Querido diário,

agosto passou feito furação, nem deu pra esperar setembro. Foram treze Lsd’s que durou uma fase lunar completa: vinte e oito dias. Tanta lisergia me trouxe muita alegria melancolia e terapia. Chorei e gozei. Ri e transcendi.

A vizinha pseudo bruxa foi embora. O vizinho que tinha nome de anjo também se mudou, mas antes de partir quis se despedir, me deu várias sedas achando que eu ia lhe agradecer com prazer, para o seu azar me limitei a um muito obrigada e até mais. Mantendo a distância.

Novos vizinhos por aqui.

Dois garotos vieram morar acima da minha casa. Um tocava violão e parecia um urso. Enquanto eu tomava banho de sol deitada na rua fumando um beck, ele tocava violão e trocávamos algumas palavras sufocadas pelos latidos dos cachorros do outro vizinho. O vizinho urso que tocava violão parecia bem simpático mas não tivemos muita oportunidade de conversar. O outro, com cara de mexicano, pequeno, parecia um passarinho. O urso que tocava violão logo partiu e o passarinho com cara de mexicano ficou sozinho.

Um dia, uma fumaça muito forte adentrou pela minha casa e era cheiro de algo queimando. Bati na porta do vizinho, pois sua casa é inteiramente de madeira, pra saber se a fumaça não estava vindo da casa dele. Ele verificou e nada. A fumaça estava cada vez mais forte. Ambos ficamos preocupados e procuramos a fumaça. Onde há fumaça há fogo. Até que encontrei! A fumaça na real vinha do meu banheiro, mais precisamente da lixeira do banheiro. Putaquepariu! Que cagada! Literalmente! Caguei fumando um beck e joguei a ponta, ainda acesa pelo visto, no lixo, razão pela qual estava pegando fogo. Joguei a lixeira debaixo do chuveiro que tem do lado de fora da casa. Por sorte não queimou muito, mas foi um perigo, já que boa parte do banheiro é de madeira, ou seja, o desastre poderia ter sido enorme e isso me lembrou de um episódio de minha infância quando o sofá que foi herança da minha bisavó paterna, pegou fogo.

Eu e o vizinho rimos da cena e o chamei pra fumar um beck, tomar um café e comer pão de queijo. Ele era mais jovem do que imaginei. Nerd como pensei. Perguntei-lhe de onde era:

– Cruzeiro, São Paulo.

– Sério?

– Sim, tu conhece?

– Mano, até outro dia nunca tinha ouvido falar. Mas daí conheci um cara de lá e agora tu, meu vizinho. Curioso isso.

Rimos. Ele me ajudou a pendurar meus novos quadros de umas colagens que fiz e mandei emoldurar. Também me ajudou a pendurar meu Véu de Noiva que comprei com os últimos trocados do meu FGTS.

Os dias se passaram feito furacão no meu coração. Era uma quinta-feira, a última de agosto e eu devia assistir a aula do mestrado mas fui tomar lsd com duas amigas. Passamos o dia deitadas na grama tomando sol, rindo e chorando. A noite chegou. Cá foi pra casa. Lá dormiu. Eu chamei um uber e no caminho um contato do tinder queria me ver:

– hoje não estou afim de me arriscar com gatos desconhecidos.

Respondi curta e grossa. Excluí o tinder de uma vez por todas. Mandei mensagem pro vizinho de Cruzeiro que parecia um passarinho com cara de mexicano mais jovem do que pensava nerd como pensava.

– Mano, tá acordado? De boas?

– Tô sim, diga aí.

– Tô chegando em casa. Vamos fumar uns becks?

– Claro, chega aí.

Cheguei e fui direto pra sua casa. Lhe contei que tinha tomado um doce inteiro. Ele riu. Fumamos beck com haxixe.

– Eu já morei aqui. Na real passei uma semana aqui porque teve que reformar meu banheiro. Legal aqui também, né? Mas cara, vamos ajeitar essa luz!

Eu falava sem parar. Sorria sem cessar. Desci e fui a minha casa, peguei meu abajur e levei pra casa dele.

– Agora sim… outra coisa essa luz né, rei?

O vizinho só ria.

– Agora bota um som aí, DJ!

– O que tu quer ouvir?

– Ah cara, coloca aí o teu, até porque estou enjoada do meu. Mostra o teu que eu mostro o meu.

Rimos. Ele colocou o guitarrista do Red Hot Chilli Peppers pra tocar. Fumamos mais um beck com haxixe. Eu estava vermelha do sol e os cabelos iluminados. Me sentia linda e feliz. Desabafei com o vizinho. Contei-lhe que foram vinte oito dias usando Lsd. No total foram treze. Sozinha, com um amor, com as amigas, fazendo trilha, trabalhando, pequenas doses, médias doses e máximas doses… e em todas as vezes acessei muito de minhas histórias e questões e as pessoas com as quais usei e compartilhei, também. Foram momentos de muitas entregas, intimidade e confiança. E como foi importante pra mim, falar para as pessoas o que eu precisava ouvir de mim para mim. E em todo este processo a História, o Ser e o Tempo, estiveram como ideias concretas e abstratas, como sentimentos e matérias. Nosso Ser é Tempo e História e se explica e tem seu sentido na própria História e no próprio Tempo. A hermenêutica do sujeito.

– Agora, me fala aí de tu. Eu tenho certeza que tu deve ter algum B.O. Largue o doce, vá.

Eu disse num tom bem baianês e o vizinho ria. Me contou sua história e sim, era B.O.

– Mano do céu! Tu só tem vinte e dois anos e já tudo isso nas costas, rei?

Rimos mas, falamos sério. <Mantenho o bom humor mesmo quando falo sério>.

Fumamos muito, rimos muito. Ele ainda me serviu um jantar simples e gostoso. Eu tinha passado o dia inteiro sem comer. Antes do sol surgir vim pra minha cama, sozinha. Agradeci o vizinho a companhia, a conversa, os becks com haxixe, o jantar e principalmente por me salvar, pois quase me arrisquei a fumar um beck com um gato desconhecido do tinder que provavelmente não valeria a pena.

Apaguei na minha cama. No dia seguinte pensei e refleti sobre tudo. Eu sei, ele sabe, nós sabemos. Saber todo mundo sabe. Saber é fácil. Difícil é saber o que fazer com o que se sabe, isso que é sabedoria: Ação. Movimento. Prática.

Pensei que mais uma vez estou desempregada. Mas desta vez não quero mais uma vez me desfazer de minha casa e trabalhar de qualquer coisa. Eu já aguentei muita coisa para sobreviver e agora o que eu quero é viver. Mais uma vez me senti muito perto de ter uma mínima estrutura ideal para estar com Mariaalice e mais uma vez chegou a roda viva e carregou o destino pra lá. Eu chorei. Despois me tranquilizei e sei que tudo que preciso é seguir meu caminho, cumprindo minhas responsabilidades, fazendo meu melhor. Pensei também o quanto eu tenho que trabalhar com o que já tenho e só isso é coisa pra caralho, enfim, preciso me concentrar.

Usando o lsd como instrumento e me entregando na relação, com o lsd e com quem estava comigo no momento, percebi sobre os meu sentimentos. E isso tem a ver com o Ser, com o Tempo e com a História. O meu Ser, meu Tempo e minha História. O Ser, o Tempo e a História do outro. Para conhecer o outro é preciso de Tempo e História. O sentimento acontece na presença. Na duração da presença. A relação acontece na duração. A relação acontece no Tempo. O sentimento quer envolver e desenvolver. O sentimento quer preservar a relação. O sentimento vem com o Tempo.

Pausa. Bateu em minha porta uma nova vizinha que pela hora pensei estar vindo reclamar do som só que não, na real ela estava desesperada porque sua internet não funcionava e como ela queria estar como eu: ouvindo Pink Floyd e fumando um baseado. A convidei para entrar e ouvir Pink Floyd e fumar um baseado, pois era a única forma que eu poderia ajudá-la já que nem ideia de como ajeitar a sua internet. Ela falava português com alguma dificuldade, num tom de voz muito baixo abafado pela máscara e eu fiquei impaciente de conversar assim, sem entender. Tive vontade de pedir-lhe para tirar a máscara e falar mais alto. A propósito ela é Síria, tem duas filhas, e acho que entendi alguma coisa com advogados e separação. Ela me dizia tudo isso com seu IPad em mãos e o olhar aflito. Muita informação em segundos e eu impaciente de não estar entendendo completamente o que ela me dizia num tom de voz abafado e baixo com português razoável. Ela queria me pagar para usar minha internet e tentei lhe explicar que eu usava a mesma que ela mas que por alguma razão na minha casa o sinal era melhor.

O seu olhar permanecia aflito e ela não parava de falar e eu irritada por não ter como ajudá-la e por não entendê-la plenamente. Insisti pra ela entrar e assim sentarmos e fumarmos um beck conversando com calma, mas ela não quis. Nos despedimos e pelo que entendi ficamos de nos falar amanhã. Mulher. Síria. Bahia. Floripa. Advogados. Separação. Filhas. Pink Floyd e Beck.

Ok, vida, tô anotando. Tô percebendo. Vai vendo. Outra pausa. Uma amiga irmã me chama no whats, pela hora e nossa intimidade atendi prontamente. Ela me conta sua história: ela estava em seu apartamento na capital da Bahia quando de sua varanda percebeu uma confusão na frente de seu prédio. Um casal estava a cavalo e o cara chicoteava a mulher. Muita gritaria, minha amiga desce e consegue acudir a mulher e leva-la para a delegacia da mulher. Ela me procura porque precisa de contato de advogada. Ok, passo contato e converso um pouco com ela.

Jorge Amado querido, isso foi em Costa Azul viu? Tu perdeu essa cena meu amigo, em véspera de feriado. Ri e fiz um beck.

Algumas mensagens no whats. Dispensei o boy do Canto da Lagoa, o boy dos Ingleses e o boy da Costeira. Eu não sei ficar de papinho furado.

– Boa noite.

– Ei, tu dorme com calcinha?

– Não vou responder este tipo de coisa.

– Hehe, foi mal. Foi só curiosidade.

– Se não sabe puxar papo, não vai puxar calcinha.

Eu disse pro boy do Rio Tavares e o dispensei. <Há sempre um homem para uma mulher>.

Zerei a discografia do Pink Floyd. Tomei café e comi goiabinha.

Querido diário, na real eu queria mesmo era falar de amor, mas perdi o fio da meada ou medo de ser piada.

Florianópolis, 7 de setembro de 20

02h11

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