Em janeiro deste ano, a partir de minha leitura do livro Reflexões sobre o feminismo de Rebecca Solnit, comecei a perguntar-me quais mulheres eu leio. E me dei conta de que são bem poucas. Logo eu, leitora assídua, havia lido algumas escritoras apenas.

Minha formação literária se deu em casa. Meu avô paterno e meu pai foram minhas maiores influências. Meu pai, poeta e escritor. Meu avô, filósofo, historiador e poeta nas horas vagas. Ambos intelectuais e leitores assíduos que me apresentaram um mundo de biblioteca. Conheci os clássicos pelo meu avô e os marginais pelo meu pai. Um mundo de biblioteca masculina.

Ao mesmo tempo que eu lia Rebecca Solnit, onde ela transporta a importância da mulher escrever e contar sua própria história, estava lendo uns de meus autores preferidos: Charles Bukowisk, mais precisamente seu livro Mulheres.

As leituras se cruzaram e me fizeram pensar na minha formação literária e de como isso também se reverbera nas minhas perspectivas de mundo e nas minhas relações.

Demorei muito anos pra descobrir que minha avó paterna, a esposa do meu avô intelectual filósofo historiador jornalista comunista, era também uma intelectual e uma leitora assídua. Foi ela quem me apresentou Eça de Queiroz, o qual ela conhecia tanto a obra quanto o autor por inteiro, e li várias de suas obras e juntas conversávamos sobre. Foi através da literatura, e já adulta, que eu pude de fato conhecer e me relacionar com minha avó paterna.

Demorei muitos anos para dizer que minha mãe é poeta, ainda que não tenha publicado nenhum livro e que após a separação caiu em depressão, encontrou prazer refúgio e acolhimento nas drogas, foi internada diversas vezes em clínicas psiquiátricas, clínicas de reabilitação, em manicômio, tratamentos pesados, tentou suicidar-se, mas nunca deixou de ser mulher mãe poeta e pouco foi reconhecida como mãe e poeta.

Ao engravidar, parir, amamentar e me separar, eu pude ver minha mãe como mãe, poeta e intelectual, e aceitar a mim mesma como mãe, intelectual e escritora. Foi reconhecendo minha avó paterna, reconhecendo minha mãe, que pude me conhecer para fazer meu chão. Todavia este chão não termina, porque ele é um devir: it’s a long way.

Na minha formação não estudei nenhuma filósofa. Nem na escola, nem na faculdade. Nem mesmo na disciplina Filosofia da Educação, ministrada por uma professora, que fiz no primeiro semestre de 2018 no programa de pós-graduação em educação na UFSC, havia pouquíssimas filósofas na bibliografia do curso. Curioso, que a maioria eram estudantes mulheres.

Portanto, em meu percurso filosófico intelectual tenho seguido a estrada marginal que me aponta para várias caminhos: Simone de Beauvoir, Bell Hooks, Carla Ferro. Não me atrevo ainda falar delas, pois apenas estou conhecendo-as e o que me move é para além das razões óbvias, é elas trazerem a escrita como instrumento de emancipação da mulher.

A emancipação econômica torna-se fundamental para a emancipação feminina, e no caso para o exercício da escrita que por sua vez irá contribuir para a própria autonomia da mulher, pois contar a própria história é criar a própria história.

Mas quais são as histórias que me inspiram? Quais histórias eu leio? De onde vem minhas ideias? Há algum tempo estas questões têm me atravessado e portanto fui olhar para as mulheres. E a primeira mulher que fui olhar era minha mãe minha avó minha filha minha tia minha prima e eu mesma. Depois me chegou de surpresa pelo correio, enviado por um escritor amigo, o livro da autora Patti Smith. Depois fui olhar Bell Hooks e chorei. E foi buscando olhar estas mulheres e mais mulheres que vim parar no curso de Filosofia e Questões de gênero com Jannyne Sattler (LEFIS/UFSC) e aqui encontrei Virginia Woolf, a qual eu já estava querendo conhecer há algum tempo.

Virginia Woolf em Um teto todo seu coloca em pauta: é possível a mulher ser escritora? Neste ensaio ficcional, Virginia Woolf nos revela como ao longo da história as portas estiveram fechadas para as mulheres escritoras, intelectuais.

“Uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever ficção”.

Diante dessa condição me parece válida a questão se há uma “escrita feminina”. Considerando que essa escrita já nasce da rebeldia, da teimosia, da clandestinidade, da marginalidade. A mulher para ser escritora/intelectual teve/tem que construir seu próprio teto seu próprio chão, construir sua morada. E arrombar algumas portas.

E elas, que outrora tiveram tantas portas fechadas para si tendo que entrar pelas frestas e brechas, são hoje as nossas portas. Nos cabe entrar, nos inspirar com suas ideias concretas e fazer a nossa morada e seguir abrindo as portas da percepção.

E já não entremos pelas frestas e brechas, pois, hoje temos tijolos resistentes arquitetados e construídos por mentes engenhosas que nos dão as bases sólidas para construirmos nossas moradas. Nossas ideias precisam ter um lugar para morar.

 

Maíra Castanheiro

Florianópolis, 26 de setembro de 18

20h05
Ilustração da artista, escritora e psicanalista Luane Campos.

 


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