Querido diário,

são duas da madrugada, Mariaalice dorme ao meu lado. Estou morta de cansada, mas tão cansada que não consigo dormir. Muita coisa na mente que não descansa.

Me sinto um pouco culpada por não estar dando conta de tantas coisas que tenho que dar. Me sinto desorganizada. Passo o dia lendo sobre mães, escrevendo sobre maternidade, respondendo mensagens de muitas mãeconheiras, reuniões com mães, sendo mãe. 

Até tento falar de outro assunto, mas não tô conseguindo. Cada dia o tema Maternidade e Drogas se faz mais presente urgente pra mim. 

Não vou escrever muito hoje, querido diário. Ainda quero falar sobre cogumelo, sobre <enter the void>, sobre denúncia de estupro, sobre construções de narrativas, sobre uma puta conversa que participei hoje no Brigada Pelos sem Lei onde recebemos a transfeminista: Amara Moira, falamos de seu livro: E se eu fosse puta ou E se eu fosse pura. Às vezes a censura nos obriga a ser poéticas. 

Quero falar como é extremamente cansativo, exaustivo, ser mãe sozinha: acordar às 06h30, preparar café da manhã, deixar Mariaalice assistindo aula, correr pra cuidar de casa roupa comida, trabalhar pelo celular, almoçar, lavar louça, trabalhar no computador, lanche, banho, curtir a filha, voltar a trabalhar no computador, tudo eu. 

E sim, querido diário, sei que falo de um lugar com alguns privilégios: o de trabalhar em casa, de ter comida, maconha e minha filha ter aula online em plena pandemia. Mas, ainda assim, eu estou morta, cansada, exausta. 

A casa tá sempre limpa. A comida é sempre saudável. Mas, eu estou com olheiras, falhando no mestrado e sei que poderia estar sendo muito mais produtiva no trabalho. Queria muito gritar socorro, mas não posso.

Até porque, daqui a pouco volto pra Floripa e a saudade da minha filha vai me invadir mais uma vez, eu sei. Na real, a gente fica uns tempos sem se ver e aí quando estamos juntas, eu e ela, só queremos estar juntas, mas eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e não posso apenas ser mãe como gostaria e como ela precisa. 

Outra hora, com mais calma, menos cansada, eu desabafo melhor sobre tais pontos.

Agora, o que tá me tirando o sono e deixando minha mente inquieta e o coração intranquilo, são os diversos relatos que tenho recebido de várias mãeconheiras que estão sendo ameaçadas de perder seus filhos. 

Não é uma história: são muitas. Os caras, aff que ódio, ameaçando as manas de tirar-lhes os filhos por elas fumarem maconha, na real, às vezes o argumento nem é porque elas fumam maconha, mas o simples fato delas não quererem estar na relação, eles usam este argumento para ameaçá-las.

E não são ameaças em vão. Tiram mesmo. A sogra entra na jogada. A mãe evangélica também. Um horror. Tudo isso por causa de uma planta. Eu queria, quero muito poder ajudar a todas elas.

– Tu acha que se ele pedir a guarda ao juiz e pedir exame toxicológico, posso perder a guarda?

Pode. Sim, mãeconheiras, pode sim. Todas nós podemos perder a guarda de nossos filhos por sermos mãeconheiras. Ainda que sejamos boas mães, boas pessoas, ainda que trabalhemos, estudemos, malhamos, o caralho a quatro, o simples fato da gente fumar um, pode nos fazer perder a guarda de nossos filhos. 

O pai da minha filha conseguiu a guarda provisória porque tinha provas: textos deste querido diário. 

É foda. Eu choro. Eu não durmo. E não sei o que fazer, além de escrever e pautar este debate em todos espaços virtuais e reais que estou. Queria poder abraçar todas essas mães e tranquilizá-las. Queria dizer que vamos vencer. 

É porque eu também quero ficar mais tranquila um pouco. Ser abraçada. Porque, se estas mãeconheiras que me procuram encontram tranquilidades e abraços, eu também encontro. O movimento é único. A tranquilidade e o abraço são nossos. 

Tem histórias muito piores que a minha, que me faz sentir menor ainda. Mãeconheiras que não veem seus filhos há meses. Mãeconheiras que sequer sabem de seus filhos. 

Que ódio. Que tristeza. Que revolta. Que insônia. Puta que pariu!

Mas, eu preciso dormir pra acordar no dia seguinte disposta para mais um dia de luta e correr atrás da glória. Se eu não trabalhar eu não como. Simples assim. E o único dia que passei fome na ilha maravilhosa, prometi a mim mesma que jamais passaria fome outra vez. 

Querido diário, tem muitas mãeconheiras que te leem. Espero que as palavras sejam como um abraço apertado pro nosso coração apertado. Espero também que seja inspiração pra gente seguir vivona. O que nós mãeconheiras fazemos é algo muito maior que a nossa dor, que o nosso ego. É algo pro futuro. Ainda que para nós, é o presente que precisamos. 

Mas, não há outra. Ou a gente luta ou a gente luta. Como? Ah, eu ainda não sei. 

<vou mostrando como sou e vou sendo como posso, jogando meu corpo no mundo>. 

Mas, uma coisa é certa: as mulheres são como água, crescem quando se juntam. Por isso que eu grito: Mãeconheiras de todo o mundo: uni-vas!

17/08/21

02h30

São Félix

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