Querido diário,

terça-feira quase quarta-feira: neste momento é de madrugada, noite fria, vento soprando pra leste – bom pra usar drogas, penso. Risos. Ouvindo João Gilberto, mas como não sou bossa pra ficar na fossa, já mudo para Nina Simone.

Neste momento escrevo com uma angústia no peito. Eu passei o dia de boas. Pero, as incertezas – ou seria insegurança ou seria medo? Como saber: incerteza, insegurança ou medo? Nenhum destes sentimentos me paralisam, eu os vivo pero tampouco morro por eles. Morrer por/de medo insegurança incerteza, não me apetece.

Eu sei bem o que me causa neste exato instante uma angústia no peito.

<I am feeling good>.

Já faz um tempo que estou tentando lidar com o tempo e dar tempo ao tempo. Pero, o tempo não é algo separado de nós e nós simplesmente esperamos ele agir, né? A gente age junto. Aí é que tá. O lance deve ser ajustar-se. Tô tentando, ô se tô.

Hoje foi o primeiro encontro do grupo de estudo sobre o amor, com a direção dos queridos João e Renato que propuseram um estudo sobre o amor baseado no livro La Maestría del Amor, de Miguel Ruiz.

O livro se propõe a ser um guia prático para a arte das relações. O autor é mexicano e nos traz os conhecimentos esotéricos toltecas.

Algumas palavras ditas no grupo ficaram guardadas para mim: solidão; auto sabotagem; padrões; empatia; medo; angustia; racionalização.

Fiquei refletindo sobre elas. Um beck. Dois becks.

– Mai, o que você está sentindo?

– Incerteza.

– Incerteza é um sentimento?

– Acho que é medo. É… confesso que é medo. Desde julho estou com um mantra e o exercitando afim de apreendê-lo. De Rudolf Steiner:

viver com pura confiança sem qualquer segurança na existência.

Viver com pura confiança sem qualquer confiança na existência.

Viver com pura confiança sem qualquer confiança na existência.

Viver com pura confiança sem qualquer confiança na existência.

Eu estou amando. Ainda que eu tenha medo. E percebo que meu medo mora justamente no futuro: o medo dessa horta que estou regando não dar fruto. Eu não tenho dúvidas da fertilidade da terra, mas eu tenho um certo frio na barriga, ou seriam borboletas no estômago? Tudo junto e misturado.

Eu estou amando. Seja o que for amor, mais uma vez me sinto amando. Ainda que eu tenha medo. E percebo que o medo mora justamente na insegurança: que acontece na ausência. Me toca a ficar com o presente, destes com laços bonitos e suaves, coisa nenhuma.

Lua cheia e sempre acontece alguma coisa aqui e quando vejo procurei sarna pra me coçar. Depois de uma pequena atitude impulsiva, prometo a mim mesma deixar de onda e ficar quieta na minha que ninguém me bole.

Mais um beck. Em novembro do ano que inicia vou lançar um livro de poesia. Eu nunca pensei que um dia fosse publicar poesia. Culpa da pandemia. Eu nunca pensei que um dia fosse baixar o Tinder. Culpa da pandemia. Eu nunca pensei que fosse ficar tanto tempo sem minha filha. Culpa da pandemia. Em novembro do ano que inicia Maria Alice chega. Comprei hoje mesmo as passagens.

Falando em amor, penso logo na minha pequena. Saber e sentir que ela está bem é o que me deixa mais feliz. Pero, não há nada melhor do que star com ela. Star conosco. Não há nada melhor que sentir seu corpo cheiro pele voz conviver com ela, dormir com ela, enfim, estar com ela. E sinto muita falta disso. Muita falta deste amor: de corpo carne karma alma.

Às vezes, confesso, tenho medo de que a gente se acostume a distância… pero, isso logo passa quando estamos juntas, é tanto amor que não cabe in my dark side of the word.

Hum… tô aqui escrevendo e percebendo… O meu medo e minha insegurança estão na ausência. Preciso pensar/sentir/entender sobre isso. Ao menos, isso apareceu duas vezes aqui nestas minhas reflexões.

É sobre o amor que quero falar. Sem medo de ser piada. Sem perder o fio da meada. Sem rimar com dor. Preciso de um chá pra me ajudar a digerir essa angústia no peito. Nina Simone me acompanha. Dormi.

quarta-feira quase quinta-feira: Já é quase de madrugada. Não consegui trabalhar hoje. Acordei com uma angústia no peito. A insegurança tomando conta. A vaidade. Quando me dou conta tô atuando aquele roteiro de novela que não ensaiei e jogando aquele joguinho que não quero. Conclusão: o improviso deu ruim e perdi o jogo. Com direito a vaia.

Tudo por conta de uma piada. De um ciúme. De uma insegurança. Por vaidade.

<desculpe o auê eu não queria magoar você, foi ciúme sim>.

Acabou o milho, acabou a pipoca.

– Então não era amor…

– Era cilada.

– Amor de verdade não acaba, se transforma.

– Vai saber.

Se relacionar é uma arte: <tem que ter amor na manha> sem artimanha. Conversei com alguns amigos sobre minhas angústias, confusões e inseguranças. Às vezes é difícil elaborar tudo que se sente no presente. Às vezes é difícil saber ser honesto. E acho que só sabemos vivendo. Nem todo mundo está disposto a se relacionar: lidar com conflitos; com as vulnerabilidades; com as fragilidades; com os medos; com as inseguranças, etc.

– As pessoas são profundamente rasas.

Ele disse isso outro dia. Anotou em seu bloco de notas. Notei bem sua letra. Hoje ele me deu um fora.

Ok, você venceu: batatas fritas. Deu até vontade de chorar. Mas não chorei. E não vou chorar.

<eu não vou mais chorar mas se eu chorar vai ser baixinho pra ninguém me ver>.

Pero, sigo acreditando que nosso autoconhecimento acontece também nas relações e no amor. A questão não é ter um relacionamento sério (prefiro divertido) e sim uma relação saudável. Aí me pergunto o que significa uma relação, uma relação saudável.

Se relacionar é uma arte. A arte de lidar com a verdade. Saber ser honesto. Agora percebo: tive medo de minha verdade, de minhas inseguranças. Eu quis deixar o tempo dizer e agir. Mas, ele não age por si só, ainda que seja rei! Eu quis deixar sentir. Eu não quis expor minha insegurança, minha vulnerabilidade, minhas vaidades. Eu quis evitar constrangimentos, eu não quis assustar, eu quis evitar qualquer que fosse o rompimento, ou seja, eu não estava sendo honesta comigo mesma: por medo, por insegurança.

Difícil assumir isso pra mim pois, me sinto muito comprometida com a verdade. Sou a pessoa sincera, espontânea mas, percebo agora que me confundi entre meus medos e inseguranças e não soube agir e acabei agindo como eu nunca quis/fiz.

Volto para o livro La Maestría del Amor. Miguel Ruiz nos atenta: somos domesticados e não educados. Nossa domesticação é baseado em castigos e recompensas. Vigiar e punir. E ninguém quer ser castigado, todos queremos a recompensa. Que cilada. Nesta busca pela recompensa, pelo prêmio, busca-se agradar ao outro, moldar-se para o outro e consequentemente vamos criando muitas imagens de nós mesmos e dos outros. Não há lucidez em nossas percepções diante de tantas imagens que criamos por conta dessa vida de bicho domesticado que precisa agradar pra ter sua recompensa, e isso se confunde inclusive com sobrevivência. Que cilada.

Percebo que por vezes meus movimentos estavam pautados na ação do outro. Temos que nos mover a partir de nós mesmos, do que nós sentimos. Sem se importar com o outro. Mais verdadeiro que isso não há.

<O mal do mundo vem de nos importar uns com os outros> Já dizia o poeta. Ok. Vida: tô tomando nota. Coração aqui tá confuso, batendo mais que a polícia e apanhando mais que bandido. Disposta a seguir porque não há outra opção. Não temos controle do tempo e do que sentimos e pensamos. Mas, aprendemos a lidar, a operar. E quanto mais quebro a cara, mais a carne fica curtida. Ouço Tim Maia. Alice Caymmi. Gal Costa. Caetano Veloso. Pink Floyd. Agora silêncio: ouço minha consciência, meu coração.

De tudo a gente aprende e é exatamente por isso que o poeta tem razão: tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

Não chorei. E já não tenho mais vontade de chorar. Ainda bem que falei escrevi ouvi li senti. Não sei como será amanhã ou depois do amanhã: sei que nada será como antes. Nunca é. Só acaba quando termina e sempre algo começa, o fluxo segue, o baile segue. Quando me dou conta, já desatei bastantes nós, e vai ficando mais fluído.

Me deu sono, amanhã termino este papo. Ele não riu da piada: perdi no amor, mas não piada. Eu vou terminar com uma canção, eu poderia fazer uma playlist, e fiz na real. Mas, hoje deixo apenas minha Queixa (de Caetano Veloso), <se eu caio no suingue é pra me consolar>:

Um amor assim delicado

Você pega e despreza

Não devia ter despertado

Ajoelha e não reza

Dessa coisa que mete medo

Pela sua grandeza

Não sou o único culpado

Disso eu tenho a certeza

Princesa, surpresa, você me arrasou

Serpente, nem sente que me envenenou

Senhora, e agora me diga aonde eu vou

Senhora, serpente, princesa

Um amor assim violento

Quando torna-se mágoa

É o avesso de um sentimento

Oceano sem água

Ondas, desejos de vingança

Nessa desnatureza

Batem forte sem esperança

Contra a tua dureza

Princesa, surpresa, você me arrasou

Serpente, nem sente que me envenenou

Senhora, e agora me diga aonde eu vou

Senhora, serpente, princesa

Um amor assim delicado

Nenhum homem daria

Talvez tenha sido pecado

Apostar na alegria

Você pensa que eu tenho tudo

E vazio me deixa

Mas Deus não quer que eu fique mudo

E eu te grito essa queixa

Princesa, surpresa, você me arrasou

Serpente, nem sente que me envenenou

Senhora, e agora me diga aonde eu vou

Amiga, me diga

Florianópolis, 01 de outubro de 20

02h25

triste e com tesão.

2 comentários em “Perdi no amor, mas não na piada.”

  1. Avatar

    Que texto foda! E como fez sentido aqui dentro. Me pego sempre divagando sobre o amor e as relações e como me embaralho e me bagunço toda quando estou amando, quando acho que estou, quando não sei que porra tá acontecendo. Ouvi de uma terapeuta uma vez “as relações amorosas são nosso melhor laboratório de autoconhecimento”. É nelas que a gente descobre, esconde, testa, detesta, dá de testa na parede. Recentemente me enfiei num algo talvez parecido, agi no impulso e levei um fora e ainda tô tentando entender oq aconteceu. Mas a gente sempre ri, sempre acabo fazendo piada das minhas próprias bagunças. “Amei oq vc disse sobre “relacionamento ser divertido”. Se a gente não rir da nossa confusão, intensidade, atropelo, medo e bagunça, as coisas ficam mto sérias. O medo e a insegurança moram mesmo na ausência. E vêm a noite no silêncio atormentar nossa cabeça. Parece que vão nos engolir. “viver com pura confiança sem qualquer segurança na existência.” Vai ser meu mantra. Olha ru criando mantras, culpa da pandemia haha lindo lindo texto obrigada por ele

    2+
    1. aldeiadosaber

      que comentário_conversa mais linda!!! vamos ter este verso como mantra sim! ah, e resumindo: o tempo cura e a culpa é do patriarcado!

      1+

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2 comentários em “Perdi no amor, mas não na piada.”

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    Que texto foda! E como fez sentido aqui dentro. Me pego sempre divagando sobre o amor e as relações e como me embaralho e me bagunço toda quando estou amando, quando acho que estou, quando não sei que porra tá acontecendo. Ouvi de uma terapeuta uma vez “as relações amorosas são nosso melhor laboratório de autoconhecimento”. É nelas que a gente descobre, esconde, testa, detesta, dá de testa na parede. Recentemente me enfiei num algo talvez parecido, agi no impulso e levei um fora e ainda tô tentando entender oq aconteceu. Mas a gente sempre ri, sempre acabo fazendo piada das minhas próprias bagunças. “Amei oq vc disse sobre “relacionamento ser divertido”. Se a gente não rir da nossa confusão, intensidade, atropelo, medo e bagunça, as coisas ficam mto sérias. O medo e a insegurança moram mesmo na ausência. E vêm a noite no silêncio atormentar nossa cabeça. Parece que vão nos engolir. “viver com pura confiança sem qualquer segurança na existência.” Vai ser meu mantra. Olha ru criando mantras, culpa da pandemia haha lindo lindo texto obrigada por ele

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    1. aldeiadosaber

      que comentário_conversa mais linda!!! vamos ter este verso como mantra sim! ah, e resumindo: o tempo cura e a culpa é do patriarcado!

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