Querido diário,

tava aqui pensando que tudo que eu sei, aprendi com meia dúzia de livros e o resto tem sido experiências. É me fudendo que tô aprendendo. Cre-ser dói. Cheguei neste pensamento porque geral acha que eu já li de tudo e leio pra caralho. Eu li muito quando adolescente, aliás, as coisas que aprendi com meia dúzia de livros foram dos livros que li na adolescência e na infância. A vida adulta é só frustração, contas e vaidade. Não tenho tanto tempo assim pra ler e ainda me distraio muito com entretenimentos capitalistas: redes sociais, netflix e homens, por exemplo. Mas, eu tento e todo dia leio algo. Eu tento ler tudo que quero e preciso. Só que ainda é pouco. Mas, é que geral não lê. Porém, não é essa a questão. A questão é que de fato eu tô vivendo e aprendendo, me recusando sempre a jogar, nem sempre ganhando e sempre perdendo, mas tô vivendo e aprendendo e é na prática, na ação.

Essa semana conversei com várias manas. Até fizemos uma live espontânea no instagram. O tema: relações. Deveria ser relações na verdade, mas sempre acaba sendo homens.

Puta-que-pariu!

ODEIO GOSTAR DE PICA, MAS AMO.

É foda. Sempre que vamos discutir relações as questões de gêneros evidenciam os problemas que são os dilemas que nós manas temos que enfrentar dia a dia.

Hoje mesmo, conversei com três manas e nós três vivemos situações parecidas, ou seja, o problema não é nosso, é deles essa conta.

 – Mai, fazendo…?

– Oi miga, nossa. Tô acordada desde as 10, mas só vou tomar café da manhã agora.

Risos. Já era mais de quatro da tarde.

– Quer ligar?

– Tá, pera que vou me ajeitar aqui e te mando um link pra gente falar pelo computador, que daí te ouço melhor.

Peguei meu Mac, minhas frutas, raízes e café. Passei o link pra minha amiga.

– E aí amiga?! Como cê ta?

– Oi linda, ai que inveja. Tu de bikini e eu aqui de casaco. Tá muito frio aqui hoje.

Enquanto tomava café da manhã, conversava com minha amiga de Salvador que estava deitada na rede com uma pinça tirando alguns pentelhos de sua vulva, e logo o assunto homens veio a tona.

– Mana, é surreal. Não dá pra entender. Eu tô aqui de boas no meu canto na lagoa e os caras só aparecem pra perturbar. Porra. Na quinta um me chamou pra uma trilha e na hora H desmarca. Aff. Pra quê me chamou desgraça? Aí hoje, um outro cara disse que queria fumar uma flor comigo e eu beleza, chega aí. Ele disse: vou tomar banho e vou de uber. Em dez minutos. E eu, ok. Isso foi as 15h15. Mana, agora já são 17h20 e o cara nem manda mensagem?!

– Amiga é ridículo, eles são muito idiotas. Hoje eu também chamei um cara pra vir aqui em casa, ele disse que vinha, veremos. Mas, pô, nada a ver estes caras aí. Pra quê eles fazem isso?

– Ah rei, sei lá. O cara que vem me convidar. Eu nem tenho números deles salvos na minha agenda. Não os sigo no insta, nada. Tava aqui quieta, saca?

– Amiga, quando um cara deste tipo que já tem todo um contexto e historinha de que já foi vacilão, não tem que ter perdão.

– Ah, com certeza. O cara que me chamou pra trilha, aff, na hora eu deveria ter dito: vai tomar no cú. Nossa… que ódio destes caras.

– E aquele outro boy que tu ficou?

– Aff… nossa… otário também. Antes da gente ficar, ele super interagia comigo no instagram etc., respondia sempre as mensagens e agora tá me ignorando. Mana, na moral, se eu soubesse que ele só iria me comer e depois me ignorar, ok, eu até poderia aceitar e lidar, mas daí eu colocaria um preço. Porque, porra mana, os caras fazem a gente de puta! Aff…

– Desnecessário ignorar, né? O cara não é obrigado a ficar de novo, ficar afim, nada disso, mas o mínimo de respeito, né? Pô, todo mundo adulto. Se antes vocês se falavam de brother, poderia só seguir falando de brother. Mas, amiga, os caras não sabem lidar.

– Mana, é muito foda porque é com geral saca. E na hora a gente se sente uma merda, culpada, o que fizemos de errado? Ou então ficamos procurando tentar entender o cara do tipo: ah, ele deve tá triste, com problemas no trampo ou trabalhando muito, aff, mana, se fuder na moral.

– E o carinha de hoje? Não mandou mensagem até agora? Amiga, manda, pergunta: qual foi? Vai que ele foi atropelado.

Risos.

– Mana, na boa nem quero saber. Olha que coincidência, tanto o de quinta quando o de hoje são leoninos.

– Ai amiga, isso de signo não tem nada a ver. Porra, os caras são idiotas mesmo, otários! É um padrão mesmo de comportamento. Todos fazem isso, não respondem, ignoram, fazem joguinhos, só curtem foto e interagem contigo quando querem te comer, depois que come já foi.

– Mana, as vezes fico pensando se ser puta não é um ato político saca? Porque rei, os caras já nos tratam como puta e não nos pagam. É total precarização do serviço. Porque eles nos fazem de putas terapeutas e empregadas. E não pagam e só nos trazem prejuízos. Porra, tá foda.

– Olha, por que a gente não gosta de mulher hein? Nossa, eu já tentei…

– É amiga, eu também… mas a gente gosta mesmo é de pica, né? Odeio gostar de pica, mas amo.

Risos.

– Não é só pica né, amiga? Tem os braços.

– Nossa, braços realmente… dou valor!

Risos.

– E porra um peitoral assim… durinho suando…

– Nossaaaa, sim… Mas ó amiga, baixei o tinder novamente. E mana do céu, todos os caras que já comi nesta ilha estão lá! Muito pequena essa ilha, na moral. Ah, olha como botei na minha descrição, pera aí, deixa eu pegar o celular pra ver. Aqui, coloquei assim: Não busco relação. No máximo uma foda fixa. Uma não-relação saudável. Não busco amigos.

– Boa, gostei. É isso, foda fixa. Mas aí amiga, tem que manter uns 5 destes. E sim, não buscamos amigos.

– Já tenho amigo pra caralho e tô de boas de amigos. Agora amiga, achar 1 que preste já é difícil, imagina 5.

– Olha, depois que baixei o tinder, parece que tudo se moveu. E eu tô com uns 5 contatos aí. Mas, tem 2 que eu gosto mais. Aliás, tem 1 que é o que eu mais quero mas é justo o que me rejeita.

– Aí é foda também. Quando a gente encontra um massa pra transar a gente quer manter uma frequência, né?! Mas, os caras se emocionam muito, eles não sabem lidar. Eles acham que por a gente querer transar com certa frequência com eles, é porque queremos namorar, casar, estamos apaixonadas, etc. Mana do céu, eu não aguento mais este rolê.

– Por isso que tem que ter uns 5 amiga.

– É, baixei o tinder… tem vários matches mas… sinceramente, não tô empolgada com nada. Queria mesmo era aquele que tá me ignorando.

– Ai amiga, a gente quer sempre o que rejeita a gente… pense nisso…

– Porra, o que mais tô pirada não é ele me rejeitar rei, tipo não quer, beleza. Ok. Mas, mana, ignorar? Aí é muito foda, porque aí não dá nem pra ser brother, nada, e é falta de respeito, cuidado, sei lá…

– É, mas pra eles é muito normal fazer isso. Não responder, ignorar. Porque daí passa um tempo eles aparecem, chama pra uma trilha, fumar um e a gente faz o quê? Ah, bora…

– Ah amiga, não precisa me jogar na cara! Puta-que-pariu! Olha, eu tava conversando anteontem com Bárbara sobre isso. Que eu me sinto super bem resolvida, de boa com a solidão, amo a solidão, me sinto empoderada, mas quando me vejo nestas situações com os caras percebo que ainda tô vivendo de migalhas e passando pano pros caras.

Pausa. Querido diário, abre parênteses. Nossa, escrever isso é difícil. Falar isso é difícil. Me senti mais humilhada e culpada ainda ao perceber que ainda aceito migalhas e passo pano. Eu sou empoderada caralhooooooooooo! Horrível me ver assim. Me sentir assim. Mas, ok. Não é pra lidar com a verdade? Então, vamos lá! E lembre-se: a culpa é do patriarcado, sempre. Fecha parênteses. Voltemos pro diálogo.

– É amiga, todas nós estamos nessa, por mais empoderadas que sejamos.

– É sim, e daí vejo que tenho mesmo que fazer o exercício de não dar nenhuma moral pros caras. Tolerância zero. Tipo, mana, é um exercício mesmo e sabemos né, o caminho do empoderamento para nós mulheres é muito solitário.

– Com certeza. Mas também, uma vez livre a gente só vai por mais liberdade…

– Isso… até porque ainda não somos livres mesmo, senão a gente não passava pano e não aceitava migalhas. Cara, mas também, se ligue, eu até falei disso numa live com outras manas sobre isso que estamos conversando aqui. Que é o seguinte: é por isso que o feminismo é tão necessário. Porque precisamos mesmo ter essa consciência coletiva, este pacto coletivo. Porque cara, é doloroso também este empoderamento solitário. A maioria tá lá jogando o jogo do patriarcado do capitalismo de relações líquidas o caralho a quatro e quem não tá jogando, tá fora do jogo, tá se fudendo, bom, mas também né, quem tá no jogo tá se fudendo também, enfim. Mas, é isso rei. Por isso que a gente precisa do feminismo, pra essa consciência coletiva.

– Total.

– Mana, mas semana passada o motoboy veio. Nossa rei este é o melhor rolê. A gente não tem rede social telefone não nos falamos nunca, ele aparece de surpresa e sempre na hora certa, boy magia total.

Risos.

– Amiga, já tem um tempo essa história, né?

– Amiga, tem quase 2 anos, pire aí. E é sempre um sexo intenso e carinho, aff, ele é muito gostoso, a gente transa toma banho fuma beck conversa e pronto. Sem expectativas angústias inseguranças ciúmes, nada. É uma não-relação muito saudável e funciona muito e a gente sempre tem muito tesão e carinho.

– É amiga, é massa ter uma história assim.

– É por isso que também me dá preguiça o tinder, porque eu já tenho o motoboy. Mas, sim, ele é muito assim, também, né… sei nada da vida dele mesmo, enfim… mas se for só por sexo, ai já tenho ele, porque transar com estes que depois vão te ignorar, bloquear, sumir, aff… já deu.

Eu e minha amiga ainda conversamos mais um pouco e nos despedimos. Conversei com outras amigas. Uma outra amiga tava muito frustrada e chateada porque o cara que ela fica deu perdido nela.

– Novas. Aff, comigo também. Manas, por que eles não conseguem ser sinceros? Sei lá, só dizer não?!

– É amiga, esquece ele.

– Tô afim de falar, tô muito chateada.

– Te entendo, fale. Eu quase sempre falo. Mas, hoje eu na maioria das vezes só ignoro, porque sei lá, cansei mesmo.

– É amiga… amanha vou aí, tá?! Ou você vai tá com algum gatinho?

– Não, pode vir.

– Ai mana, eu não queria mais passar por isso.

– Eu também não. Amiga, agora vou escrever um pouco no diário.

– Eita, tá. Vou querer ler.

– Odeio gostar de pica, mas amo.

– Idem. Kkkkkk

– Acho que vai ser o título de hoje.

Pedi uma pizza. Pausa. Vou comer a pizza, depois volto. É querido diário, comi a pizza, muito gostosa ela e é foda porque estamos aqui falando de homem e vou comer pizza e lembro logo de quem? Do pizzaiolo, é claro. Sempre que como pizza lembro daquela desgraça! Aí Só Pra Contrariar eu comi a pizza me sentindo fazendo amor com outra pessoa mas meu coração vai ser pra sempre teu... Ah, peraí que não vai não, uma hora este amor morre, não é possível… fica dentro do meu peito sempre uma saudade… Nossa, manos do céu na sequência: como é que uma coisa assim machuca tanto? Que toma conta de todo meu ser, é uma saudade imensa que partiu meu coração, é a dor mais pura que a pessoa pode ter. É um vírus que se pega como fantasia, num simples toque de olhar. Me sinto tão carente em consequência dessa dor que não tem dia e não tem pra acabar. Aí eu me ACABADO FUMANDO MUITOS DEDOS DE HULKS e que neles estejam a solução. Meu deus, não, eu não posso enfrentar essa dor que se chama amor, toma conta do meu ser, dia a dia pouco a pouco já estou ficando loucaaaaaaaa….

Tô aqui gritando, porque eu sozinha, querido diário, eu piro muito. Dentro de minha casinha eu saio total da casinha. Mas, eu choro baixinho que é pra ninguém me ver.

É foda, porque já tem muito tempo essa história e porque eu ainda não esqueci, dissssgraçaaaaa?! Nossa, que difícil viu?! Cadê a razão, Maíra? O feminismo? O empoderamento? A autonomia? Aff, é muita onda viu… e olha que tô de boas, risos. Ou eu tô muito loka e já normalizei e acho que tô de boas. Mas, é foda quando algo acaba assim do nada: Era só dizer pra mim que não queria mais, que tudo se acabou como um vento forte que passou. Eu te amei e hoje sofro… Pausa. Vou ter que fazer um dedo de hulk embalada nessas canções e reflexões, já volto. Voltei, mas antes falei com minha comadre no whatsapp uma coisa:

– Por isso que temos que contar nossas historias, romper o silêncio, porque a culpa e a humilhação e a vergonha moram no silêncio, quando a gente rompe o silêncio e percebe que outras manas tão na mesma situação, percebemos que o problema não é nosso.

– Tem muita gente falando sobre, mas um suposto rei já dizia: todos estão surdos.

É verdade. Os homens estão cegos pelos seus egos. Frágeis diante das mulheres ágeis. E hoje mais do que nunca sinto a necessidade de realmente encarar mais ainda de frente: a autonomia o empoderamento o amor próprio o autoconhecimento o cuidado de si ocupar-se de si mesmo. De fato seria muito mais suave se estivéssemos juntas. Mas, não estamos. Estamos um pouco mais, mas ainda não está sendo suficiente. E são muitas as razões e os contextos. Mas, o próprio exercício de autonomia empoderamento amor próprio autoconhecimento cuidado de si ocupar-se de si mesmo, ainda que se faça fundamental coletivo, os indivíduos precisam começar, autonomia que chama. Este exercício não é fácil, ele traz um verso do poeta Alberto Caeeiro (Fernando Pessoa): o mal do mundo vem de nos preocuparmos uns com os outros.

Os homens, todos: pai irmão amigo marido namorado primo tio padrinho, vão nos machucar. A gente nem sabe direito quando e porquê começou porque já faz tanto tempo, e todas nós estamos cansadas exaustas e magoadas. É sozinha que curamos nossas feridas. E para sarar: temos que abandonar os homens e tratá-los feito bichos: só fuder e só se for gostoso. Antropofagia feminista que chama, tô inventando isso agora.

p. s. E não é que já é aniversário daquela disgraça? O cara que mais amei? E o que mais odeio. Aff, eu tenho tanto pra lhe falar mas com palavras não sei dizer, mas como é grande o meu ÓDIO POR VOCÊ.

Vou dormir que as 08h00 tenho yoga com Paula Cersosimo, começar a semana alongando respirando e meditando. Tô amando. E tô caminhando todos os dias. Comendo bem. Só falta encarar o mestrado e vir grana, porque tá massa de trampo e produção e rotina.

Floripa, 31 de maio

01h41

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2 comentários em “Odeio gostar de pica, mas amo”

  1. Avatar
    Bárbara Brichta

    Seus textos nunca decepcionam. Muita verdade, nua e crua. Sinto uma identificação tremenda e isso acalma a alma. Continua sempre escrevendo que sua escrita cura. Importante demais.

    0

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