Querido diário,

Cá estou num domingo a noite solzinha ouvindo Chico Buarque, fumando um beck curto e grosso porque a seda grande acabou e tô com preguiça de ir a rua comprar e inclusive preciso descer o lixo que tá se acumulando.

Aliás, muita coisa tá se acumulando. Tô periga a ser desligada do mestrado porque perdi duas disciplinas.

Eu tô precisando muito ter disciplina, e até tenho, mas preciso focar e ter mais disciplina ainda. Só que antes de ter disciplina, eu preciso ter tesão.

<Sem tesão não há solução>.

Ainda não considero tudo perdido, mas real que eu tô cansada, exausta, magoada, angustiada e frustrada.

Tenho trinta e muitos anos e ainda muita instabilidade financeira. Sempre isso. Este rolê de pagar conta consome muito de minha energia e tempo.

Veja bem, eu não quero ser ingrata e reconheço meus privilégios. Estou trabalhando em casa, crio conteúdo sobre Maternidade e Trabalho, e consigo pagar as contas. Não sobra pra um passeio ali na esquina, mas consigo manter aluguel comida maconha água luz gás internet. O lance, é que toma muito tempo produzir conteúdo diariamente na internet, lê muitos textos, buscar muitos dados. Engajar o debate.

Nisso resulta que o mestrado vai ficando de lado e meus livros parados.

Ah, tem também os compromissos que a gente faz simplesmente porque a gente quer e nos move. Aí, tô produzindo bastante conteúdo também sobre Maternidade e Drogas.

Passo a semana me dedicando sobre Maternidade e Drogas, Maternidade e Trabalho. Aí, no fim de semana penso: vou me dedicar ao mestrado, aos meus livros, e estudar sobre Drogas, história da poesia marginal, da contracultura, filosofia clássica e decolonial e ainda lê um romance. Só que não. Chega o fim de semana e tudo que eu quero é ficar de boas na lagoa, só vendo a vista. No fim, acabo sempre trabalhando um pouco, estudando um pouco, lendo um pouco, escrevendo um pouco, cuido de casa, de pele e cabelo, faço exercícios, cuido de plantas, ouço muita música.

Mas, não tô de fato conseguindo produzir o que quero e devo. Me falta disciplina e tesão, tempo e dinheiro. Na real, acho que mais dinheiro mesmo.

Essa semana fiquei e estou bem melancólica ruminando minhas frustrações. Sentindo os 40 anos batendo na porta. E daí? E daí que a beleza não veio, a grana não veio, o amor não veio.

Parece que nunca vai chegar o dia em que poderei dedicar meu tempo escrevendo apenas o que é m-eu. Até porque eu não tenho perspectivas de ter um <teto todo meu>.

Eu preciso urgente comprar uma cadeira pra escrever, a que uso tá fudendo minha coluna, mesmo eu fazendo pilates. Também queria comprar um bom som, uma tv pra ver netflix na cama de boa, um fogão novo, uma panela de pressão, um liquidificador, um wok, enfim, parece que outra coisa que nunca acaba é lista de casa.

Estou cada dia mais só. Faz tempo que eu não trepo e se fosse em outro momento eu já estaria procurando algum velho contatinho, chamando  o motoboy, baixando aplicativo. Mas, eu cansei de ser sexy. E não tenho vibrador. Acho que no fundo eu sou muito careta e romântica. Quando muito chapada e excitada, pratico amor próprio e me satisfaço.

Talvez eu esteja ficando viciada de solidão. Não acredito em autossuficiência mas,  pra as pessoas, eu já não tenho paciência. E não finjo. E na solidão tenho encontrado conforto, silêncio. Lido com tudo. Tem dias que simplesmente não uso a voz.

As relações virtuais me esgotaram. Apaguei todos os contatos da minha agenda. Todas as conversas de whatsapp e pretendo dar um tempo de instagram.

Até setembro de 2018 eu era uma pessoa sem celular e ainda assim super comunicativa. Atualmente uso muito o celular como ferramenta de trabalho, então não consigo simplesmente me desfazer dele. Mas, mudarei minha relação com ele e o usarei apenas para trabalho ou família. Já não mantenho relações e conversações por redes sociais. Estou me tornando uma anti-social virtual.

Obviamente que faz pouco tempo que lancei meu livro e sei da importância de estar no instagram pra ser vista. E vendida. Mas, isso de fato tem me sugado de uma maneira e me dado muita angústia porque a sensação de fracasso é grande.

Neste momento, que estou cheia de frustrações e angústias, as redes sociais só potencializam isso, e por mais que a gente se eduque para o bom uso disso, fica difícil manter tranquilidade num ambiente tão tóxico.

Eu me decepciono muito com mães, escritoras, influencers, ativistas, quando vejo a vaidade acima da sororidade.

Eu nunca me senti de fato uma ativista, mas as pessoas começaram a me colocar assim, foi muito orgânico. E quando vejo que os ativistas canábicos em sua maioria é: limpar prensado, limpar piteira, fazer haxixe, dica de autocultivo, culinária canábica, etc, me dá muita preguiça.

Os debates mais profundos sobre a maconha e drogas, sobre maternidade, não vem dos e das influencers, não vem com cupom de desconto. É real.

Eu tento ser radical, eu acredito na raiz das coisas. Talvez eu seja muito crítica e exigente comigo mesma, buscando ética e coerência. Eu me coloco sobretudo como anarquista, ou seja, anticapitalista. Eu me coloco como uma intelectual. Como antropofágica feminista. Estou a cada dia trabalhando mais a minha espiritualidade: não tenho ritual, meditações e orações. Tem trabalho. Tal como a intelectualidade: trabalhando. De fato o trabalho dignifica, mas o trabalho que falo e tenho feito é um trabalho de ocupar-se de si e desde nossas tarefas domésticas, nossos movimentos do corpo, vamos adquirindo faculdades humanas para evoluirmos nossa alma.

E como estou querendo resolver minhas angústias, tô precisando ficar em silêncio. Ainda que seja preciso estar ali nas redes sociais pra vender, opto agora por me retirar um pouco.

Pensando muito seriamente em dizer para as advogadas que não pagarei mais os honorários e dispenso os serviços. Quando o juiz marcar audiência, eu mesma irei me defender. Eu já ganho pouquíssimo e há 2 anos e meio que pago mensalmente advogadas, aff, cansei.

Como disse, estou cansada, exausta, magoada, querendo partir e nunca mais voltar. Mas, ainda não irei partir, só quero ficar na minha. Virgínia tá louca pra crescer e aparecer, preciso dar atenção a ela. Aquele livro de poesia: Para meu amor com H: rascunhos para uma epopeia, preciso mandar pro Lobo pra gente adiantar a produção dele, será que consigo lançar ele em novembro?

Olha, querido diário, tá aí outra coisa que ainda mexe comigo é esse poema problema teorema dilema. Nem vou falar disso. Deixa quieto.

Eu choro com Chico Buarque. Repito. Grito. Sinto.

Voltando para as redes sociais, eu sei que ser escritora é difícil pra caralho e que talvez eu nunca consiga sobreviver de minha arte, mas tem coisas que dinheiro não paga. Não é clichê, é verdade este bilhete.

– Mai, tive coragem de contar pra minha filha que fumo maconha. Agora não preciso fumar mais escondido. Queria te contar porque sua coragem me deu coragem.

– Mai, eu tomei coragem e criei um blog, você me inspira.

São mensagens de pessoas bárbaras que você, querido diário, alcança e  nos conecta. E isso de fato dá muito sentido a tudo, fortalece e cresce.

Eu não tenho como abandonar o diário, embora eu penso em ter um diário íntimo, pois este, por mais livre que tento ser, tem suas limitações. E eu não quero brigar com o mundo, até porque repito: estou cansada de guerra.

Não posso abandonar o diário, porque é meu romance possível: eu escrevo nos intervalos da emoção. É um encontro comigo mesma: escrita de si escrita criativa e curativa, e por isso, penso que para avançar neste meu processo, talvez seja bom voltar aos diários íntimos trancados com cadeados.

Por agora, tô querendo me dedicar a Virginia, lançar a poesia, ensaiar umas ideias. E quem sabe um romance. Meu sonho, querido diário, um romance. No papel e em carne e osso.

Acabou Chico, toca Chopin. Vou voltar a ler relatório da ONU. Boa noite.

Floripa, 19, de setembro de 21

22h09

Pix para fortalecer: mamairato@gmail.com

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2 comentários em “O romance possível”

  1. Avatar
    Bárbara Honório Cruz Brichta

    Também sinto as redes sociais sugando minha energia… por outro lado me conecta com meus queridos distantes. E ainda me apresenta VOCÊ, escritora da sinceridade, mãeconheira possível. Tentemos achar o caminho do meio pra sobreviver neste novo mundo. Texto mara, como de costume! <3

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    1. aldeiadosaber

      Ótima pontuação linda! A faca sempre amola pros dois lados né? precisamos ficar com o lado que acolhe! e aqui a gente se conecta e se acolhe!

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