Querido diário,

minha avó morreu. A mãe de meu pai. Eu não falei com ninguém sobre. Amanhã é dia dos finados e completa sete dias de sua morte. Não quero ainda falar sobre isso, comecei aqui pero desisti. Outra hora eu volto. Vou ler Moluscontos – uma aventura canábica, fumando um dedo de hulk, e rindo. Acendi uma vela. Neste caso, digo vela de parafina, fogo, etc e tal. Acendi uma vela e tô fumando uma vela, então é isso, acendi duas velas. Acho que deu pra entender. Vou lá ri com moluscontos. Depois penso na morte da minha avó.

Voltei aqui. Já se passou o dia dos finados. É dia 3 de novembro, aniversário de Dahra, que também nasceu no México e mora em Floripa. Ela e Mariaalice são amigas desde sempre.

Fiz lpf, pilates, tomei café da manhã, Skype com Mariaalice, consulta no tarô com minha amiga Aradia Cali. Fumei dois becks ouvindo Adriana Calcanhoto pra em seguida começar a trabalhar, afinal sexta-feira tenho um seminário para apresentar no mestrado sobre história e linguagem, inclusive um tema que gosto pacas.

Mas, o fato que a solidão e a canção fazem uma combinação que bate forte no coração e meus olhos desaguam gotas de choro. Eu choro baixinho que é pra ninguém me ver. Chorei pensando na casa que joguei pelos ares. Ou ao menos, é como o patriarcado quer que eu sinta: que escolhi jogar a casa pelos ares. Só que não. Tão injusto isso. Mas, em dezembro vou escrever um ensaio sobre isso, a pedidos de uma editora.

Faz tempo, inclusive, que eu não choro. Pensei que iria chorar por aquele cara, só que não. Não saiu uma lágrima sequer. Meu irmão alegou eu não estar de fato apaixonada, pois se estivesse estaria chorando. Só que não. Eu já não tenho mais idade pra isso. Risos. Mas tem algo de sério nisso, e não tem nada a ver em ser fria ou não acreditar mais no amor, ao contrário, eu sou intensa e acredito no amor. Quem provou um pouco do meu mel sabe. Risos. Mas, eu fui criada com consciência histórica, que veio de meu avô e meu pai, e por isso escolhi também estudar história e escrever história, sem distinções de com H ou não, se é história ou literatura, porra, ficção é a vida melhorada, mas enfim, tudo isso pra dizer que eu sempre faço o dever de voltar os olhos pra mim: minha história. E manos, na boa, eu sou romântica para caraleoooooooo, pero, eu tenho amor próprio e respeito a tudo que vivi e construí. O amor quando é um sentimento isolado é cilada. Amor tem que vir junto com cuidado, responsabilidade, compromisso, presença. Agora, responsabilidade não é apenas pagar conta e trabalhar, e compromisso não é nomear uma relação, pôr um anel e assinar um papel. Mas, enfim, tem gente que não está preparado para essa conversa e não rola conversa.

<às vezes a mania de tensão tira o tesão do tempo>.

Tudo isso pra dizer que fazia tempos que eu não chorava. Apesar de ter motivos. A saudade de Mariaalice. Uma mãe bipolar e borderline que não segura onda e me acusa de destruir sua vida. Desempregada e sem seguro-desemprego. Sem auxílio do governo. Irmão ajuda como pode e fortalece. Minha única renda fixa no momento é 550 reais bem reais, que ganho como escritora para um blog. Há dois meses sem freelas. Mestrado sem bolsa. Aluguel de outubro atrasado e já estamos em novembro. Os honorários dos advogados também estão atrasados. A internet aqui é osso e não chega fibra ótica e tá foda acompanhar todas as atividades onlines com uma internet assim. E várias dívidas. Há um tempo atrás estaria mal com este quadro assim, pero não estou, não sei se é a maturidade, ou por já estar acostumada a viver assim e se finalmente tô conseguindo ser meio budista e viver com pura confiança sem qualquer segurança na existência, assim total presente, ou se tudo isso junto e misturado. Risos. Não estou desesperada ou angustiada. Essa questão de grana segue instável: dia a dia tentando dar conta e sem previsões para garantir provisões.

Bom, e para além de filha e família, vida profissional e intelectual, tem a vida afetiva-sexual… risos. Eu não chorei por aquele que jogou fora o amor que eu dei, isso não se faz. Segue o baile. E não chorei pela morte de minha avó. E não estou indiferente, fria ou alheia.

Eu soube no dia 26 de outubro que minha avó morreu. Mãe de meu pai. Eu não chorei. Eu caminhei. Caminhei fumando um dedo de hulk em silêncio. Pensei na nossa relação. Eu e minha avó. Pra mim ela sempre foi uma mulher fria. Meu avô era carinhoso, brincalhão, amoroso, cuidava de todos e juntava todos. Ele morreu em 2004. E minha avó ficou sozinha. Passou a ir ao cinema quase todos os dias. Ela não sabia cozinhar. Gostava de cinema e séries. De vermelho. Fazia palavras cruzadas todos os dias. Não deixava ninguém incomodá-la. Tinha sua rotina. Era meio bagunceira. Sagitariana, ela.  Era uma intelectual. Lia pra caraleo. Curiosamente, nos aproximamos após a morte de meu avô. Ela, viúva, fez várias viagens e numa destas foi nos visitar em Salvador. E daí eu já tinha 22 anos e já tinha lido muita literatura, pronto, deu super certo nós duas: passamos dias e dias passeando pelos pontos turísticos e conversando sobre literatura e foi aí que eu descobri que ela sabia tudo de Eça de Queiroz e eu o adorava também. O gosto pelo cinema e pela literatura nos uniu. Nos aproximou. A última vez que a vi foi 20 de novembro de 2019.

Eu estava viajando de Floripa para Salvador para lançar o livro Para Maria Alice. O avião fez escala no aeroporto Santos Dummont. Eu não via minha avó e o Rio de Janeiro desde 2013. Eu tinha uma hora de escala. Minha avó morava perto, na praia do flamengo. Peguei um táxi e parti pra casa de minha avó. Meu coração acelerou muito. Só de ver e respirar a cidade, o taxista flamenguista contando vitórias do seu time, eu tava com os olhos cheio d’água. Cresci naquela cidade. A cidade que aprendi a andar falar e pensar. Aqui é presença de meu avô, de meu pai, de minha infância. Cheguei no prédio e disse ao porteiro:

– Boa noite. Sou neta de Cecília Graça Aranha, que mora na cobertura.

– Seu nome, por favor.

– Maíra Castanheiro.

– Pode subir.

– Obrigada.

O mesmo prédio de sempre. O mesmo elevador de sempre, bem antigo e dourado, da época da ditadura. A enfermeira abriu a porta. Só estava ela e minha avó em casa. Dona Cecília estava numa maca. Com sondas. Muito magra. Olhar perdido. Sem movimentos.

– Vó, sou eu. Maíra, filha do Zeca. Eu estou morando em Floripa e estou indo a Salvador para lançar um livro, meu primeiro livro. Daí meu vôo teve escala aqui no aeroporto de Santos Dummont, tenho pouco tempo, mas quis vir ver a senhora.

Ela me olhou. Lágrima rolou. Em mim também. Apertei sua mão. Andei pelo apartamento. Já não era como antes. A enfermeira me colocou ao telefone com minha tia Guta. Nos falamos rapidamente. Me despedi de minha avó e voltei correndo pro aeroporto. Entrei no avião e chorei. Foi a primeira vez que vi minha avó Cecília assim, e ela estava tão parecida ao meu pai.

Dia 26 de outubro minha irmã ligou. Minha irmã não liga, então só podia ser sério.

– A avó morreu. Simplesmente não acordou.

Eu não soube o que dizer. Eu não disse a ninguém. Recebi a notícia e fui caminhar. Só lembrei dela. Lembrei que no Rio de Janeiro tem uma avenida chamada Graça Aranha. Dona Cecília é foda. Foi professora. Uma grande intelectual. O fim de sua vida foi tão sem movimento para uma mulher tão ativa. Tão independente. Penso o quão foi reprimida pela sociedade e casamento e que em algum momento essa repressão traz danos colaterais: o corpo a mente o coração não suportam a repressão.

Dois dias após a morte de minha avó, soube de uma prima com câncer de mama num estágio avançado que teve que retirar as mamas. Ela é da minha idade. Fiquei bem triste.

Enfim, tudo isso pra dizer que tenho muitos motivos pra chorar e não chorava. Tava preso na garganta. O dia aqui amanheceu ensolarado. Depois do Skype com Mariaalice quis ouvir música e  coloquei Adriana Calcanhoto para cantar Pelos Ares. Eu com um beck na mão. Chorei. Ainda pensei: Maíra, sem tempo pra choro que você tem três textos longos e complexos pra ler até quarta-feira. Ah, foda-se. Faz tempo que não choro, hoje vai. Foi. Choveu e as porras. Tá friozinho e cheiro de terra molhada. Barriga ronca. E agora eu dou risada. Vou esquentar um rango pra comer e depois estudar.  

Eu só queria dizer que Cecília Graça Aranha morreu. Que Mariaalice está chegando. Que eu amo mas não como agá. Que as contas estão atrasadas. Que o tempo tá passando e com ele tudo passando. Que expectativa só é bom quando se tem perspectiva. Que <guardo inteira em mim a casa que mandei um dia pelo ares. E a reconstruo em todos os detalhes intactos e implacáveis>.  E que em novembro do ano que inicia eu vou lançar um livro de poesia: Para meu amor com H, mesmo quando se diz que já acabou. Que eu sou paciente mas tem coisas que eu não des-espero. E no mais tudo na mais perfeita paz, sendo que eu assumo. Agora a fome e a sede bateu de um jeito que sou obrigada a parar de escrever. A chuva passou. O sol abriu de novo. O choro acabou.

Floripa, 3 d novembro de 20

15h43

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