<Peço licença, obrigada e de nada> para apresentar-lhes algumas mulheres marginais bandidas putas drogadas viciadas intelectuais professoras funcionárias públicas hippies autônomas depressivas suicidas ansiosas hiperativas sexys vulgares solitárias alcoólatras nicotina na veia:

Ana Cristina César Christiane F. Patti Smith Virginia Despentes Teresa Jardim Margareth Castanheiro Leila Míccolis Ametista Nunes Semírames Ribeiro Maria Rita Kehl e tantas outras, estes nomes são apenas alguns que fazem parte de minha trajetória pessoal.

Mulheres cuja a vida lhes deu cigarro e café e uma tosse chata de cigarro e café e pigarro de cigarro e café e dentes amarelos de cigarro e café manchas no rosto de cigarro e café um humor de cigarro e café.

Não se sabe quando e quem ao certo inventou a combinação de cigarro e café e há algum poder nisso de consumir cigarro e café algo de moderno nisso de consumir cigarro e café algo de “liberdade” nisso de cigarro e café algo de se “apropriar” do corpo isso de cigarro e café algo de modernização do mercado de trabalho do mercado de consumo isso de cigarro e café, isso para elas, as belas, que se recusaram a serem recatadas e do lar e lá vem isso do cigarro e café e ainda era ditadura e não podia piscar o olho, entende porque o cigarro e o café?

Essas mulheres são escritoras, mulheres públicas, mulheres que tomaram de assalto a palavra para si e a palavra como instrumento e razão de seu devir, a palavra que vem da experiência a palavra que é desabafo que é a escrita de si como exercício para a construção de sua própria narrativa história entendimento, a escrita de si que nasce da experiência, da realidade, a realidade é anterior depois é ficção, a palavra se dá na sua relação com a práxis e tal práxis no processo de construção da palavra se reconstrói e se transforma.

Elas vieram depois do voto. Depois do divórcio. Depois de queimarem os sutiãs. Depois do trem das onze. Depois das quatros estações. Depois de maio de 68. Estamos na década de 1980. Ainda o muro de Berlim. Ainda ditadura. Ainda máquina de escrever. As mulheres seguem buscando e conquistando lugares.

E elas estão em toda parte em todos bares praças praias becos salas de aula estradas palcos. Elas pedem carona recitam poemas escrevem diários cartas ensaios teses crônicas romances textos prosas, trazem o eu, o íntimo, para o público. Recitam em praças públicas grávidas, amamentando, de top less, nuas. Falam palavrões. Fumam maconha. Dão teco com chave ou com qualquer canudo feito de papel de qualquer valor. Papel. Papéis. Elas escrevem nestes papéis. Elas se inscrevem nestes papéis. Elas cheiraram esses papéis. Elas rasgaram esses papéis. Elas foram internadas nestes papéis. Elas se mataram nestes papéis.

Elas se impuseram com suas palavras. São mulheres beats e marginais que encontraram na escrita de si um caminho para sua emancipação e libertação. Se colocando como sujeita e autora de sua própria história.

Ousaram tornar público suas vidas de sexo drogas e rock and errou porque sim. Porque a estética de sua existência imprimia os versos de suas sinas deixando escapar os vestígios e manchas de café cigarro ou qualquer outra droga mais pesada: like a rolling stones.

Seus escritos nos revelam uma mulher que fala por si e decide por si sobre seu corpo sua vida sobre si. Elas dão a palavra. Engolem café e cachaça. Apagam o cigarro e o beck.

Essas mulheres escritoras são a Poesia Marginal. A geração mimeógrafo. O desbunde. As beats.

Sem explicações. Sem implicações. Não me preocupo em contextualizar a realidade deste meio literário onde o machismo também versou. Agora estou interessada somente nelas. De como elas versaram sobre suas vidas. De como elas verbalizaram sobre sexo, drogas e rock and errou. De como elas usaram o sexo as drogas e as palavras ritmada no rock para se impor. Ainda que fosse para se matar. Para se perder. Para enlouquecer. Havia um encontro aí. Que só se desencontrou-se por conta das pedras no caminho, dos olhos de ressaca e da mão que afaga.

Maíra Castanheiro

Historiadora e escritora

Florianópolis, 07 de setembro de 18

Ilustração da artista, escritora e psicanalista Luane Campos.

 

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