Querido diário,

faz frio pra caralho, o inverno chegou bem adiantado e o verão nem veio. Aí, tu já sabe né? Aproveito cada centímetro de raio de sol. O sol de inverno é muito gostoso principalmente porque o céu de Floripa fica muito azul. Tudo blue, tudo flui. E tem sempre as montanhas, o verde sincero o verdeverdade.

Minha paixão por Floripa não passa, não cansa e não enjoo. Apesar do verão chuvoso, da umidade, do inverno, eu amo Floripa a cada dia que passa.

Tive que ligar um pouco o aquecedor para esquentar meus pés, e sim já estou de meia mas mesmo assim, tá frio pra caralho. E moro no alto da montanha na entrada do bosque, frio pra caralhoooo. Tô fumando meu dedo de hulk ouvindo Papa was a rollin’ stone de The Temptations.

Hoje é segunda-feira e como sempre tô recomeçando e adoro. Acordei cedo pra fazer yoga com minha amiga Paula Cersosimo, ao vivo pelo instagram. Estamos fazendo essa prática toda segunda as 08h00, para além de começar a semana alongando respirando, arrecadar PIX para a RENFA – Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas. Esta grana é destinada para as mulheres em situação de rua e vulnerabilidade social. 

Começamos este movimento no dia das mães no qual fizemos um dia especial das mãeconheiras. Foram 12 horas de lives com práticas de yoga, meditação, culinária canábica, sarau de poesia, música, e muito bate papo! Foi muito legal o evento e pudemos trocar ideias com diversas mãeconheiras. Somos muitas, de muitas idades contextos, lugares. A repercussão do evento foi bem bacana e conseguimos arrecadar bastante PIX para a RENFA. O evento foi produzido e realizado por mim em parceria com a Editora Moluscomix e a Linha Canábica da Bá.

Ainda para o dia das mães, escrevi três textos sobre o que é ser mãeconheira. Em cada texto eu trouxe uma perspectiva. Foi um exercício importante e gostei muito do processo e dos resultados. Os três textos foram publicados respectivamente: numa página de instagram de uma tabacaria do Rio de Janeiro (Lets bros – me pagou em dinheiro e kit), nos sites de conteúdos canábicos produzidos por mulheres: Girls in Green e MaryjuanaBr. Estes pequenos freelas me salvaram de comida. Foi o que deu pra segurar de feira.

Após os dias das mãeconheiras, no domingo das mães, segui o baile e as atividades. Além das práticas de yoga, todas as quartas-feiras as 16h20 eu estou recebendo uma mãeconheira que tenha algum livro ou estudo publicado sobre drogas. Primeiro foi com a minha amiga, historiadora e ativista da RENFA: Luísa Saad, que publicou sua dissertação de mestrado em história, cujo título do livro é: “Fumo de negro”: a criminalização da maconha no pós-abolição. Fizemos essa live no insta um dia antes da data que se comemora a abolição da escravidão. A aula-live foi muito suave e produtiva.

Na sequência convidei a escritora, jornalista e dj, também mãeconheira, Natt Naville, que publicou seu livro totalmente independente. O livro de Natt também segue na direção da Escrita de Si, Escrita Criativa Curativa. Seu livro: Somos todos bipolares – a história da garota que conheceu os dois lados da lua, fala sobre sua história e relação com as drogas, música eletrônica, contracultura, misticismo, e como ela descobre sua bipolaridade e como lida. Fala de sua família, internações, relações, saúde mental, etc. A live sobre este livro foi tão fluída quanto é ler o livro.

Esta semana teremos a psicóloga Camila Avarca, também mãe e antiproibicionista, que acaba de defender sua tese de doutorado cujo tema é drogas também.

Estar neste movimento de trocar idéias com várias mãeconheiras, lendo suas produções: teses, livros, poesias, contos, está sendo enriquecedor. E percebo que naturalmente estou focada nisso porque estou fazendo com total prazer e sentido.

Porém, preciso urgente dar conta também do mestrado. Este mês de maio, além de escrever bastante sobre ser mãeconheira, escrevi também sobre literatura infantil e infância e pandemia para o blog Ateliê Materno. E consegui finalizar a faculdade de pedagogia. E estou lendo e amando muito o livro Só garotos, de Patti Smith. Então veja bem, querido diário, porque estou vindo pouco aqui. Olha o tanto de coisa que estou lendo, escrevendo, fazendo… só preciso que tudo isso gere renda para eu pagar as contas.

Este mês de maio tá bem osso: até o momento não paguei aluguel, água e luz. Além de pequenas dívidas. Isso tá me deixando muito preocupada. Tô atrás de trampo e grana mas, tá foda. Lancei uma promoção, coloquei 420 exemplares do E-book Para Maria Alice por R$ 4,20. A intenção é vender os 420 exemplares e pagar aluguel, água e luz, o básico pelo menos. Tô na fé, na batalha diária para atingir a meta, cansa, pero… é assim que se vende nossa arte na praia, botando a cara no sol.

Para concluir sobre trabalho, estou voltando dar atenção para o meu mestrado em História, agora que terminei a faculdade de pedagogia, tenho mais tempo. E eu amo meu tema: A história da relação entre verdade e subjetividade a partir da Poesia Marginal. Preciso olhar para o que tenho produzido, para as ponderações da minha orientadora e dos professores e ajustar o que quero e o que é possível.

Também quero voltar a escrever meu livros de contos sobre Virgínia na pandemia, o livro de Conto de fadas e o livro Homens. Os três eu já comecei, preciso seguir.

O Diário de uma Mãeconheira está indo pra gráfica essa semana. Engraçado, eu não tô nem um pouco ansiosa e nervosa. É um sentimento muito parecido de quando eu estava para parir Mariaalice. Até completar os noves meses, eu queria que o tempo passasse logo pra me livrar de todos os desconfortos da gravidez, mas assim que se completou 9 meses, e eu senti que Mariaalice (mesmo sem saber o sexo) estava completa, pronta e linda e eu já a amava, eu fiquei tranquila e sem pressa e esperei seu momento, seu tempo. E a danada ficou quase dez meses lá dentro, risos. Com o livro Diário de uma Mãeconheira, tá sendo parecido. Durante o processo do financiamento coletivo estive muito nervosa tensa angustiada ansiosa etc. e tal, mas quando deu certo e tive a certeza que será lindo e perfeito, pronto, relaxei. E não tô com pressa, ansiosa, tô suave na nave.

Então, querido diário, sobre trampo e atividades intelectuais é este o resumo dos últimos dias de paupéria.

Ainda sobre este longo mês de maio… estive umas três semanas na cama e isso não é bacana. Passava o dia em jejum debaixo do cobertor e só ia fazer minha primeira refeição já no final da tarde, como as 17h00. Pelo menos eu mantinha meu bom café da manhã: água, água morna com limão, frutas com linhaça e chia, raízes com ovos e café. E Algumas vezes lá pelas tantas da noite pedia um velho combo: hambúrguer, batata-fritas e coca-cola. Muita maconha, casa sempre limpa, mas muita inércia. Nada do que eu lia, ouvia, me prendia. Nem um filme, série, livro. Sem vontade de escrever e nem de me mexer. Tampouco me sentia triste, infeliz. Apenas não queria fazer nada. Nem mesmo ouvir música.

Vick está morando aqui comigo desde a virada do ano. Porém, passa pouco tempo em casa e as vezes passa dias sem vir. Então, fico de fato muito sozinha. No dia 14 de maio, era uma sexta-feira, e eu e Vick estávamos tomando nosso café da manhã e conversando sobre nós. Daí chorei, chorei de saudades de Mariaalice e de toda nossa situação. De nossa história. De minha história com o pai dela. Era isso, três semanas na cama e eu precisava era chorar. Chorei. Não tanto quanto precisava, mas tem horas que é preciso segurar. Segurei. Uma amiga, companheira do mestrado, veio visitar-me. Almoçamos um macarrão pesto canábico. Conversamos muito e esta minha amiga estava numa situação muito cansativa, tóxica, abusiva, desgastante. Ela me contou e desabafou sobre os quilombolas, sobre os indígenas nas aldeias, sobre o esquerdo-macho, sobre Ayahuasca e Maconha, sobre casar, ter filho, se separar. A filha adulta autista. Sobre suicídio. Sobre bipolaridade. Sobre saúde mental. Sobre trabalho. Sobre faculdade. Sobre relação. Sobre sexo. Sobre cobrança. Ufa. Foi uma tarde dessas que eu sentei pra ouvir história, enquanto deixávamos a aula do mestrado em História rolando pelo computador só para marcar presença.

Enquanto minha amiga me contava sua história, ela chorava, ria, refletia. E mais uma vez conversamos da importância de contarmos nossas histórias. Eu também lhe contei um pouco de minha história: drogas, bipolaridade, família, separação, justiça, etc. e tal. Apesar de nossas diferenças havia bastante coisas em comum. Ao ouvir sua história era fácil concluir como o machismo, o racismo, o patriarcado e o capitalismo estão atravessados e sendo responsáveis por tanta angústia, dor, sofrimento, repressão, humilhação.

– Nossa, Maíra. Tu é muito forte e tem muita estrutura psíquica.

Disse a amiga que veio me visitar e desabafar. Sorri gentilmente e pensei que escuto isso desde muito criança: que sou forte, madura. E pensei na conversa que tive com Vick no café da manhã: que não tenho o direito de ser a “louca”, irracional, sentimental, etc. e tal, sou eu quem tem que fazer o papel de entender o sofrimento do outro e tentar deixar tudo mais leve pra Mariaalice. De uma forma ou de outra, estando ou não com a filha, é a mãe, sempre, quem faz o sacrifício.

Trouxe para nossa conversa Rebeca Solnit que fala bastante da importância de rompermos o silêncio. O silêncio, o nosso silêncio (mulheres sobretudo) só é interessante para o patriarcado. É no silêncio que mora a culpa e a vergonha. Mas, quando contamos nossa própria história percebemos que não estamos sós e que sempre tem uma mana que apesar de todas as diferenças, têm uma história comum a nossa. A gente percebe que não é um problema pessoal e sim social, histórico. Romper o silêncio é um grande passo para nós construirmos nossa história. O fazer história enquanto narrativa e práxis. É neste tecido imbricado que a gente constrói nossa colcha de retalho: com várias histórias cujo os fios das meadas costuram nossa coberta de razão.

Os dias passaram e o frio chegou com muita força. No sábado, de 16 de maio, voltei a caminhar diariamente fumando meu dedo de hulk e me senti com mais ânimo. De fato, dormir bem, mover o corpo, tomar sol: aquecer o coração e comer bem,  é vital. De fato, são as regras básica do rolê. Questão de sobrevivência.

Tenho falado com mais frequência com Mariaalice pelo Skype, embora nem sempre ela queira e ok. Risos. A saudade tem sido foda e só eu sei e sinto, principalmente quando estou só. Principalmente quando acordo. Muitas vezes demoro muito de levantar da cama porque logo que abro os olhos vem a minha consciência: aqui estou mais um dia, acordando sem minha filha. Desempregada. Tentando a todo custo não ser uma escritora frustrada, já que o projeto de ser uma mulher de muito sexo drogas e rock and errou tá pra lá de frustrante, nem preciso dizer que a culpa é do patriarcado, do capitalismo, etc. e tal, né?! É verdade, tá aí um clichê pra lá de verdadeiro. Quase tudo na vida é culpa do patriarcado, do capitalismo e do racismo.

Tá vendo, querido diário? É assim que acordo: pra realidade. Não tem como ficar bem. Aí custa mesmo levantar. Mas, eu todo dia levanto sacudo a poeira e dou a volta por cima. Mas, nem sempre quero lutar as batalhas diárias, eu só quero ficar de boas. Só que não dá pra ficar de boas. Então é uma batalha diária imensa pra conseguir ficar de boas, mano do céu! Tolstói, volta aqui com seu livrão pra gente: Guerra e Paz, é sobre isso. E eu nunca nem li este livro, mas lerei, assim como lerei vários outros. O dia que eu estiver de boa com as contas pagas, rio alto, eu só vou fumar maconha, tomar lsd, ler e escrever. No alto da montanha com tudo azul muito verde o verde sincero o verdeverdade. Com banho de mar cachoeira lagoa. Com boa música frutas e raízes. Na real, eu tô bem assim né, querido diário? Risos. Só falta mesmo eu ter as contas pagas e Mariaalice correndo no jardim. Mariaalice correndo… o tempo está correndo, ela está crescendo e eu perdendo. Eu não me conformo que eu tô perdendo. Puta que pariu! É foda viu, rei? Na moral, eu tenho mesmo muita vontade de um dia encher o pai de Mariaalice de porrada, na mesma medida que um dia o enchi de beijo e deu no que deu: ele encheu meu bucho e desde então estou nesta situação grave. Uma mãe longe da filha. Que não vê a filha perdendo os dentes, nascendo dentes, aprendendo. Puta que pariu. Dá raiva e tristeza.

É por isso que escrevo. Pra não me consumir com a solidão. Os livros e a escrita, ou seja, a palavra escrita, sempre me foi companhia para alegria e melancolia. Escrevo para tentar entender e encontrar sentido. As vezes parece até que o amor a gente inventa pra se distrair, só que não. Quando se inventa já se existe. Se pensa, se  pesa, se sente, logo existe. Ah, nem queria falar de amor na real. Faz tempo isso de amor… risos. Um risinho baixo. Até porque falar de amor na real não tá dando quando o que tem rolando é apenas sexo casual.

Faz tempo que desinstalei o tinder. Ainda assim não tem faltado sexo, tô batendo a cota do mês, risos. Mas, tô a cada dia com menos paciência e disposição para “conhecer” homens. É fácil abrir as pernas, difícil mesmo é abrir o coração. Tô num movimento contrário agora, ao menos estou tentando.

<gente certa é gente aberta>. Abrir mais o coração e menos as pernas. Afinal, hoje sei que abrir as pernas é mais perigoso que abrir o coração. <abre que é sucesso>.

Estava construindo uma historinha com um carinha, que só conheço pela internet. O que é muito novo e loko pra mim. Estávamos nos falando com frequência e eu já estava gostando dele e me achando louca de estar vivendo uma onda assim. Mas, em algum momento da história ele esfriou, deu ré, sei lá o quê, embora ele não assumisse isso mas agisse assim. Eu parei. Parei porque não quero lidar com nada que me gere angústia e porque expectativa só é bom quando se tem perspectiva. Parei porque onde não há reciprocidade, não de-moro mais.

– Eu já tenho muita coisa pra lidar. Pra mim não faz sentido estar nesta relação sozinha.

Beijos e tchau. Ainda conheci uns três caras pessoalmente mas não me eram atraentes. E não digo de beleza física, porque eles eram sim bonitos, mas, a atração vem de outro lugar também para além de pele osso músculo.

Falando sobre tesão e atração, abro parênteses: eu tive um debate num grupo de whatsapp com uns amigos de Salvador. Foi polêmico e tenso. Falamos sobre como as atrações e desejos são construídos socialmente e como nossas pautas ainda são individualizadas. Há muitos comportamentos que banalizamos e naturalizamos, mas que se pararmos para investigarmos a fundo, eles nos revelam o quanto ainda precisamos rever nossas posturas. Nossa, me senti mal e as porras, mas, no fim da contas, achei bom ter falado no grupo ali com amigos que teriam paciência de me escutar e me trazer seus argumentos pra eu me ligar. Fecha parênteses.

Voltando sobre o tópico tesão, a verdade é que ando com as contas, o tesão e angústias acumulados. <In crise pero take it easy>.

Faz tempo que ninguém dorme na minha cama. E pra te ser sincera, querido diário, eu nem tô querendo. Eu tenho minha rotina, minhas manias, minhas músicas, e sinceramente, não tô afim de negociar. O último carinha que eu conheci eu até curti. E tô querendo conhecer mais. Mas, tô suave. Num momento de ir muito devagar e só deixar rolar. E se não rolar eu não vou me importar. <cansei de ser sexy>. E afinal de contas, quem perde são eles, sempre.

Tenho feito muito o exercício de me pro-curar. Os caras que eu mais amei são os que eu mais me decepcionei. Outro dia me dei conta que só fiz poesia quando amei e no fim das contas o que era inspiração vira um verso medíocre. E muitas vezes eu insisto nestes pequenos versos medíocres que nem cabem num poema, só é problema cuja teorema se faz dilema: amar os homens.

Muito tem se falado de amor próprio e autocuidado autoconhecimento autonomia. Vejo que geral confunde vaidade com amor próprio. Vejo que geral tá tão traumatizado magoado e cansado de relação que se protege na solidão e usa aplicativos pra suprir a carência.

Tenho dito e repito: eu amo a solidão. Mas cada dia que mais estou nela mais vejo a necessidade de nos relacionarmos. A gente se perde facilmente na solidão em nosso ego. E se não estivermos atentos e fortes, facilmente nos afogamos em nossos egos. E facilmente encontramos argumentos e justificativas que construímos muito bem para não lidarmos de fato com nossos sentimentos, tormentos e momentos. É fato que a culpa é do patriarcado do capitalismo do estado etc. e tal, mas se a gente quiser mesmo a tal da autonomia a tal da liberdade, a gente tem que encarar o peso de nossa cruz e carregar até o fim. Acontece que muita vezes carregamos mais do que a nossa própria cruz. As vezes a gente nem percebe e quando vemos estamos cansados e doloridos com tanto peso que não é nosso. Desfazer do peso que não é nosso faz parte da luta contra o sistema. E não é fácil, principalmente para as mulheres.

Quinta-feira passada, mais precisamente dia 20 de maio, estava bem frio porém, sol. Eu e um brother, Daniel, fomos ao Beco da Lua. Tomamos lsd e curtimos o mar, as dunas. Passamos o dia comendo frutas, ouvindo e cantando músicas e sentindo a brisa. A gente gosta de brisa, de vento não. Vimos a lua chegar e as estrelas brilharem. Estava de fato muito lindo e altas vibes. Por uns instantes me concentrei olhando muito pro céu estrelado. Vi que as estrelas se interligavam entre si com suas correntes energéticas que pareciam veias ou raios, cores roxas, lilás, e íam se formando uma grande teia! Pude ver os átomos e me senti envolvida nesta teia, sentindo e vendo as vibrações sonoras e energéticas, bem metafísico. Sempre tenho essas visões quando tomo lsd. Sinto meus olhos como um microscópio capaz de ver mesmo a natureza viva, biologia que chama.

Estava escurecendo e ficando bem frio. Eu e Daniel pegamos nossas coisas e seguimos a trilha para voltarmos pra casa. Fui a frente caminhando sem parar. Em um dado momento, parei no alto para esperar o Daniel e aproveitei pra respirar. Olhei pra trás e vi quanta beleza eu havia deixado pra trás. Vi o lindo caminho pelo qual percorri. Lembrei de um poema que recitei por muitos anos num grupo de teatro: Tribo do Teatro, na nossa peça: Quem descobriu o amor? Por onde há beleza eu ande. Dizia o poema. Seguimos a trilha e fui pensando em beleza e em amor.

<how can you mend a broken heart>. Eu e Daniel cantamos e choramos essa canção enquanto a lua surgia sob nosso estado de lisergia. A música ainda estava na minha mente. Eu estava me sentindo leve, apesar de ter chorado e sentir esta coisa misturada de amor e dor, eu tava leve. Grata por estar em boa companhia, em contato com a natureza. Me senti orgulhosa de conseguir cuidar de mim. De ser só e me fazer sol. De eu mesma buscar aquecer meu coração. Sim, eu sofro, tenho dias e dias de inércia, choro baixinho que é pra ninguém me ver, mas apesar dos pesares a pesar: estou aqui. E me cuido e gostando muito de ser quem eu sou, porque eu estou construindo essa pessoa: desde alma corpo mente.

Ainda andando, embora um pouco ofegante da subida das dunas, segui pensando e cantando. Pensei o quão o Cuidado ainda é um privilégio. Cuidado pede tempo grana e otras cositas más, que a imensa maioria da população não tem. Pensei nos homens que tampouco exercem o Cuidado de Si e do outro. Eles estão sempre sendo cuidados.

– Deveríamos abandonar os homens, não cuidá-los mais.

Pensei quase que em voz alta. Segui no fluxo do pensamento e neste momento eu só queria poder pensar andar e escrever ao mesmo tempo. Risos. As mulheres, de todas as raças classes e gêneros, não lhes são dadas o direito do Cuidado de Si. O Cuidado de Si é uma questão de gênero, raça e classe e isso Ângela Davis falou no século passado. Ela teve uma história e um percurso político intelectual completamente diferente de muitas outras mulheres feministas, eu inclusive, mas por mais diversas que somos, há um ponto de intersecção entre nós mulheres que nos faz ver que o buraco é mais embaixo. Isso de ter vagina e ser dita mulher, ainda vai nos levar além.

Foda, porque se nós mulheres pudéssemos exercer o Cuidado de Si… foi quando chegamos ao asfalto e meu pensamento foi interrompido quando vi Vick no beco cuidando do pequeno Kenai. Me despedi de Daniel e troquei algumas palavras com Vick e Kenai. Kenai tem apenas 4 anos é filho da amiga da Vick que estava trabalhando. Após trocarmos algumas ideias, peguei meu uber e fui pra casa. Pra variar o uber não subiu a ladeira e subi a pé. Fui subindo a montanha de uma vez sem parar e ao chegar ao topo, na porta de minha casa, parei, respirei e olhei: nossa, quanto beleza há diante de mim. Por onde eu ando há beleza, aprendi isso enquanto ensaiava de descobrir o amor.

Entrei em casa. Já era noite e estava tudo escuro. Apenas me sentei na cadeira. Mais uma vez eu sozinha em casa. E eles? Os homens que eu amei? Nenhum deles estão sozinhos. Chorei sozinha. Chorei alto. Solucei. Chorei pelas três semanas que fiquei na cama. Chorei pelo debate que tive com meus amigos. Chorei pelo Cuidado. Lembrei de ter visto Vick no beco cuidado do filho da amiga. E eu tô cuidando de Vick. Eu não devia estar cuidado de Vick, só de mim e já tenho muito que cuidar. Assim como Vick deveria tá cuidando só de si. Mas, não podemos fazer isso, não podemos simplesmente cuidar de nossas próprias vidas. Não posso dizer a uma amiga: se vira, quando sei que se virar sozinha nem sempre dá. Assim como minha amiga não pode simplesmente negar ajuda a sua amiga, que precisa trabalhar e alguém precisa cuidar da criança. Tudo isso porque os caras, os homens, não arcam com suas responsabilidades. A cada geração eles vão largando suas cruzes e nós mulheres vamos carregando e suportando um peso que não é nosso e cuidando do que não é nosso, porque Cuidar de Si é um privilégio de gênero, raça e classe. É cruel essa verdade, dói e corrói, mas creio que também só há um jeito de nos livrarmos da cruz. Nos cuidando, será pelo cuidado e com cuidado que vamos/estamos nos fortalecendo e criando nossa autonomia. Mas, ainda precisamos de mais força, coragem e verdade pra seguir viagem. E isso perpassa por abandonar os homens totalmente. Abandonar de sermos belas cuidando das feras. Os homens não se cuidam e tampouco sabem se cuidar, sabem nada sobre Cuidado. E confundem Cuidado com Serviço. Mas, definitivamente, não é tarefa nossa cuidá-los. Devemos mesmo abandoná-los: eles que se fodam. Até porque mulherada, nós precisamos nos priorizar e nos cuidar: é político, é urgente. A prática do Cuidado de si é um devir urgente.  Já dizia o poeta: <o mal do mundo vem de nos preocuparmos uns com os outros>.

São 04h20, vou seguir fumando meu dedo de hulk na cama lendo Patti Smith: Só garotos.

Acho que hoje escrevi muito pra um diário, mas é assim. Escrevendo menos a cada dia e a cada dia escrevendo mais. Espero que dê pra entender. Eu só sei que sinto muito prazer em ouvir uma música, fumar uns dedos de hulks e escrever. Não sei explicar o prazer que dá nisso e invento qualquer coisa pra escrever, invento nada, só arranco de dentro de minha mente alma coração. Sempre tem algo pra arrancar. Eu tenho prazer e vício em escrever. Nestas horas eu amo a solidão com todas as minhas forças e agradeço por tê-la. Deixo a solidão ser imensa intensa. Eu gosto. É muito íntimo este momento: ouvindo música fumando maconha escrevendo. Tenho vergonha de divulgar minha playlist. Eu sou muito romântica e como toda romântica, ridícula. Nem sempre quero expor este meu lado. Nem sempre eu estou alinhada com minha razão e emoção, eu venho tentando dia a dia. Tem algo que sempre permanece: a saudade e o tesão. O tesão: que tenho pela música pela escrita pelo beck pelo lsd pelo céu azul pelo verde sincero pelo verdeverdade pela natureza pela beleza pelo sexo nexo plexo.

Ah, querido diário, se não fossem as contas, o ego de um macho ferido, eu tava tão de boa na lagoa, tal como tô agora suave na nave in my dark side of the word com meu poderoso dedo de hulk no alto da montanha na entrada do bosque ouvindo Thievery Corporation batendo no fundo do peito fazendo efeito. Só que não. Tem o patriarcado, o capitalismo. Puta que pariu!

Floripa, 25 de maio de 21

04h37

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6 comentários em “Porque abandonar os homens é um ato político”

  1. Avatar

    Esse texto é profundo..potente mas sobretudo político e poético.
    Amo sua escrita Mãeconheira..
    vou depositar 50 conto.pra suas raizes e frutas.
    Kd seu pix?
    ta ai em cima?
    amooooo teu trabalho

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  2. Avatar

    Eu gostaria de dizer exatamente oq senti lendo seu texto mas, não terei essa capacidade. É seu, saiu de vc é muito verdadeiro e vai de encontro às minhas verdades, vontades, indagações e revoltas com o todo e tudo que envolve a minha vida. Longe de mim ser a pessoa que ouve alguém desabafar ( me senti a Vick) de forma tão honesta pra no final dizer: mas e eu que … Não é essa minha intenção. É que vai tudo de encontro ao meu mundo e eu me identifico. Sinto tanto por ver uma mulher sendo privada da presença da filha sofrendo ao mesmo tempo que tenho meus filhos ao meu lado e tem dias que só queria fugir deles que de forma opressora me prendem ao pai mesmo estando separados. Maíra se nossa loucura fosse um dia perdoada e a gente conseguisse viver livre, de boa na lagoa, curtindo sem culpa e sendo quem a gente quer ser, ninguém ia poder com a nossa vida. Seriamos na terra de forma viva e pulsante a teia que vc vê nas estrelas, estaríamos tão ligadas umas as outras ( todas nós mulheres que sentem essa necessidade), tão fortes, felizes e livres que nada nesse mundo poderia nos parar e é isso que o patriarcado e os homens que serão abandonados por nós temem. Consciência, afeto e poder seria o nosso lema. Por enquanto vivemos frações desse mundo com a sensação de estarmos na contra mão, errando e nos perdoando pra validar nossos desejos e sentimentos. Chorar juntas, e começar tudo de novo nas segundas tem sido nossa religião que serve a um deus cruel que faz parte desse sistema que nos aprisiona. Vc está com um facão numa mão e o beck na outra abrindo os caminhos com o seu talento e que sorte a nossa poder ler e ouvir vc. Obrigada, final do mês vou te fortalecer. Torço por ti, por mim e por todas nós. Pra nao perder o costume, Raul já deixou dito que sonho que se sonha junto é realidade 😉

    Um beijo 🌌😘

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    1. aldeiadosaber

      me segura q eu vou dar um troço! mana do céu, tô em lágrimas, emocionada, suas palavras são certeiras e batem no fundo do peito fazendo efeito, obrigada demais por ler e pelo retorno, mto importante e fortalece demais!

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