação, por medo inseguranças traumas e tudo mais, e até mesmo por prevenção, já faz aquilo que tanto critica: o desprezo o desinteresse a demora pra responder o sumiço etc., enfim, joga, elabora estratégias.

– é guerra ou relação, caralho??????

E não estamos resolvendo isso. Nossa comunicação, nossa conversação está se perdendo. Eu sinto isso mesmo entre amigos, entre famílias. Todo mundo indisposto pro outro. Todo mundo reclamando das dificuldades de se relacionar. Boa parcela dessa conta é sim do capitalismo e do patriarcado.

Mas, tem algo que é muito difícil: entender a si mesmo. Entender o que você quer e o que você de fato sente. E porque você quer e o porque deste sentir. Este devir é constante, só acaba quando termina.

Hoje meu peito amanheceu com uma angústia, por mais uma história mal resolvida. Eu estou cansada de viver breves encantos e por um triz, <um pequeno momento, uma coisa assim> desencantar. Eles se calam. Não conseguem olhar na cara. Não conseguem falar. Não conseguem pedir desculpa. E somem. Sem nenhum res-peito fazendo efeito. Eles não resolvem, eles bloqueiam. Estou cansada magoada exausta porque sempre acredito na potência do sentir e dos encontros. Da fertilidade que pode crescer e fortalecer.

Mas, parece que quase todos os homens nos tratam como putas. Eles não buscam as putas propriamente ditas, o que é pior, porque nos tratam como putas e não nos pagam. Penso que seria mais justo e honesto os homens buscarem as putas e pagá-las. Valorizar mais este trabalho.

Nos tratam como putas porque não buscam de fato (se) conhecer e se relacionar. Buscam sexo e apoio emocional. E ok, mas para isso existe putas e terapeutas.

Eu me sinto uma puta otária sempre quando uma relação acaba inacabada e o cara não fala mais comigo. Eu acho muito estranho você se envolver com alguém e depois não conseguir ser amigo, ter uma relação cordial que seja. O tal de bloquear a pessoa, sumir, negar a conversa, descartar! Eu fico inconformada, busco na história onde foi que eu errei: foi o bom dia que eu dei? Foi ter respondido a mensagem? Foi ter demonstrado interesse? Foi ter sido carinhosa? Não sou bela o suficiente? Não tenho grana o suficiente?

Uma merda essas perguntas que batem no fundo do peito fazendo efeito. O pior que as respostas disponíveis nas redes sociais, revistas e televisões para estas questões te deixam mais na merda ainda. Mais uma vez elas vem pra reforçar a ética individualista liberal do capital.

Você ser a melhor versão de si mesmo, exercer amor próprio, buscar ficar sozinha para se conectar etc., vejam que cilada! São clichês muitos fáceis de se falar e com muita cara de verdade. Só que o buraco é muito mais embaixo. O amor próprio aqui nunca faltou. A solidão nunca me assustou. Carente não sou. Então, por quê?

Por que jah eu ainda sofro por cada breve encanto? Por que ainda insisto mesmo quando já é desencanto? Se Freud explica, tá tudo na nossa origem: nossa mãe. Se isso for mesmo verdade, eu tô fudida e talvez seja essa a razão, pero espero que não. Espero que o fato de minha mãe ter transtornos como bipolaridade e borderline, de ser intensa demais e sem nenhuma regulação emocional, e de que aos sete anos de idade meu pai me dizia que eu teria que cuidar de minha mãe, e eu nunca consegui cuidar dela e me frustro por isso e consequentemente nossa relação não é tão legal, seja apenas uma mera coincidência de eu me envolver com caras intensos demais, sem regulação emocional e não conseguir cuidar deles. Ok, eu já entendi que não tenho que cuidar nem de minha mãe nem deles. Entendi isso quando pari. Que iria cuidar de mim e de Mariaalice apenas, e por essas e outras, me separei.

Vim escrever pra vê se chorava, pero <segue o seco sem sacar que o caminho é seco>. Estou num exercício muito difícil: de aceitar as paradas. Aceitar inclusive que estou envelhecendo e tá na cara: manchas, bigode chinês, rugas, nariz e orelhas estão crescendo, fios brancos estão aparecendo. Que preciso lembrar da minha idade e de toda minha história para aceitar a minha beleza e não cair em armadilhas que apertam nossas mentes e nos enlouquecem. Foi um breve encanto e desencanto, não porque eu não tenho beleza suficiente ou porque me faltou estratégia, ou porque eu me dou de mais. É muito fácil aceitar estas respostas, pois elas trazem soluções: coloque silicone, botox e o caralho a quatro e jogue as regras do jogo. Inclusive há curso para isso. Só que sabemos que não. Basta conversar com as siliconadas e as jogadoras, elas sofrem também. Tampouco me parece que: os boys são lixo e a culpa é do machismo estrutural e tal, responde.

Querido diário, eu não sei a resposta. Sigo sendo bloqueada e quebrando a cara. Sigo acreditando no amor na relação na conversação na comunicação para nossa evolução.

<Eu sigo na batida no assunto pertinente>. Talvez, isso de ser gente é coisa que se sente. Isso de ser só é aprender a não dar ponto sem nó.

Floripa, 24 de novem de 20

18h49

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