Querido diário,

eu tenho muita coisa pra falar. Desde que comi o cogumelo mágico, 3 de julho, e passei o dia seguinte, 4 de julho, chorando e vomitando por 20 horas sem parar, que estou pra escre-ver, pero me falta tempo e disposição.  

Chorei e vomitei tanto que vim pra Bahia vazia. <Enter the void>. 

Mas, não é sobre isso que hoje eu vou falar. Inclusive, querido diário, hoje eu pretendia falar de nossa relação, precisamos mudar nossa relação, mas este papo vai ficar pra depois porque tenho um assunto mais urgente. 

Um assunto que me parte o coração, toca no fundo da minha alma e me dá tristeza e revolta. 

Hoje é o dia mundial da amamentação. Mas, Suzi, que nasceu na última quarta-feira (28/07 às 10h32), não vai mamar. Embora as evidências científicas confirmam que a amamentação em livre demanda seja o ideal para uma pessoa crescer saudável e os estudos mais atualizados da pediatria, psicologia infantil, ressaltam a importância dos primeiros mil dias de uma criança, Suzi, que só tem 4 dias de nascida, não vai mamar. E está sozinha com seres estranhos. 

E a culpa é do Estado. Dos homens. A raiva e a fome: é coisa dos homens. 

A mãe de Suzi: Andrielli Amanda dos Santos tem 21 anos. Pertencente a comunidade Morro do Horácio na ilha da magia: ela é do povo e não da burguesia, pariu sua filha no hospital, que ao nascer apenas mamou um pouco e logo foi retirada de sua mãe pelo Conselho Tutelar.

O argumento do Conselho Tutelar: Andrielli em 2019 morava na rua e era usuária de drogas. E agora, em 2021, o Conselho Tutelar lhe arranca sua filha de seu ventre e de seus seios. Andrielli é uma mulher preta periférica, ativista do Movimento de População de Rua e estudante do EJA População de Rua. Tem família, tem companheiro. O companheiro não pôde registrar a filha. Ninguém da família pode ver a filha. A mãe não pode ver a filha.

O peito de Andrielli dói. Absurdamente dói. A médica lhe sugeriu tirar leite para amamentar a filha, mas Andrielli quer amamentar a filha em seus próprios seios. Olhando nos seus olhos. Segurando as mãozinhas de sua filhinha. 

Não há caminho livre para as mulheres. Não há caminho livre para as mulheres negras, periféricas e indígenas. Há muitas pedras no caminho. E no caso de Andrielli, no peito. E agora ela tem que tirar leite da pedra. 

O Estado não garante as condições mínimas de sobrevivência e dignidade, mutila as mulheres de todas as formas. Andrielli tomou mais de cinco injeções para fazer uma cesária. Sofreu violência obstétrica. Não pôde registrar a filha, não sabe onde a filha está e não pode amamentar a filha. E o leite? Tá feito pedra lhe doendo desde o âmago batendo no fundo do peito fazendo defeitos – que talvez nunca sejam reparados. 

Não importa se Andrielli viveu em situação de rua ou se a mesma foi usuária de drogas. Mães em situação de rua e usuárias de drogas são capazes de ser Mãe. E é DEVER DO ESTADO GARANTIR PARA CADA CIDADÃO OS DIREITOS BÁSICOS DE VIVER COM DIGNIDADE. 

Mamãe, mamãe, chore. A vida não devia ser assim mesmo. Mamãe, mamãe chore, porque você tem um coração fora do peito – um pedaço que lhe arrancaram de ti, uma metade que afastaram de ti, uma metade que exilaram de ti.

Maternidade e Drogas são as pautas mais urgentes de nossa sociedade. Suzi, só tem 4 dias. E toda a sua vida já está sendo marcada por uma violência que ela é incapaz de se defender e de entender. 

E terá que ser nós: mães, mulheres, feministas, ativistas, etc e tal, que vamos ter que proteger a Suzi. Que vamos ter que acolher a dor de Andrielli e tirar este leite da pedra. Ou melhor, tirar as pedras que estão no nosso caminho, no nosso peito, nos nossos rins, e devolvê-las aos donos. Jogar na cara! 

Eu nem sei como terminar este texto. Eu só quero que esta história chegue logo ao fim sem o nosso fim. 

São Félix, Bahia, 01 de agosto de 2021

03h13

Ouvindo Mamãe coragem na voz de Gal
Ouvindo Pedaço de mim na voz de Zizi Possi

Ouvindo Meu guri na voz de Elza Soares

Ouvindo meu coração apertado chorando calada
Ouvindo minha mente que não dorme com um barulho desses.

Atenção: Andrielli está precisando de nossa ajuda! Compartilhe sua história. Faça um pix: CPF 02234756960 Kaionara.  

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