Querido diário,

devo star louca, doida e obcecada. No momento estou doente, na cama, ainda de pijama. Há exatamente há um ano atrás, eu e H., havíamos tido uma discussão. Neste dia, 8 de outubro de 2020, fui a sua casa pra gente conversar e se resolver. Conversamos muito. Lembro e ainda hoje sinto, o quanto ele me abraçava e dizia: “quero construir uma relação primorosa com você”. Primorosa. Não esqueci esta palavra. “Eu gosto muito de você”, ele dizia. Disse repetidas vezes enquanto me abraçava. Me abraçava muito e muito carinhoso. Eu me sentia envolvida total neste abraço. E que louco, me sentia protegida. Pois é, querido diário, depois deste dia, fui pra minha casa tranquila com a certeza de nosso amor e nossa vontade de construir algo verdadeiro, sem pressa.

Os dias passaram, nos falávamos todos os dias por mensagens. Adorava ouvir logo pela manhã seus áudios: “Bom dia princesa. Bom dia lindona.” 

Daí ele marcou um almoço comigo e meu irmão, queria conhecer meu irmão. Eu fiquei meio, como posso dizer? Aflita? Receosa? Algo dentro de mim me fazia sentir insegura. No dia do almoço ele sumiu. Era uma quarta-feira, dia de sua de folga. Eu aproveitei seu sumiço e peguei um cara muito gato gostoso e legal, que conheci no Tinder. Mas, depois do prazer, meu coração voltou a sentir. Eu não tava entendendo nada. Então, fui a sua casa procurar saber o que houve.

Ele, totalmente pelado apertando um tabaco, não quis conversar e nem olhou na minha cara e me mandou ir embora. Desde então nunca mais nos vimos e nos falamos. Desde então estou bloqueada em tudo. Uns dez dias depois ele tava morando com a namorada. Não entendi nada. Como assim, namorada? Eu passava uma semana na casa desse cara!

Ainda hoje dói. Ainda tentei ligar, mandar mensagem, email, sushi, livro, tentei de tudo. E nada.

Ainda hoje estou muito magoada. Foi uma relação muito breve e intensa. Mas, quando eu disse: eu te amo, foi verdadeiro, nunca disse isso em vão. Ele também me disse, várias vezes, e eu acreditei.

Como disse logo no início, devo estar louca, obcecada, doente. Vejo vários vídeos no Youtube de tarô do capricórnio e quando há uma leitura que diz: o passado está retornando e ele te ama, eu me encho de esperanças. Ele bem que podia aparecer. Eu queria ao menos conversar: olhos nos olhos. Eu aguento toda a verdade.

Se tudo isso é ridículo? Sim. E pra uma mulher feminista empoderada como eu, tem cabimento? Não. Então, eu só posso estar louca, obcecada e doente.

“Faz terapia”! A galera me grita isso em coro. Olha, falar sobre terapia, Lula e linguagem neutra, não dá, eu serei cancelada. Então, pulemos esses assuntos.

De fato estou doente. Não sei se covid-19, gripe ou todas essas questões do coração mente e alma. Na real, deve estar sendo tudo junto e misturado.

Sou bem saudável: durmo bem como bem e faço exercícios. Há anos que não tenho gripe. Quarta a noite senti minhas pernas doerem muito. Mas, ainda assim fiz LPF e Pilates. Logo após o exercício, meu corpo ficou muito quente e minha cabeça pesou muito. Deitei debaixo do cobertor meio tremendo. Acordei na quinta-feira um pouco melhor, hoje sexta-feira, estou um pouco melhor. Mas, sem condições de lavar um copo, totalmente fraca, corpo mole e pesado, cabeça pesa.

Eu estou de fato doente, louca e obcecada. E pobre.

Eu não aguento mais todo mês, desde Abril de 2019, pagar honorários as advogadas e até hoje o juiz não marcou nenhuma audiência. Eu já ganho tão pouco que tô querendo desistir completamente de pagar as advogadas e quando o juiz marcar audiência eu vou só.

Porra, é isso. O machismo empobrece e enlouquece. Putaquepariu!

Tá aí, uma desgraça. Os dois homens que sinto que amei muito, me fizeram, me fazem muito mal. E ainda assim eu consigo ter um olhar generoso e amoroso com eles, eu os conheço e sei o quão sofrem. Ridículo isso da minha parte? Totalmente. Mas, apesar de tudo, “eles não são tão maus assim”. O mais engraçado e curioso, foi que os dois disseram: eu sinto que somos irmãos espirituais. Rio alto.

Deve ser coisa de karma isso, só pode. Deve ser coisa de carne isso, só fode.

Mas, vamos lá… apesar de eu estar doente, obcecada e louca, eu tenho meus limites, risos. E nunca, numa relação com um cara, mesmos estes que amei, estive numa posição, sei lá, como dizer? Submissa? Carente? Eu sempre me impus muito e não tolero mesmo muitas coisas. Tem muita cena que jamais eu atuaria.

Posso estar sendo muito contraditória com tudo que estou dizendo, mas, lembre-se querido diário: estou doente, louca e obcecada. Na real, será que estou mesmo louca e ou obcecada? Depressiva? Nunca irei saber de fato.

É certo que tem dias que dói mais. Eu durmo e acordo todos os dias pensando em H. Eu fiz um livro sobre isso: Para meu amor com H: rascunhos para uma epopeia.
Sempre que recito publicamente este livro, a galera fica em êxtase.

– Onde posso ler?

Ele não está publicado em lugar nenhum. Não dá pra ler. Será que vou publicar ele? Mandei para Lobo, meu editor e veremos o que ele me diz. Mas, este livro vai demorar de sair. Eu queria que tivesse saído em Novembro do ano passado, não foi possível.

Aliás, parece que nada nessa historia com H é possível.

Faz muito tempo que não saio de casa. Por conta do covid-19, mas, principalmente, por não ter grana. É sério, querido diário. Eu recebo a grana, pago todas as contas, faço mercado, compro a maconha do mês a 2 pra 1, e fico totalmente dura. Eu não tenho grana pra pegar um buzu e encontrar um boy ali na esquina e tomar um chope. Eu não bebo, ok, mas você entendeu, né? Risos.

Então, é isso: o caminho do empoderamento para a mulher é muito solitário mesmo. E para a mulher pobre, mais ainda. Socializar exige ganas e grana.

O pior de ficar doente sozinha é você ter que fazer seu próprio chá e sua própria sopa. Pedi uma sopa delivery. Eu não devia ter feito isso, porque veja bem, agora estou dura, risos. Mas, eu de verdade tava muito fraca e sem condições de levantar direito da cama.

Agora, neste momento enquanto escrevo, estou com fome. Terei que lavar a louça e fazer algo pra eu comer.

É assim. Eu sozinha tendo que lidar com tudo meu. É tudo conta minha. Estou lidando, com sempre lidei.

Querido diário, comecei dizendo que devo estar louca, doida e obcecada. Há diferença entre louca e doida? Só se você colocar um acento: doída. Sim, estou também. Doída pra caralho. Até hoje muito doída por N. e por H.

Ao menos eu levo uma certeza, eles me deixam doída, mas só não me deixarão doida, porque isso sou, isso já sou.

Dito isso, vou arrancar forças das minhas entranhas, do meu âmago, do meu cu, pra cuidar de mim. Tentar lavar louça e cozinhar algo e fazer mais um chá. Hoje não fumei maconha, aliás, desde que comecei a me sentir assim, quarta a noite, que mal tô fumando.

Ainda faz frio, ainda uso casaco, ainda chove, ainda tudo úmido.

E estou lentamente me afastando de todas as pessoas egoístas e ingratas. Mas, isso é outro papo.  Até porque estou muito grata as pessoas bárbaras que encontro na minha vida e por ter um irmão massa.

Agora vou lavar a louça e cozinhar. Ter a pia.

Florianópolis, 8 de outubro de 21

17h55

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2 comentários em “Louca, doida e obcecada”

  1. Avatar

    “deve ser coisa de karma isso, só pode. deve ser coisa de carne isso, só fode”. eu li esse trecho e na hora soltei um “c4r4lho, QUE escrita!!”
    seus textos são incríveis, mulher!!

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