Querido diário,

<se pensar muito, não tem>, ouvi esta frase no podcast da minha amiga Bárbara Pessoa.

Ela trouxe esta frase para refletir sobre as escolhas de ter ou não um filho. Vou explicar melhor como essa frase aparece e porque a trago aqui.

Ontem, domingo à noite, estava conversando com uma amiga que tá morando nos Estados Unidos e sinto muita saudades dela. Falamos muito de relação, casamento, filhos, idade, vaidade, maquiagens e óbvio, drogas. Mas, por incrível que pareça, a gente se conheceu tomando água, literalmente tomando água. 

Nos conhecemos no outono de 2018, eu recém havia chegado na ilha. Fui curtir um som na Caverna do Bugio, que fica ao lado da UFSC. E quando fui ao balcão pedir água, ela logo se aproximou e muito simpática puxou assunto. Conversamos, fumamos um e quando ela estava pra partir disse:

– Cara, a gente tem que ser amiga, tô sentindo isso…

– Cara, eu acho, mas tu usa drogas? Tipo, vamos sair pra usar drogas?

Quando eu disse isso ela riu muito.

– Com certeza. Sou uma ótima amiga pra usar drogas. Me dá teu whats?

– Putz, não tenho celular. Mas, tu me acha no facebook fácil.

Nessa época eu não tinha celular e tinha facebook, saudades disso, era melhor. Risos.

E pronto, ficamos amiga, mas logo ela viajou pros Estados Unidos, veio a pandemia e ela ainda não voltou, mas a gente segue em contato. E domingo à noite estávamos conversando sobre relações, filhos, casamentos, escolhas, etc., quando eu lhe disse:

– Nossa, mas eu sou romântica, sabia? Eu ainda quero casar e ter filhos, só não sei se é possível.

– Quem diria… 

– É, talvez não role mais, eu já vou fazer trinta e oito anos… olha a minha cara!

– De menininha…

Depois de nossa conversa, fumei um beck, escrevi e dormi. Acordei hoje, segunda-feira, já trabalhando. Por indicação ouvi um podcast do O pessoal é político, o episódio 40: a vida social das mulheres: rivalidade, padrões de beleza e infidelidade. 

Neste episódio, as manas trazem como referência Simone Beauvoir para o debate. Ouvi enquanto fazia as funções da casa. Depois, parei pra fumar meu primeiro beck do dia ouvindo outro podcast, à pessoa bárbara, o primeiro episódio: Mulher 35 anos.

Este podcast nasceu no dia 5 de agosto de 2021, dia que Bárbara Pessoa completa 35 anos e estreia seu podcast refletindo sobre ser uma mulher de 35 anos. São 35 minutos. 

A leonina fala sobre várias coisas. Eu como uma pessoa que estuda antroposofia achei desnecessário ela falar sobre os setênios, pois como ela mesma diz, não se aprofundou e o que ela leu não lhe instigou a aprofundar-se, e ela não nos apresenta de fato o que ela leu sobre e o que lhe afasta. Mas, achei interessante ela começar seu podcast falando de como ela pesquisou sobre suas questões e ela nos traz o seu processo de pesquisa, reflexão e seu exercício de pensar. E isso me interessa muito mais. 

Seguindo este fio, ela traz suas experiências e o que as mesmas a levaram a refletir, pensar. Logo, temas como idade, maternidade compulsória, adoção, feminismo, aparecem. De como somos educados para além da nossa casa e que não estamos nem um pouco blindados de uma educação estrutural que existe no mundo fora de casa. 

<Se pensar muito não tem> e quando eu ouvi essa frase pensei nas coisas que tenho silenciosamente refletido. Às vezes penso que nunca mais terei uma relação ou outro filho, porque acho muito difícil vivermos uma relação sem as questões de gêneros atravessadas, de encarar uma gravidez, amamentação, corpo, noites sem dormir, etc. Às vezes acho que já não tenho mais idade pra isso. Embora, eu faço muito a autocrítica e também penso o quão ridículo é eu sentir e pensar tais coisas, reforçar tantos padrões. 

E concordo quando Bárbara Pessoa diz que tem que pensar sim. Eu pensei muito antes de decidir engravidar. E quando Bárbara Pessoa questiona as mães feministas que quase sempre respondem: eu sempre quis ser mãe, eu me vi. Porque eu sempre respondo isso. Eu sempre quis ser mãe. Casar e ter filhos. Ter uma casa com quintal e jardim. Família. E sei que todo este querer vem dessa educação estrutural, que nós mulheres somos criadas para tal. 

É como diz o Schopenhauer: o homem (vamos colocar aqui a Mulher) é livre pra fazer o que quiser, mas não para querer o que quer. Essa sentença filosófica por si só é uma sentença muito profunda. Estou há um tempo meditando nela. 

A proposta de Bárbara Pessoa é que investiguemos e politizemos nossas falas. Fica mesmo difícil delimitar o que de fato é do nosso querer. Mas, fica fácil delimitar o que não precisamos. O que não devemos. 

Faz um tempo que penso em ir pra um convento. E investigando mais a fundo isso, sei que a solidão ora me afaga, ora me afoga. Me sinto tão machucada, magoada e cansada de não ter relações ou só historinhas chatas, etc. e tal, que me sinto desistindo total do rolê, me parece ser impossível casar, ter filhos outra vez. 

Sempre me pergunto se iria mesmo tolerar várias atitudes machistas numa relação? Se teria coragem de encarar outra gravidez, amamentar, ficar sem dormir, etc.? 

Eu adiei muito minha “vontade” de ser mãe. A primeira vez que engravidei, aos 23 anos, e foi muito por azar, eu abortei. Porque eu queria ter um filho com um cara legal, numa relação, casada, formada na faculdade, trabalhando, etc. 

Eu pensava muito e deixava pra depois. Lembro que quando decidi engravidar, eu pensei: nossa, estou com o homem que amo, a gente se ama, temos uma história, já estou formada, trabalho etc, mas ainda não fiz mestrado e ainda não tenho total autonomia financeira, mas já estou com quase 30 anos e quero muito ter um filho, ele também quer, ah é agora, vamos! 

E com quase 29 anos pari. Mas, acho que se eu pensasse um pouco mais, teria feito pelo menos o mestrado antes. O meu companheiro na época queria muito e isso era sempre um tema, plano, sonho nosso. Mais uma vez: difícil demais a gente saber até quando era mesmo desejo, sonho, vontade, não dá pra escapar da maternidade compulsória. 

E hoje eu penso, que se pensar muito eu não tenho. Não terei outro filho ou mesmo outra relação. Até porque, se pensarmos numa perspectiva feminista real, essa ideia de casar e ter filho, vai sempre nos foder. Não dá pra escapar do machismo estrutural e não há cara legal.

Ah, mas se eu conhecer alguém, amar e ser amada, tudo pode mudar. Risos. É disso que se trata. Rídiculo. Obviamente, ainda conhecerei carinhas, pode rolar umas paixãozinhas, uns lances, um romance, mas o fato é que essa ideia de relação e maternidade que é foda e difícil demais de se libertar. 

A gente até se liberta um pouco. Mas, creio que o medo nos leva para lugares conhecidos e nos impede de avançar. O desconhecido, o estranho, inseguro, poucas de nós encaramos ainda. 

Ah, mas e o convento? Aí, eu tô indo de um extremo ao outro né, querido diário? Risos. A minha frustração do casamento me leva para o convento. Mas, é algo que estou pensando muito. E talvez, eu ainda pense por mais uns anos.

<se pensar muito não tem>, ora, mas se ao pensar muito você não tem, não faz, é porque não deve/precisa mesmo! O lugar que o pensar muito te leva é no fim o mesmo que o pensar pouco te leva. 

Bom, passei o dia na cozinha: eu e Mariaalice fizemos bolo de cenoura com cobertura de chocolate, pão, molho a bolonhesa para o almoço de amanhã, suco de maracujá. Vimos um episódio de As aventuras de Poliana, li um pouco de um livro pra ela e logo ela apagou. Fiz um beck e vim pra cá, pra my dark side of the word com pink floyd. 

Me culpando porque desde que cheguei a Bahia não tenho feito atividade física, máscara de argila. Só trabalho, cuido de casa e fico com Mariaalice. O tanto que usei meu tempo hoje pra cuidar de casa, comida, pensei: impossível ser intelectual, escritora, com tantas funções de mãe e dona de casa, Virginia Woolf estava certíssima. Simone Beauvoir também. 

Aliás, eu deveria estar lendo e escrevendo pros blogs que me pagam para tal, mas eu precisei muito vir aqui, querido diário, cê sabe que quando tô com umas coisas na cabeça, no coração, é aqui que venho né? Tô cansada pra caralho, amanhã acordo às 06h30 para preparar café da manhã com frutas e raízes, Mariaalice assistir aula e enquanto isso cumprir algumas funções do trabalho pelo celular, amanhã vou tentar fazer pilates e depois do almoço trabalhar para no comecinho da noite conseguir curtir algo com Mariaalice. 

Vou por um copo d’água. Mais um beck. Ao som do Pink Floyd. E boa noite!

São Félix, 09 de agosto de 21

23h45

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Ouçam os podcasts citados no texto:

à pessoa bárbara: Mulher 35 anos

O pessoal é político: a vida social das mulheres: rivalidade, padrões de beleza e infidelidade.

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