Querido diário,

ele me desbloqueou, meu coração se acalmou e o véu de noiva despencou. Ele não me pediu desculpas e nem perdão e não foi minha a sua culpa e eu sei que eu tenho razão.

Eu estava agoniada e angustiada com isso de estar bloqueada. Essa coisa mal resolvida. Nada se resolveu, pero se dissolveu. E é isso que alivia: quando passa agonia de querer resolver. Principalmente quando a gente entende o que a gente sente e logo pressente que ali no presente só fica quando a gente entende o que sente e quer o presente. Tem que querer. O resto é consequência, basta ter consciência. Quando um não quer, dois não amam. Já dizia o poeta-filósofo amigo meu, Martim.

Era sábado de sol. Perto da hora do almoço. Ele devia tá na varanda sozinho fumando seu beck. Eu tava na minha varanda fumando meu beck só vendo a vista. Só vendo a vista. Eu estava agoniada e angustiada, pensando em procurá-lo pra resolver não sei o quê. O celular vibrou. Era ele. Me desbloqueou. Não pediu desculpas e nem perdão. Mas em uma coisa ele tinha razão, o isqueiro roxo de fato não era meu. Achei o meu depois. Não disse isso a ele. Não dissemos muito um ao outro. Não há o que dizer. Na verdade haveria tanto a dizer se houvesse o caso de acontecer. Segui fumando meu beck vendo a vista e senti o fim. Sem desespero, sem tédio.

Ainda era sábado e minha mãe também fez as pazes comigo e pela primeira vez veio a minha casa a visitar-me. Eu achei engraçado, por que eles (ele e minha mãe) brigam e fazem as pazes comigo no mesmo dia? Será que o fato de serem taurinos com lua em gêmeos? Astrologia ou Freud explica? Risos. Acho engraçado essas coincidências da vida.

Ainda era sábado e meu irmão me trouxe um lírio branco. Coloquei próximo ao véu de noiva. O véu de noiva estava brilhante, florido e grande. Lindo. O véu de noiva foi o primeiro ser vivo que trouxe para esta casa. Era o mês de agosto e eu recebi meu FGTS. Paguei todas as contas. Estava andando pela Lagoa e logo ao lado do Terminal de ônibus vi uma floricultura e ao avistar uma planta me apaixonei:

– Moça, quanto é esta planta?

– 55 reais.

Eu tinha 65 reais.

– Como é o nome dela?

– Véu de noiva.

– Vou levar.

Eu estava completamente apaixonada e achei engraçado que minha primeira planta fosse o véu de noiva. Mas, voltando ao sábado passado, dia 28 de novembro, eu guardo datas de tudo, dia que meu irmão me trouxe o lírio da paz, minha mãe me visitou e ele me desbloqueou. Acordei domingo contente e aliviada. E dentro de mim senti um caso encerrado. Aceitando completamente as paradas, não foi fácil, eu até insisti e nisso até errei e pequei encarecidamente. Mas, eu aceitei as paradas. Foi um processo lento na mesma medida do que foi intenso. Quando senti que acabou, o véu de noiva despencou. As plantas escutam, né? Olhei ela no chão e fiquei triste. Tava lá a planta espalhada no chão. Poxa. Ela estava tão linda. Eu cuidei tanto. Cresceu, floresceu, brilhou, e agora despencou. Ok, o vaso não segurou, ficou pequeno. A vizinha me conseguiu algo pra eu transplantar o véu de noiva e cá estou tentando recuperar o seu brilho, sua flor, sua grandeza. Eu ainda estou muito lentamente aprendendo a cuidar de planta.

Tenho observado as aranhas. Toda as noites elas me visitam. Elas são grandes e aveludadas. Mariaalice me disse que elas têm oito olhos. Elas me assustam mas eu nada faço. Observo de longe aquele ser aveludado que agora eu sei que tem oito olhos. Faz sentido. É preciso ter visão para tecer.

Mas, então é isso que eu queria falar hoje, de como tudo está alinhado pelas linhas tortas. As plantas. As aranhas. O desbloqueio. A visão. Tecer entendimentos alinhando coração e razão. Aceitar as paradas.

<I love you. I leave you. Alívio>.

Eu estou suave na nave in my dark side of the word. Com tanta coisa aconte-sendo e tanta para acon-tecer. Eu posso aprender com as aranhas e as plantas. Estou observando. Estou trabalhando.

Floripa, 1 de dezembro de 2020

17h18

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