Querido diário,

janeiro está acabando. E eu ainda estou começando. Tem sido um mês molhado úmido mofado. Poucos dias de sol e muita chuva. Eu nunca tinha vivido um janeiro assim, também nunca vivi uma saudade assim. Ainda durmo e acordo pensando nele. Mas, não pense que estou sofrendo, chorando, porque não estou. O sinto, pero cada dia pesa menos. Faço amor com outros caras. Trabalho, estudo, cuido de casa comida roupa, faço pilates, lfp, curto e cuido de Mariaalice. E ainda assim penso nele e o sinto.

O livro ainda não saiu. Queria que fosse na primavera, não rolou. Queria que fosse em novembro ou mesmo antes de 2020 acabar, não rolou. Quis janeiro, não rolou.

O processo deste livro e o processo da história do livro, têm sido lento e intenso. Tenho trabalhado muito minha paciência e aceitação da realidade. Paciência eu sempre tive, mas agora estou ansiosa para sair este livro. E sobre aceitação, tenho que aceitar o tempo do outro. A ilustradora tem seu tempo. A designer tem seu tempo. Ele tem seu tempo. Eu tenho meu tempo. São muitos tempos.

“Tudo que eu sei é que preciso do tempo”.

“Maíra, por que a gente não pode se amar sem ansiedade e sem obrigação”?

Estas foram uma das últimas frases proferidas por ele para mim. A primeira ele me disse 19 de setembro, quando a gente ainda se amava em total solidão. A outra, foi na primeira semana do sol de dezembro. E desde então, tô tendo que aceitar e trabalhar isso em mim. É difícil demais pra mim aceitar as paradas quando eu sinto e acredito. Eu tô aprendendo, cres-ser dói pero também é libertador. Eu ainda fiz umas tentativas frustradas de procurá-lo. Mas ele não kiss. Ok, você venceu: batatas fritas. E nunca mais.

Ontem eu desabafei com as meninas do livro do quanto estou chateada e frustrada de o livro não ter saído ainda. Posso até ter sido grossa e pedi desculpas. Eu só quero que o livro seja finalizado e publicado. Acordar e dormir sem ele na minha mente e no meu coração. Não ouvir mais canções pensando nele. Sushi. Pizza. Feijoada. Lsd. Maconha. Netflix. Filosofia. Cachorros. Filhos. Família. Café. Pão de queijo.

Sempre que eu comer sushi vou lembrar de você”. Ele disse. Eu tô com saudades. Ainda resta uma mágoa uma agonia uma angústia. Eu quis muito resolver: e isso não significava ficar junto. Nunca busquei resolver para ficarmos juntos. Eu nunca coloquei isso em questão. Eu nunca quis essa questão. Eu lembro da gente no sofá amassados e eu lhe dizendo isso: não é questão. É muito mais além, mais além, mais além. E quando eu achei que ele tava entendendo e que a gente tava desenvolvendo, ele jogou fora o amor que eu lhe dei: isso não se faz.

Outro dia, 15 de janeiro, Mariaalice foi pra casa do tio ninico com a vovó, fez um pouco de sol e eu tomei um lsd inteiro e estive em Otto. A saudade bateu forte. A vontade bateu forte. A vontade é muita e a coragem é maior ainda. Quase pego um uber e atravesso a ilha. Maíra, pare de maluquice. Isso não é coragem, é loucura. Eu disse pra mim mesma. Foi aí que cantei pra mim: <ao menos levo uma certeza, você me deixa doída mas só não me deixará doida porque isso sou, isso já sou>.

Não há o que fazer sobre o que eu sinto, concluo. Vou sentir até o caroço. Apesar de ter sido uma paixão interrompida, eu não consigo simplesmente inter-romper este sentimento. Já nem sei onde é amor ou se é só saudade.

Nada na minha vida mudou. Eu sigo ocupando-me de mim mesma como há muito. Sigo o baile mantendo o bom humor mesmo falando sério. Sigo aberta, alerta e disposta. Trabalhando, estudando, me cuidando: um pouco de drogas e um pouco de salada. Passeando, conhecendo gente etc. e tal. A única coisa que mudou é que agora eu tô quieta. É isso, eu tô aprendendo a ficar quieta. Estou me acostu-amando cada dia mais.

<porque o novo sempre vem>.

Fevereiro vai ter sol. Vai ter o livro: Para meu amor com H: rascunhos para uma epopeia. Vai ter campanha. Vai ter carnaval do bloco do eu sozinho. Vai caber tudo em 28 dias. Enquanto isso, sigo nos últimos dias de paupéria de janeiro.

Last chance for change. Acon-tece que ainda não é tempo disso. A propósito hoje vou escrever sobre a história do tempo presente trazendo os poetas marginais como autores e narradores de si e consequentemente da história.

Estou operando história e tempo para construir a trama e deixa eu te contar, querido diário: tô constatando que tanto o passado quanto o futuro são imprevisíveis. É o que tenho para hoje: <viver com pura confiança sem qualquer segurança na existência>.

Floripa, 30 de janeiro de 21

15h03

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2 comentários em “Last chance for change”

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